Este fruto do Zen, a iluminação,
transcende todos os conceitos; não pode ser entendida por meio de filosofias ou
pontos de vista, não tem ligação com nada disso. É uma coisa rara, que tem o
poder de libertar todos os seres dos seus medos e ansiedades. Tudo cai como um trapo
sujo encharcado. Mestre Dogen (1200-1253) escreveu fazendo referência
à sua experiência de iluminação: "corpo e mente caídos (shinjindatsuraku)". Há muitas histórias
sobre iluminação, algumas delas até de europeus. Mas vou me referir aqui,
sobre o testemunho de Kosen Imakita, por ser mais ilustrativo: "Numa
noite, enquanto eu estava absorto em meditação, de repente, me encontrei num
estado muito estranho. Eu havia morrido. Tudo tinha sido arrancado. Não havia antes
nem depois. O sujeito e o objeto, o “eu” tinha desaparecido. A única sensação
foi que, o mais íntimo de mim, estava totalmente unificado e cheio do todo, acima,
abaixo e ao redor. [...] Depois de um certo tempo, voltei a si como alguém que
ressuscitou dos mortos. Meu enxergar, ouvir, falar, meus movimentos e meus
pensamentos eram diferentes dos que tinham sido até então. Quando balbuciei falar
sobre a realidade e sobre o significado do incompreensível, percebi tudo”. Não
podemos expressar de forma fiel em palavras esse tipo de experiência, porque o conceito
já implica uma interpretação e passa a não ser mais a verdade. Ponderando assim,
pode-se dizer que a iluminação é a experiência total. Evitamos a palavra
"Deus", porque está associada a muitos conceitos, com as quais concluiria
essa experiência em nossas representações mentais limitadas, o que é totalmente
incompatível com seu caráter ilimitado. Aquele que experimentou sabe que essa realidade
existe, independentemente se as pessoas acreditam ou não. Hoje em dia, há
muitas pessoas que passaram por essa total unidade do ser, mesmo sem praticar o
Zen, com outras formas de meditação. No entanto, devemos acrescentar que essa
experiência de total unidade, ainda não é a iluminação do Zen, mas uma determinada
aparência. Essa experiência sugere
simplesmente a transformação da consciência, não só no instante em que ocorre, mas
também ao longo da vida, para que algo mais do que uma simples memória permaneça.
Nos casos de pessoas que tiveram esse tipo de experiência sem nenhuma consciência
do presente, hoje só possuem uma vaga memória. Não sabem lidar com isso; se pedem
ajuda, não são entendidas, e na maioria das vezes são encaminhadas a um
psiquiatra. Quando por qualquer pretexto se deparam com o Zen, e certo dia contam ao professor; depois de muitos anos, pela primeira vez pode ser
que sejam ouvidas, mesmo que o mestre não reconheça a sua experiência como uma iluminação.
De qualquer maneira, embora a respeite, ele irá dizer que o melhor a fazer é
meditar, para tornar isso cada vez mais claro. Se seguir esta recomendação, o
resultado será uma transformação gradual e constante da consciência. Atualmente
é apropriado dizer entre "iluminação maior" e "iluminação menor".
Embora ambas tenham a mesma finalidade, diferem-se no nível de profundidade. A iluminação
maior, como a de Buda, por exemplo, certamente produziu transformações profundas
nele. Digo o mesmo de Ramana Maharshi, um hindu que teve uma experiência
parecida aos dezesseis anos sem qualquer preparação, e com tamanha intensidade,
que demorou anos até ele conseguir se situar e voltar a ter uma relação normal
com as pessoas. Então, pôde ajudá-las a realizar o caminho, até deixar este
mundo há cerca de trinta anos. Quando a iluminação se torna coesa pela prática
intensa, uma nova consciência surge e a pessoa não toma decisões pensando demais,
mas as toma de forma imediata e segura. Então, vamos refletir no que Johann Tauler
diz: "O homem instantâneo sabe o que tem que fazer, o que perguntar e o
que tem de pregar".
do livro: Viver na nova consciência.

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