Hoje, continuamos com o relato de Thomas Merton sobre o "Verdadeiro Eu" que resultou na sua "conversão" em Fourth e Walnut. Isto é tão inspirador, que quero citar todo o texto: "No centro do nosso ser tem um ponto vazio que é intocado pelos pecados e pelas ilusões, um ponto de pura realidade, uma centelha que pertence integralmente a Deus, e que não está ao nosso alcance, que é inacessível às fantasias de nossa própria mente ou às brutalidades dos nossos próprios desejos."
Este pequeno ponto no vazio é o absoluto, a simplicidade, a pura glória de Deus em nós. Seria como o nome de [Deus] pincelado em nós, com nossa humildade, nossa pobreza, nossa segurança, com nossos filhos.
É como um puro diamante, ardendo na luz translúcida do céu. Está em todos, e se pudéssemos vê-lo, veríamos isso: bilhões de pontos luminosos se misturando diante da face escaldante do sol, e isso faria desaparecer por completo a escuridão e a crueldade do mundo.
Não tem nenhum programa de computador para visualizar isto. É apenas a realização. Mas o portão do paraíso está em todo lugar. A maioria das pessoas passa a vida toda alimentando seus falsos "eus", suas auto-imagens, acreditam serem isto, ao invés de acessarem o "eu" original, que seria ótimo aos olhos de Deus.
Mas tudo o que podemos "retribuir" à Deus, para os outros e também para mim é ser quem realmente somos. Isto é o que Merton descreve acima. É um espaço de simplicidade absoluta. Talvez não queremos retornar porque é demasiado simples e espontâneo. Nos sentiríamos perdidos. Sem motivos para festejar. Sem nada para demonstrar, muito menos superioridade. Ali estou nu e pobre. Depois de anos de postura e prática, se sentindo vazio.
Mas quando não somos especiais, estamos em uma boa posição para receber tudo de Deus. Como Merton diz acima, nosso ponto vazio é "a pura glória de Deus em nós". Se olharmos para as grandes tradições religiosas, vemos que todos usam palavras diferentes para apontar na mesma direção. A palavra franciscana é "pobreza". A palavra carmelita é "não-existência". Os budistas falam do "vazio".
Em sua bem-aventurança, Jesus fala de ser "pobre em espírito". A Bíblia como um todo, prefere falar em imagens, e o deserto é fundamento. O deserto é onde somos voluntariamente testados; Jesus diz para entrar no "quarto interior".
Eu devo estar "vazio" para se abrir a toda e nova realidade. O reservatório de solitude e contemplação de Merton permitiu que ele visse o portão do paraíso em todos os lugares, mesmo numa esquina comum. Um mestre Zen chamaria o "Eu Verdadeiro" de "o rosto que tínhamos antes de nascermos". Paulo chama isso de "a vossa vida escondida com Cristo em Deus." (Colossenses 3:3)
Isto é, quem você era antes de ter feito tudo certinho ou algo errado, quem você era antes de pensar sobre quem você é. Os pensamentos criam o falso-eu, o ego, o eu-inseguro. A mente contemplativa concebida por Deus, por outro lado, reconhece o eu-Deus, o eu-Cristo, o verdadeiro eu de abundância e de profunda estabilidade interior. Começamos com uma mera observação, nos identificando.
Caminho da porta para o silêncio:
Você mora em mim; Eu vivo em você.
Sexta-feira, 5 de agosto de 2016
Richard Rohr OFM, (1943) é um frade franciscano americano. Ele entrou na Ordem Franciscana em 1961 e foi ordenado sacerdote em 1970. Fez o mestrado em Teologia na Universidade de Dayton em 1970. Fundou a "Comunidade Nova Jerusalém" em Cincinnati, Ohio. Em 1971 fundou o "Centro de Ação e Contemplação" (CAC) em Albuquerque, no Novo México. Atualmente atua como Diretor Fundador e Decano Acadêmico da "Living School for Action and Contemplation". Pe. Richard é autor de numerosos livros, incluindo Everything Belongs, Adam's Return, The Naked Now, Immortal Diamond e Ansioso para amar: o Caminho alternativo de Francisco de Assis.

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