domingo, 18 de fevereiro de 2024

IR. BERTA MENEZES - O DIÁLOGO ENTRE A PALAVRA OCIDENTAL E O SILÊNCIO DO ORIENTE



O ponto de partida de um diálogo criativo entre o Silêncio do Oriente e a Palavra do Ocidente é um caminho interativo e criativo. Isto é, feito de dentro e cultivando uma energia dinâmica capaz de enriquecer as partes envolvidas no referido diálogo. Ser criativo implica, antes de tudo, a atitude de se virar em direção ao outro. Isto não significa esbater diferenças ou acentuar semelhanças, mas também implica voltar-se para o outro com total abertura, apoiando-se com segurança no próprio pé, que é a própria tradição religiosa. Pode-se dizer que o diálogo é uma experiência para se repensar, para que cada uma das tradições que dela participam alcançam um maior autoconhecimento profundamente dentro de si e saem do encontro transformados, com algo novo decorrente do próprio diálogo, algo que amplia a percepção da realidade. Porque este diálogo implica aproximar-se do outro sem medo, mantendo uma energia dinâmica que nos liberta, num extremo, cair na absorção e, no outro, na indiferença, para produzir uma verdadeira transformação com novas experiências, entendimentos e até mesmo uma nova linguagem para expressá-los.

De acordo com o filósofo americano James W. Heisig, "o cristianismo olha através das lentes da fé budista para dar um segundo olhar para a fé cristã. O Budismo olha através das lentes cristãs para olhar novamente para a fé budista. Isto implica entrar num diálogo inter-religioso e criativo que permite que surjam questões que devem ser encaradas com cautela.

Mas só um compromisso firme com a própria tradição é capaz de gerar este tipo de diálogo criativo que ajuda a transformar a religião do nosso tempo e que envolve uma conversão por parte de cada uma das religiões envolvidas. Outra condição para que o diálogo seja criativo é que as religiões envolvidas são autocríticas e autorreflexivas embora, é verdade, o diálogo não se realiza entre instituições, mas entre pessoas representativas de cada uma das tradições religiosas. Em suma, o verdadeiro diálogo envolve expandir fidelidade à nossa religião além dos seus limites. Isto abre-nos a uma atitude de respeito ou, como diz o teólogo catalão Raimon Panikkar: «Devemos respeitar os valores de todas as tradições, não devemos congelá-los, nem em seus processos ou em seus pontos de partida. E agora mais do que trabalho intercultural e crítica nunca são necessários construtivo. Então, vou focar, por um lado, na reunião entre a cultura oriental, mais especificamente em algumas práticas espirituais dentro do Budismo (zen, vipassana), e o caminho da mística cristã, sabendo que, tanto a nível religioso como filosófico, este diálogo sempre se realizou de forma verdadeiramente enriquecedora e transformando o coração de algumas pessoas.

 Existem obras muito interessantes relacionadas ao Zen Budismo e ao pensamento de alguns místicos cristãos. Neste sentido, a contribuição da chamada é especialmente importante escola de Kyoto, com Nishida e seus discípulos Nishitani e Tanabe; e, atualmente, Ueda Sisutero e Masao Abe; este último, sem dúvida um pensador chave, dado o seu profundo conhecimento de Filosofia e Teologia ocidentais. Da mesma forma, as contribuições feitas no estudo e prática do Budismo desde o Cristianismo. Neste campo, podemos destacar o trabalho de Henri Dumoulin e do padre Enomiya Lassalle, para citar apenas dois.

 Por outro lado, penso que é de grande importância para o século XXI a fecundação mútua entre o Silêncio do Oriente e a Palavra de Ocidente (entendendo o Oriente e o Ocidente, nas palavras de Raimon Panikkar, como realidades antropológicas, como os lados feminino e masculino do ser humano). Este diálogo criativo está em consonância com o pluralismo interativo. As identidades não estão no objetivo, mas no ponto de partida de um caminho de interação, sem que nenhuma das partes tenha o monopólio do ponto de chegada. Acredito também que o objetivo é um mistério único, mas seus nomes são variados. O ponto de chegada é uma convergência de caminhos alcançados por muitas peregrinações. A realidade última é uma só, mas as aparências são diversas.

 Múltiplos reflexos emergem de uma única luz. Por isso, é urgente, neste momento, melhorar aspectos contemplativos que nos abrem ao conhecimento além dos sentidos. Esta é a busca por sabedoria como vivenciar as tradições orientais, valorizando ao mesmo tempo a contribuição que o Ocidente tem no compromisso de transformação do mundo em que tivemos que viver. Para nós cabe-nos a nós potenciar os meios que desenvolvam uma nova percepção.


                                               SILÊNCIO E PALAVRA

 

Sinto uma presença latente aqui.

Nao sei o que é.

Mas lágrimas de gratidão vêm aos meus olhos.

