sábado, 8 de junho de 2019

JIM OWENS - BUDISMO NO CINTURÃO DA BÍBLIA

Um cristão evangélico revela como o budismo o ajudou a enfrentar uma crise de consciência e fé.

Eu vivo no centro do cinturão da Bíblia. Quando este artigo for publicado, muitos dos meus familiares e amigos temerão que eu esteja destinado ao inferno. Muitos cristãos, julgam mal o que não entendem. Alguns simplesmente coçam a cabeça quando ouvem falar de um cristão que estuda o budismo,  que medita ou até mesmo que passa por experiências de fé alternativas. Outros cristãos tem dúvidas muito mais resistentes. Eu sei bem, pois houve um tempo em que eu era um desses.

Minha trajetória no budismo se desenvolveu com a prática da meditação, quando um conselheiro matrimonial, cristão, sugeriu que eu lesse os livros de Richard Rohr. Suas obras "Everything Owners" e "Falling Upward" fazem referência ao renomado monge trapista Thomas Merton, cujo envolvimento com o budismo me levou a ler textos de nomes como Thich Nhat Hanh e Dalai Lama. Quanto mais eu lia, mais eu achava que eu tinha pouca compreensão do budismo e de suas muitas escolas. Mas observei  que os ensinamentos das quatro nobres verdades e do caminho óctuplo eram de muitas maneiras - embora nem todas - compatíveis com os ensinamentos de Jesus e a doutrina cristã.

Por exemplo, o ensinamento de Buda sobre a visão correta permite uma compreensão mais profunda da advertência de Jesus de “não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente.” (Romanos 12: 2) e “quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai Filipenses 4:8”. Meus pensamentos se transformaram de tal forma que compreendi as reações negativas de meus colegas como decorrentes de seus próprios apegos e não como esforços determinados a me ferir. Ao conduzir minha mente de maneira hábil, me preparei melhor para evitar erros de julgamento ou me debruçar sobre circunstâncias difíceis que poderiam resultar em sofrimento.

Em minha busca pela atenção plena, encontrei-me dando graças por todas as coisas  num nível muito mais profundo. Tenho gratidão por coisas simples, como por um pedaço de fruta, por caminhar na floresta e suportar as provações da vida. Sim, à medida que me sinto mais atento, sou até grato pelas dificuldades e dores, pois elas me permitem ter maior compaixão por aqueles que passam pelas suas próprias atribulações.

Liberto apegos, enquanto isso, reforço minha convicção de que eu não deveria “guardar para mim tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões invadem e roubam” (Mateus 6:19). A observação bíblica de “não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares (Salmos 46:2). Fui iluminado pelo insight da impermanência, assim como a admoestação para esquecer "quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim ”(Filipenses 3:13). Esforço-me para manter a mente de principiante aberta a fé em Jesus, para além dos preconceitos que tenho desde que a juventude. Finalmente, depois de tantos anos, vejo  o cristianismo genuíno novamente.
Esses ensinamentos percorreram meus pensamentos, durante uma crise familiar e conjugal levou-me a questionar de modo fundamental se minha experiência era, de fato, consistente com o sistema de crenças ao qual aderi por tanto tempo. Ultimamente, o tumulto em minha vida pareceu imune aos meus remédios habituais: a Bíblia, a oração e a comunhão com outros cristãos. Nos meus estudos e meditações, comecei a ver o quanto da minha vida era o resultado de viver de acordo com as expectativas dos outros, o pouco que eu perdoava e quanto, mesmo como cristão, estava propenso a um julgamento ríspido entre eu e os demais, embora não aparente.

Mas, como observei essa tendência em mim, meu questionamento aumentou e inclui não apenas meus hábitos, mas minha fé. Recentemente, confessei a minha esposa e filhos, e me perguntei sobre a existência de Deus. Com certeza, essas preocupações eram, e permanecem desconcertantes para aqueles que me conhecem como ancião na igreja, um professor da escola dominical e um apologista da Bíblia e do cristianismo. Eles estavam e ainda estão consternados. Eu posso ver sua dor, sua preocupação e seu sofrimento, assim como eu me tornei profundamente consciente da minha.

