"Façamos caminho para a graça; resgatemos o tempo perdido, porque temos pouco tempo, a morte nos segue de perto; estejamos bem preparados para isso; porque morremos apenas uma vez, e um fracasso pode ser irremediável. Repito: entremos em nós mesmos."
INTRODUÇÃO
[...]
Mais de onze séculos antes do Irmão Lourenço, outro monge chamado Bodhidharma
tinha desenvolvido um caminho de vida que não era tão diferente do praticado
pelo monge carmelita. Bodhidharma, no entanto, era um monge budista indiano.
Ele viajou pra China e pelo sudeste da Ásia, levando consigo ensinamentos que
desenvolveu uma nova compreensão do Budismo. Seus ensinamentos eram, de acordo
com escritos sagrados seguintes, uma transmissão original fora das escrituras,
não estabelecida em sutras, apontando diretamente para a mente. Ele ensinou que uma pessoa poderia despertar
pra verdade e à iluminação focando a atenção em sua essência interior. Hoje, ele é tido com o primeiro ancestral do Zen Budismo. No coração do Irmão Lourenço a prática era simplesmente Zen, - para ser
capaz de testemunhar o despertar da iluminação, o foco teria de ser no momento presente.
Este caminho chamou não somente a atenção dos líderes da igreja durante o seu
tempo; ao longo dos séculos tem continuado a chamar a atenção daqueles que veem
na vitalidade de Irmão Lourenço um modo de se relacionar com Deus, que a
cristandade muitas vezes negligenciou. Outros místicos incluindo Mestre Eckhart
e Santa Teresa de Ávila poderiam explicar isso mais detalhadamente em seus
escritos: o Irmão Lourenço simplesmente o vivenciou. Nem todos os cristãos
acolheram essa perspectiva. Ao longo dos anos, muitos condenaram o Irmão
Lourenço por “perigosa ausência de doutrina”; para o fortalecimento do próprio encontro, ao invés de simplesmente obedecer e compreender intelectualmente à Bíblia. (Curiosamente,
muitos budistas tradicionais olham para o Zen com o mesmo medo e suspeita). Cristãos e budistas podem ter dificuldade em se comunicar porque usam
vocabulários diferentes, léxicos distintos para falar sobre o significado da
realidade. Suas palavras parecem mutuamente reservadas. Como se pode dizer que
uma pessoa como o Irmão Lourenço apaixonada por Jesus Cristo, teria algo a ver
com a dura suavidade do Zen? Como cristãos, no entanto, podemos simplesmente
ser confundidos pela terminologia não familiar do Zen. O Zen nos sugere para
abandonarmos nosso foco no ego, para nos esvaziar de nossos apegos egoístas,
desconstruir nossas formações mentais e simplesmente estar presentes à
iluminação. Não tão diferente de Cristo, o Zen nos aproxima da morte do nosso
"eu" para que possamos nascer de novo! Segundo o Irmão David Steindl-Rast,
"os cristãos não precisam de nada quando chamam Deus de amor".
Os budistas precisam refletir quando falam do "vazio", isso pelo
menos nos chama a atenção para o fato de que as palavras são indescritíveis. De acordo com um ensinamento Zen, se você encontrar Buda no caminho, você
deve matá-lo. Esta declaração aparentemente absurda e sem sentido nos lembra ter cuidado ao tentar caprichosamente confinar a nossa fé. Quando fazemos isso, criamos falsos deuses. Sabemos bem
que nos apegamos à imagens, precisamos das aparências que nos é revelada, e sentimos
a falta de realidade. Irmão Lourenço nos apresenta uma nova face do
Cristianismo. Mantendo suas palavras à luz dos mestres budistas, essa face pode
se tornar ainda mais misteriosa. Pode nos pedir para matar o Cristianismo que
pensávamos que sabíamos - para que possamos alcançar a presença de Deus. Anne Morrow Lindbergh escreveu sobre o “viver como uma criança ou santo na
urgência do aqui-agora". O presente momento é transitório, é também onde entramos
em contato com Deus, que nos apresenta o inaudito tempo-presente como: EU SOU.
Esta é a presença que o “Irmão Lourenço da Ressurreição” experimentou há quase
quatro séculos atrás. E a prática do Zen nos permite conhecer essa presença,
penetrar nela, oferecer nossa atenção plena no agora. Atenção absoluta,
escreveu Simone Weil, é “oração".
Mark
Giroux
Irmão Lourenço, foi um místico
carmelita francês do século XVII. Desenvolveu uma simplicidade distinta para sua época. Desempenhou em seu
convento as funções mais humildes, como a de cozinheiro e sapateiro. O único
método espiritual da sua vida foi o exercício da “Presença de Deus”, que dá título a sua única obra, um apanhado de cartas e conversas.
http://fradescarmelitas.org.br/a-pratica-da-presenca-de-deus-irmao-lourenco/


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