Sagyo (século XII)

A experiência religiosa a que se propõe todas as religiões exige a dimensão contemplativa da existência humana, que o Ocidente tentou exprimir através da Palavra e que o Oriente acentua através do Silêncio. É preciso revelar a visão profunda da realidade, que penetra toda a existência humana e transcende ao mistério do infinito e eterno, não como algo remoto e inacessível, transferível, mas como algo tangível. O espírito do Oriente está aberto não apenas pro humano e a natureza em uma compreensão intuitiva, mas também àquele poder oculto que penetra em tudo o que existe.


A PALAVRA CRISTà

Falar da Palavra na nossa tradição cristã é fundamental e, no diálogo entre culturas, exige aprofundamento de conhecimentos da nossa revelação e das diferentes nuances que esta palavra tem. Também é necessário respeito mútuo, o que não é possível sem simpatia e amor. Tudo isto nos leva à reavaliação e talvez à reinterpretação transformadora de uma noção que na nossa cultura ocidental adquiriu um lugar predominante: a Palavra.

 A reavaliação pode servir, por sua vez, como trampolim para a interculturalidade. Mas deve ser a verdadeira Palavra, a palavra que tem raiz, que é consciente, que não é incompatível com o Logos, embora não é redutível a ele. Embora o ponto mais importante neste diálogo seja que o Cristianismo é uma religião que se baseia numa história particular (a história da salvação do povo judeu e a de Jesus de Nazaré), e não na experiência e análise da condição humana universal e, portanto, é uma religião em cujo centro é a fé e não a experiência humana direta.

 A natureza da revelação é dialógica e é definida pela palavra e é a palavra que introduz o homem na comunicação do amor divino. A fé da Igreja primitiva, constituído no testemunho apostólico, logo foi objetivado na Escrita. Em todos os momentos, a Igreja considerou os livros sagrados, a Bíblia, como norma de fé, com caráter não comparável a outros escritos. A Escritura é considerada a Palavra de Deus, testemunho da revelação cuja plenitude é Cristo.

Cristo é o ápice do discurso de Deus (é o que expressa o início da Carta aos Hebreus). Uma continuidade é expressa entre Antigo Testamento e Novo Testamento. Em Cristo nos é dado a plenitude e a superação do Antigo Testamento. A palavra fundamental nos é dada no Filho. Em Jesus a intimidade de Deus e a obra da salvação: "Depois de Deus falar com nossos pais muitas vezes no passado e diversas formas através dos profetas, nos últimos tempos temos falado em seu Filho” (Hb 1:1).

 Deus não quis apenas manifestar-se através da criação, mas também quis entrar em relação imediata com o homem (aliança), estabelecendo um diálogo com ele através dos acontecimentos históricos. É um encontro pessoal, fruto da iniciativa divina e tem caráter verbal e operante: a palavra anuncia e interpreta os fatos, porque É o próprio Deus quem age e se faz presente.

Por outro lado, a teologia contemporânea continua a ser, mesmo que não se limite apenas a este aspecto, uma teologia do Logos, sobretudo, toda a Palavra encarnada. É uma teologia do Logos divino, de sua identidade e sua relação com o Pai no Espírito. Assim foi na comunidade cristã que surgiu na meditação profunda sobre o mistério de Jesus Cristo e que se manifesta no Evangelho de São João: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava em Deus, e Deus era a palavra” (Jo 1,1). Esta palavra é decisiva para a história do homem e de todo o cosmos.

Mistério e Logos caminham juntos e sua relação os constitui. Se tivéssemos apenas a lógica, o espírito se afogaria no logos. Se fosse apenas um mistério, o logos seria reduzido ao espírito. Podemos pensar que a forma de falar do mistério, ou do espírito, é logos, é linguagem. Quando tentamos estabelecer esse diálogo criativo entre a palavra e o silêncio, percebemos a profunda inter-relação entre a objetividade da palavra e a subjetividade do silêncio, ou entre a mente e o coração. Este diálogo abre as portas para reencontro entre o pensamento racional e o espírito.

 A metafísica ocidental é um logos que escuta e questiona, e o espírito oriental é o vazio e o silêncio que se respira. Talvez a teologia católica tenha de rever o seu excesso de linguagem e de absolutizações dogmáticas e situar a teologia negativa ou apofática em local relevante. Você também deve levar a sério o vazio e o silêncio budista como caminho para o conhecimento e sabedoria.


O SILÊNCIO NA TRADIÇÃO ZEN

O silêncio não é a supressão de sons e palavras, mas a condição de escuta, origem e destino da própria palavra. O silêncio é a forma de vivenciar o verdadeiro Eu de cada um. No silêncio, a humanidade descobre o SER; a quietude é exercida na arte da meditação silenciosa. A cultura do silêncio tem sido sustentada e praticada por muitas civilizações antigas e é uma característica primária da cultura oriental e do Zen em particular.

