domingo, 28 de setembro de 2025

BEDE GRIFFITHS OSB - NOVA CRIAÇÃO EM CRISTO

Introdução

Bede Griffiths encontrou John Main pessoalmente apenas uma vez. Mas, como este livro mostra, ele veio a conhecê-lo muito bem através de seus livros e da comunidade que nasceu de seus ensinamentos. Do único encontro que tiveram em um mosteiro americano no verão de 1979, o que mais recordo vividamente é o senso de humor rápido e compartilhado entre eles. Desconcertando um tanto seus anfitriões, eles interrompiam os momentos mais solenes de discussão com risadas espontâneas e um espírito de diversão.

John Main costumava comentar que a solenidade levava à trivialidade, enquanto a seriedade conduzia à alegria. Humor e piadas simples não são fáceis de transmitir em livros; ainda assim, para professores cuja primeira ferramenta é a palavra falada, o riso do espírito é um canal natural e essencial para comunicar a verdade; ou, poderíamos dizer, para deixar a verdade escapar do saco em que tendemos a enfiá-la. No Seminário John Main de 1991, no qual Bede Griffiths falou sobre o tema “Meditação Cristã: A Tradição em Evolução”, houve essa rara integração entre seriedade e alegria. Robert Kiely e eu tentamos, ao editar essas palestras, preservar algo dessa qualidade da tradição oral — a “transmissão” de boca a boca e pela simples e total presença transmitida na linguagem do corpo, da mente e do espírito — da qual estávamos então compartilhando de forma tão intensa.

Foi depois da morte de John Main, em 1982, que o Padre Bede o leu profundamente pela primeira vez. Ele me escreveu por essa época expressando sua solidariedade pessoal, bem como sua admiração pelo que John Main havia tentado e iniciado na comunidade que fundou em Montreal e que agora se espalhou por todo o mundo. Foi então que comecei a perceber quanta visão e experiência comum de esperanças e decepções esses dois monges, bastante diferentes, compartilhavam.

John Main e Bede Griffiths, no Ocidente e no Oriente respectivamente, tentaram viver uma vida monástica restaurada aos seus elementos primitivos de contemplação e comunidade. Ambos haviam conhecido rejeição e incompreensão, assim como alguma aclamação e reconhecimento por sua inovação. O Padre Bede compreendia quão rapidamente as pessoas podem se apegar aos primeiros fracassos de uma nova visão e usá-los para denunciar a própria visão. Ele também sabia que era em comunidades pequenas e arriscadas — e não em instituições confortáveis —, e sobretudo no retorno fiel ao chamado do Espírito, que a visão acabava por se realizar.

Embora suas experiências em novos tipos de vida monástica fossem muito diferentes e respondessem às necessidades de diferentes partes da Igreja Católica, a leitura profunda e intuitiva do Padre John feita pelo Padre Bede aproximou os dois movimentos. Essa é a importância e a realização do ensinamento que ele transmitiu em New Harmony, Indiana, em agosto de 1991, e que este livro registra para aqueles que desejam partilhar daquele momento do espírito a uma distância de espaço e tempo.
Quando o Padre Bede me escreveu alguns anos atrás e disse que sentia que “em minha experiência John Main é o guia espiritual mais importante da Igreja hoje”, respondi perguntando-lhe o que queria dizer com isso. Ele de modo algum estava diminuindo a contribuição de outros mestres contemporâneos, nem tampouco desejava criar uma tabela competitiva de classificação. O que ele queria dizer era a singularidade da maneira como John Main respondia a certas necessidades críticas das pessoas modernas em sua busca por uma experiência mais profunda de Deus.

Em primeiro lugar, houve a redescoberta, por John Main, da tradição do mantra dentro do Cristianismo, especialmente nos ensinamentos dos Padres do Deserto e, em particular, de João Cassiano. Isso permitiu ao cristão moderno seguir um método de contemplação com o qual poderia se sentir confortável tanto teológica quanto culturalmente. E, de fato, como o Padre Bede afirma nas páginas seguintes, essa recuperação de um caminho de meditação não-discursiva preencheu uma lacuna trágica de vários séculos na vida espiritual cristã ocidental.

É claro que o que também encantava o Padre Bede nisso era o fato de que o próprio Padre John havia aprendido a meditar, inicialmente, com um mestre indiano. Foi isso que abriu seus olhos para reconhecer que a “fórmula” da Décima Conferência de Cassiano é, na prática, a mesma que o “mantra” do Oriente. Outro grande estudioso beneditino, Adalbert de Vogüé, disse em seu artigo “De João Cassiano a John Main” (Monastic Studies, nº 15) que, assim como Cassiano fez uma ponte entre o Cristianismo oriental e ocidental, assim também John Main é hoje uma ponte entre o mundo cristão e o não cristão.

O próprio Bede Griffiths, é claro, é um dos grandes mestres da união entre Oriente e Ocidente. Mais até do que John Main, ele fez disso a obra de sua vida: estudar e ser essa ponte. Nesse campo, eles são claramente complementares, e as diferenças entre seus ensinamentos refletem gradações de ênfase e de experiência pessoal. Para aqueles que se sentem desconfortáveis com as vestes amarelas de sannyasi do Padre Bede ou com seu canto em sânscrito, o Padre John é um apresentador mais familiar do ensinamento da não-dualidade. Já para aqueles que acham o foco inabalável do Padre Main no mantra, a príncipio exigente demais, a abordagem intercultural do Padre Bede e seu pensamento interdisciplinar oferecem uma estrutura mais ampla dentro da qual começar a meditar. Ambos não têm dúvida, e não hesitam em afirmar, que o mais importante é meditar.

