O ponto de partida de um diálogo criativo entre o Silêncio do Oriente e a Palavra do Ocidente é um caminho interativo e criativo. Isto é, feito de dentro e cultivando uma energia dinâmica capaz de enriquecer as partes envolvidas no referido diálogo. Ser criativo implica, antes de tudo, a atitude de se virar em direção ao outro. Isto não significa esbater diferenças ou acentuar semelhanças, mas também implica voltar-se para o outro com total abertura, apoiando-se com segurança no próprio pé, que é a própria tradição religiosa. Pode-se dizer que o diálogo é uma experiência para se repensar, para que cada uma das tradições que dela participam alcançam um maior autoconhecimento profundamente dentro de si e saem do encontro transformados, com algo novo decorrente do próprio diálogo, algo que amplia a percepção da realidade. Porque este diálogo implica aproximar-se do outro sem medo, mantendo uma energia dinâmica que nos liberta, num extremo, cair na absorção e, no outro, na indiferença, para produzir uma verdadeira transformação com novas experiências, entendimentos e até mesmo uma nova linguagem para expressá-los.
De acordo com o filósofo americano James W. Heisig,
"o cristianismo olha através das lentes da fé budista para dar um segundo
olhar para a fé cristã. O Budismo olha através das lentes cristãs para olhar
novamente para a fé budista. Isto implica entrar num diálogo inter-religioso e criativo
que permite que surjam questões que devem ser encaradas com cautela.
Mas só um compromisso firme com a própria tradição é capaz de gerar este tipo de diálogo criativo que ajuda a transformar a religião do nosso tempo e que envolve uma conversão por parte de cada uma das religiões envolvidas. Outra condição para que o diálogo seja criativo é que as religiões envolvidas são autocríticas e autorreflexivas embora, é verdade, o diálogo não se realiza entre instituições, mas entre pessoas representativas de cada uma das tradições religiosas. Em suma, o verdadeiro diálogo envolve expandir fidelidade à nossa religião além dos seus limites. Isto abre-nos a uma atitude de respeito ou, como diz o teólogo catalão Raimon Panikkar: «Devemos respeitar os valores de todas as tradições, não devemos congelá-los, nem em seus processos ou em seus pontos de partida. E agora mais do que trabalho intercultural e crítica nunca são necessários construtivo. Então, vou focar, por um lado, na reunião entre a cultura oriental, mais especificamente em algumas práticas espirituais dentro do Budismo (zen, vipassana), e o caminho da mística cristã, sabendo que, tanto a nível religioso como filosófico, este diálogo sempre se realizou de forma verdadeiramente enriquecedora e transformando o coração de algumas pessoas.
SILÊNCIO E PALAVRA
Sinto uma presença latente aqui.
Nao sei o que é.
Mas lágrimas de gratidão vêm aos meus olhos.
Sagyo (século XII)
A experiência religiosa a que se propõe todas as religiões exige a dimensão contemplativa da existência humana, que o Ocidente tentou exprimir através da Palavra e que o Oriente acentua através do Silêncio. É preciso revelar a visão profunda da realidade, que penetra toda a existência humana e transcende ao mistério do infinito e eterno, não como algo remoto e inacessível, transferível, mas como algo tangível. O espírito do Oriente está aberto não apenas pro humano e a natureza em uma compreensão intuitiva, mas também àquele poder oculto que penetra em tudo o que existe.
A PALAVRA CRISTÃ
Falar da Palavra na nossa tradição cristã é fundamental e, no diálogo entre culturas, exige aprofundamento de conhecimentos da nossa revelação e das diferentes nuances que esta palavra tem. Também é necessário respeito mútuo, o que não é possível sem simpatia e amor. Tudo isto nos leva à reavaliação e talvez à reinterpretação transformadora de uma noção que na nossa cultura ocidental adquiriu um lugar predominante: a Palavra.
Cristo é o ápice do discurso de Deus (é o que expressa o início da Carta aos Hebreus). Uma continuidade é expressa entre Antigo Testamento e Novo Testamento. Em Cristo nos é dado a plenitude e a superação do Antigo Testamento. A palavra fundamental nos é dada no Filho. Em Jesus a intimidade de Deus e a obra da salvação: "Depois de Deus falar com nossos pais muitas vezes no passado e diversas formas através dos profetas, nos últimos tempos temos falado em seu Filho” (Hb 1:1).
Por outro lado, a teologia contemporânea continua a ser, mesmo que não se limite apenas a este aspecto, uma teologia do Logos, sobretudo, toda a Palavra encarnada. É uma teologia do Logos divino, de sua identidade e sua relação com o Pai no Espírito. Assim foi na comunidade cristã que surgiu na meditação profunda sobre o mistério de Jesus Cristo e que se manifesta no Evangelho de São João: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava em Deus, e Deus era a palavra” (Jo 1,1). Esta palavra é decisiva para a história do homem e de todo o cosmos.
Mistério e Logos caminham juntos e sua relação os
constitui. Se tivéssemos apenas a lógica, o espírito se afogaria no logos. Se
fosse apenas um mistério, o logos seria reduzido ao espírito. Podemos pensar
que a forma de falar do mistério, ou do espírito, é logos, é linguagem. Quando
tentamos estabelecer esse diálogo criativo entre a palavra e o silêncio,
percebemos a profunda inter-relação entre a objetividade da palavra e a
subjetividade do silêncio, ou entre a mente e o coração. Este diálogo abre as
portas para reencontro entre o pensamento racional e o espírito.