O ponto central da vida dos monges é o recolhimento silencioso. Mas o “sentar em silêncio” não é praticado apenas em claustros. É uma prática que faz parte da vida e é essencial para cada pessoa, pois abre a possibilidade de encontro com próprio ser, fonte de realização e felicidade. O Oriente ensina-nos que o pano de fundo primordial da vida, tão facilmente silenciado pela nossa suposta lucidez, manifesta-se acima de tudo, em silêncio. Segundo o mestre Zen Suzuki, no espírito oriental “há uma espécie de grande silêncio, uma certa imperturbabilidade, como se se contemplasse a eternidade. Esse silêncio e calma não é ausência de vida. É antes o silêncio daquela matriz criadora ou aquele abismo da eternidade em que todas as coisas estão imersas. 

Quem entende este silêncio contemplativo como morte ou dissolução, ficará surpreso, se realizar a experiência da atividade sem precedentes que pode surgir do silêncio. Tudo verdade a palavra deve ter nascido do silêncio. Este silêncio também é característica de todo o misticismo e prática do Zen. O silêncio do insondável é uma fonte sempre clara porque nos preenche com uma vida que está além de todas as ideias e conceitos e, portanto, é inacessível aos impactos contínuos das imagens, conceitos, dúvidas, questionamentos ou ansiedades com os quais convivemos.

Não há quase nada que falte tanto ao homem ocidental quanto o silêncio, nem nada que seja tão difícil quanto a sua prática. São prisioneiros do barulho, do barulho do mundo e, mais ainda, do barulho interior das nossas mentes cheias de inquietação, das nossas repressões, dos nossos impulsos e decepções, mas, acima de tudo, tudo, da tensão em que vivemos e que vem afetar a nossa intimidade, que está cativa por todo esse bombardeio contínuo.

Dispersamo-nos numa infinidade de coisas que nos atordoam e perdemos o UM, a única coisa necessária, pois uma das razões mais óbvias da nossa falta de felicidade é a ausência de silêncio. No silêncio reside uma energia que nos permite encontrar-nos livre e profundamente conosco e com os outros. A proposta deste diálogo entre o Silêncio do Oriente e a Palavra do Ocidente aponta para o silêncio, comunhão no silêncio contemplativo, para que o mistério que penetra, envolva e transborda em todas as religiões nos leve a uma espiritualidade além de todos elas.

Por vezes afirma-se que este pluralismo religioso pode levar ao relativismo, mas, tal como Suzuki, penso, muito pelo contrário, que “é como um retábulo, uma mandala: pluralidade unificada”, ou seja, podemos unificar a pluralidade mais diversa se o pano de fundo for vazio e nada. O teólogo Juan Masiá Clavel explica que para Abe, filósofo japonês da escola de Kyoto, há duas maneiras de conceber o que nada absoluto que poderia ser considerado como dois tipos diferentes de nada absoluto: a noção cristã de Deus e a noção budista de sunyata ou vazio.

Estabelecendo a ponte entre o silêncio e as palavras, e apontando diretamente para o silêncio dentro do Zen, dizemos que o Zen é:

— Uma transmissão especial, fora de qualquer doutrina;

— Não se baseia em palavras nem em erudição;

— Aponta diretamente para o coração do ser humano;

– E leva você ao estado desperto.

Esta possível definição do Zen, atribuída a Bodhidharma, mostra que o Zen aponta para um caminho além das palavras e fora doutrinas, mas isso não significa que negue ao mindfulness e ensino das escrituras. Desta forma, ele nos convida a realizar a experiência do silêncio mais radical, porque a ênfase está no vazio inefável e no silêncio; mesmo falando, seria aquela palavra antes da voz. É aprender a pensar, sentir e agir não do eu limitado, mas daquele vazio, daquele Silêncio que permite que Ele atue, graças ao fato de que o eu se retirou.

Berta Meneses Roshi, é uma grande mestra Zen dentro do contexto cristão. Nascida em Palência, Espanha, em 1945, é formada em Química e Teologia. Religiosa filipense (Missionárias de Ensino Filipenses ou Irmãs de São Filipe Neri), é  reconhecida mestra Zen autêntica da linhagem de Sanbô Kyodan de Harada, Yasutani e Yamada Koun, enraizada nas tradições Soto (Caodong) e Rinzai (Linji). Também leciona Matemática e Ciências da Computação na Escola Nuestra Señora de Lourdes, Barcelona. Berta Meneses foi discípula de Willigis Jäger e Ana María Schlüter, ambos também professores do Sanbo Kyodan. Em 1993, em Kamakura, Japão, foi reconhecida assistente de Kubota Ji'un Roshi, sucessor de Yamada Roshi, e em 1998 por Ana María Schlüter, de Zendo Betania, com o nome de Cho-Sui-An  (Ermida da Água Purificadora). Em 2016, Yamada Ryoun Roshi nomeou-a professora da escola Sanbo-Zen, dando-lhe o nome de  Ki-un-An. Ministra sesshins na Espanha e em vários países da América Latina, incluindo El Salvador, Guatemala, Equador e Argentina, e organiza conferências, cursos e seminários em vários países da Europa, América e Japão. É presidente da Associação Zen Dana Paramita (Barcelona), vice-presidente da Fundação de Valores Humanos e membro fundador da Sakyadhita, Espanha.

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