Enquanto escrevo estas palavras, estou sentado no quarto de um apartamento, me separei de minha esposa há oito semanas, fomos casados por 31 anos. Nos círculos cristãos, pelo menos naquele em que tenho amigos e em cuja tradição criei meus filhos, tal decisão é considerada covarde, egoísta e pecaminosa. Eu tenho, em resumo, falhado no que é para muitos o teste decisivo da masculinidade cristã.

Mas, em meio a esse caos, retornei à minha fé, embora diferente como era. Ainda que o budismo não reconheça um Deus criador, sou consolado pelas palavras de encorajamento do Dalai Lama aos cristãos, que permite que o budismo os torne melhores praticantes na sua fé. Para muitos cristãos, esse chamado significaria voltar para minha esposa. Mas, na sabedoria reflexiva do budismo, tenho visto mais claramente a mensagem do perdão de Cristo.

Embora a minha luta com o divórcio não tenha finalizado, vejo claramente a dor e o sofrimento dos outros quando eles reagem a mim com raiva, embora reconheçam que não sou obrigado a julgá-los assim como me julgam. Lembro-me das palavras do apóstolo Paulo: “nem eu mesmo me julgo”. Estas são palavras curativas de um homem que se considerou “o principal entre os pecadores” e que, de acordo com a Bíblia, presidia o apedrejamento de Estêvão, discípulo de Cristo, antes da conversão de Paulo de sua fé judaica.

Fique tranqüilo, minhas palavras não são uma tentativa de reconciliar o budismo com o cristianismo. De própria experiência, acho difícil conciliar algumas das minhas escolhas  com algumas convicções sobre o caminho. Eu sou imperfeito. No entanto, no silêncio da meditação, encontro o que os budistas chamam de compaixão de Avalokiteshvara e os cristãos de “a paz de Cristo”. Vejo a luta sob uma nova luz quando percebo em minha própria vocação religiosa  e no meu casamento o apego à permanência , o quanto  causou dor a mim e aos outros. Da mesma forma, vejo como minha falta de compaixão me colocou num trono de julgamento. Ao buscar a graça da família e dos amigos, anseio por conceder-lhes reciprocamente graça em suas dores, falhas e medo.

Eu não acho mais necessário acreditar que a Bíblia é literalmente verdadeira. Sua verdade é suficiente, embora eu muitas vezes lute para entender isso. Eu me atento a mensagem de Jesus - amar meu próximo como a mim mesmo - com mais clareza, e oro para que eu me torne mais parecido com ele todos os dias. Mas vejo as contradições do meu comportamento e de minhas crenças, assim como Paulo escreveu em Romanos 7:15 quando admitiu: “o que estou fazendo não entendo; pois não estou praticando o que gostaria de fazer. E enquanto me sento em meditação, para acalmar as tempestades da minha mente, aguento duro e encontro sua presença ali para me consolar enquanto recebo amor de alguns amigos cristãos.

Ao ler isto, muitos cristãos sugeriram que eu tirei as palavras da Bíblia de contexto, que distorci as palavras de Jesus, Paulo e outros evangelistas. Talvez eles estejam corretos.  No entanto, me lembro das palavras do discípulo Pedro, um dos círculos mais íntimos de Jesus, a pedra angular da igreja de Jesus, em sua apresentação de Cristo: ”Quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça.(1 Pedro 2:23). Eu rezo para que tenha a resposta igual para aqueles que me insultam.

Embora eu ainda tenha que reconciliar inteiramente minha fé com minha nova perspectiva budista e a prática de meditação, desejo viver como Jesus o fez em compreensão e compaixão, consolando aqueles que sofrem. Eu farei isto em oração, estudando e me sentando.

Por Jim Owens DEZEMRO 04, 2017

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