O silêncio não é a supressão de sons e palavras, mas a condição de escuta, origem e destino da própria palavra. O silêncio é a forma de vivenciar o verdadeiro Eu de cada um. No silêncio, a humanidade descobre o SER; a quietude é exercida na arte da meditação silenciosa. A cultura do silêncio tem sido sustentada e praticada por muitas civilizações antigas e é uma característica primária da cultura oriental e do Zen em particular.
O ponto central da vida dos monges é o recolhimento silencioso. Mas o “sentar em silêncio” não é praticado apenas em claustros. É uma prática que faz parte da vida e é essencial para cada pessoa, pois abre a possibilidade de encontro com próprio ser, fonte de realização e felicidade. O Oriente ensina-nos que o pano de fundo primordial da vida, tão facilmente silenciado pela nossa suposta lucidez, manifesta-se acima de tudo, em silêncio. Segundo o mestre Zen Suzuki, no espírito oriental “há uma espécie de grande silêncio, uma certa imperturbabilidade, como se se contemplasse a eternidade. Esse silêncio e calma não é ausência de vida. É antes o silêncio daquela matriz criadora ou aquele abismo da eternidade em que todas as coisas estão imersas.
Quem entende este silêncio contemplativo como morte ou dissolução, ficará surpreso, se realizar a experiência da atividade sem precedentes que pode surgir do silêncio. Tudo verdade a palavra deve ter nascido do silêncio. Este silêncio também é característica de todo o misticismo e prática do Zen. O silêncio do insondável é uma fonte sempre clara porque nos preenche com uma vida que está além de todas as ideias e conceitos e, portanto, é inacessível aos impactos contínuos das imagens, conceitos, dúvidas, questionamentos ou ansiedades com os quais convivemos.
Não há quase nada que falte
tanto ao homem ocidental quanto o silêncio, nem nada que seja tão difícil
quanto a sua prática. São prisioneiros do barulho, do barulho do mundo e, mais
ainda, do barulho interior das nossas mentes cheias de inquietação, das nossas
repressões, dos nossos impulsos e decepções, mas, acima de tudo, tudo, da
tensão em que vivemos e que vem afetar a nossa intimidade, que está cativa por
todo esse bombardeio contínuo.
Dispersamo-nos numa infinidade de coisas que nos atordoam e perdemos o UM, a única coisa necessária, pois uma das razões mais óbvias da nossa falta de felicidade é a ausência de silêncio. No silêncio reside uma energia que nos permite encontrar-nos livre e profundamente conosco e com os outros. A proposta deste diálogo entre o Silêncio do Oriente e a Palavra do Ocidente aponta para o silêncio, comunhão no silêncio contemplativo, para que o mistério que penetra, envolva e transborda em todas as religiões nos leve a uma espiritualidade além de todos elas.
Por vezes afirma-se que este pluralismo religioso pode levar ao relativismo, mas, tal como Suzuki, penso, muito pelo contrário, que “é como um retábulo, uma mandala: pluralidade unificada”, ou seja, podemos unificar a pluralidade mais diversa se o pano de fundo for vazio e nada. O teólogo Juan Masiá Clavel explica que para Abe, filósofo japonês da escola de Kyoto, há duas maneiras de conceber o que nada absoluto que poderia ser considerado como dois tipos diferentes de nada absoluto: a noção cristã de Deus e a noção budista de sunyata ou vazio.
Estabelecendo a ponte entre o silêncio e as palavras, e apontando diretamente para o silêncio dentro do Zen, dizemos que o Zen é:
— Uma transmissão especial, fora de qualquer doutrina;
— Não se baseia em palavras nem em erudição;
— Aponta diretamente para o coração do ser humano;
– E leva você ao estado desperto.
Esta possível definição do Zen, atribuída a Bodhidharma, mostra que o Zen aponta para um caminho além das palavras e fora doutrinas, mas isso não significa que negue ao mindfulness e ensino das escrituras. Desta forma, ele nos convida a realizar a experiência do silêncio mais radical, porque a ênfase está no vazio inefável e no silêncio; mesmo falando, seria aquela palavra antes da voz. É aprender a pensar, sentir e agir não do eu limitado, mas daquele vazio, daquele Silêncio que permite que Ele atue, graças ao fato de que o eu se retirou.
Berta Meneses Roshi, é uma grande mestra Zen dentro do contexto cristão. Nascida em Palência, Espanha, em 1945, é formada em Química e Teologia. Religiosa filipense (Missionárias de Ensino Filipenses ou Irmãs de São Filipe Neri), é reconhecida mestra Zen autêntica da linhagem de Sanbô Kyodan de Harada, Yasutani e Yamada Koun, enraizada nas tradições Soto (Caodong) e Rinzai (Linji). Também leciona Matemática e Ciências da Computação na Escola Nuestra Señora de Lourdes, Barcelona. Berta Meneses foi discípula de Willigis Jäger e Ana María Schlüter, ambos também professores do Sanbo Kyodan. Em 1993, em Kamakura, Japão, foi reconhecida assistente de Kubota Ji'un Roshi, sucessor de Yamada Roshi, e em 1998 por Ana María Schlüter, de Zendo Betania, com o nome de Cho-Sui-An (Ermida da Água Purificadora). Em 2016, Yamada Ryoun Roshi nomeou-a professora da escola Sanbo-Zen, dando-lhe o nome de Ki-un-An. Ministra sesshins na Espanha e em vários países da América Latina, incluindo El Salvador, Guatemala, Equador e Argentina, e organiza conferências, cursos e seminários em vários países da Europa, América e Japão. É presidente da Associação Zen Dana Paramita (Barcelona), vice-presidente da Fundação de Valores Humanos e membro fundador da Sakyadhita, Espanha.

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