O Padre Bede reconheceu, em sua primeira leitura de John Main, que uma de suas contribuições originais à busca espiritual moderna foi sua consciência especial da ligação entre contemplação e comunidade. Ao meditar em comum, as comunidades beneditinas de John Main — e a comunidade global de grupos de meditação cristã — afirmavam uma verdade que está no coração de sua visão: que da experiência cristã essencial de Cristo nasce e cresce a Igreja. John Main estava bem consciente de que o nascimento de uma comunidade é também o início da dor do crescimento e dos ciclos pascais de desenvolvimento. Se a meditação cria comunidade, a comunidade traz conflito. Mas essa espada que Cristo traz também pode ser usada para cortar as camadas de egoísmo pessoal e coletivo que bloqueiam a livre passagem do Espírito.

O Padre Bede dedica alguma atenção, nas páginas seguintes, à experiência psicológica individual do que o Padre John chamava de “peregrinação da meditação”. Mas, por mais importante que considere esse aspecto, ele não deixa de situá-lo dentro da compreensão da experiência de Cristo, que o Padre John via como estando no coração da meditação. Na verdade, é a teologia da meditação de John Main que tanto entusiasmou o Padre Bede quando o leu pela primeira vez. A visão é que, à medida que ultrapassamos nossa própria consciência egocentrada de pensamento e imaginação, entramos na liberdade da mente de Cristo e descobrimos que a consciência humana de Jesus é o nosso caminho para o Uno a quem ele chamava de Pai.

O psicológico e o teológico são desenvolvidos e integrados, tanto para o Padre John quanto para o Padre Bede, dentro da comunidade. A comunidade monástica deve servir a uma dupla função de laboratório e testemunha dessa jornada humana rumo à plenitude. O próprio monaquismo moderno necessita de renovação se quiser cumprir esse papel hoje. Na visão de John Main e Bede Griffiths, ele pode alcançar essa renovação ao se revisitar como o movimento leigo de comunidade contemplativa que, em essência, ele é.

No Seminário John Main em New Harmony, meditadores cristãos — que já estavam formando comunidade — reuniram-se vindos de muitas partes do mundo para se enriquecerem com os ensinamentos e a presença do Padre Bede. Tornou-se, então, naturalmente, a oportunidade de dar forma à articulação da rede internacional de meditadores, grupos e centros de meditação que continuam a se formar a partir do compromisso comum com a meditação, na tradição que John Main recuperou e transmitiu. Isso foi expresso como a Comunidade Mundial para a Meditação Cristã. O Padre Bede participou das discussões que delinearam sua primeira forma e estrutura e permanece um amigo próximo e patrono ativo dela.

Minha lembrança do encontro entre o Padre Bede e o Padre John concentra-se em uma cena em um jardim, numa noite estrelada. Uma pequena brincadeira ou provocação levou a uma explosão de alegres risadas das quais todos participaram. Minha lembrança mais recente do Seminário John Main de 1991, em New Harmony, também reúne iluminações e risadas. Nem todos estavam visivelmente presentes, mas todos que estavam lá, estavam plenamente presentes. Junto com sua sabedoria, este livro deve transmitir algo do calor de Bede Griffiths e John Main, que souberam compartilhar seus dons de alegria um com o outro de uma forma que nos toca a todos. Este livro reconhece, de modo especial, a hospitalidade de Jane Owen, de New Harmony, Indiana, que fez do Seminário John Main de 1991 uma epifania daquele espírito de unidade pelo qual a comunidade de New Harmony corajosamente mantém.

Laurence Freeman

terça-feira, 23 de setembro de 2025

BASILI GIRBAU OSB - A DECEPÇÃO É POSITIVA

 


Basili Girbau, nasceu em 1925 em Barcelona, ​​cidade onde faleceu em 23 de dezembro de 2003, aos 78 anos, após uma longa e dolorosa enfermidade.Ainda jovem, concluiu o ensino secundário e, aos 18 anos, ouviu a voz de Deus. Foi então para Montserrat, onde professou como monge beneditino em 1945. Durante muitos anos, dedicou-se à pesquisa e ao ensino bíblico. E para isso, depois de estudar em vários países, dedicou-se a viajar pelas terras bíblicas, onde aprendeu árabe e hebraico. Depois de viajar meio mundo, em 1973 regressou a Montserrat, onde iniciou a sua vida eremítica, que apenas interrompeu por alguns anos, para viver no mosteiro maiorquino de Benicanella e, nos últimos dois anos da sua vida, devido a problemas de saúde. Padre Basili era apaixonado pelo momento presente. De caráter simples e afável, e ao mesmo tempo forte e direto, amava a amizade e tinha um carisma especial para lidar com um estilo juvenil muito particular. Era transparente, exuberante, um pouco teatral às vezes, por puro bom humor. E muito sensível. Em seu eremitério, soube encontrar o espaço e as condições necessárias para sua obra de ajudar todas as almas que se aproximavam dele. Quando alguém lhe perguntava qual era o segredo da felicidade de sua vida de eremita, ele respondia: "Viver. Não se trata de filosofar ou de proferir grandes discursos. Você está aqui, o que mais quer? Você respira. Seu coração bate. O que importa o ontem? O que importa o depois de amanhã? Você está aqui. Então ria, ria alto. Você tem o essencial. Não precisa de nada a mais ou a menos." Essa filosofia de vida o tornava sempre alegre. Em seu rosto, com sua longa e espessa barba, nunca faltava um sorriso. Porque, como ele costumava dizer, "viva com paz, silêncio interior e desapego". E a solidão? Padre Basili disse que não sabia. "A solidão mora no coração. Eu não estou na solidão, porque vivo em uma caverna no meio da montanha. Se você vive em plenitude, não pode estar sozinho." Só quem mora num daqueles prédios anônimos das grandes cidades, cercado por milhares de pessoas, mas em meio a uma terrível solidão". Durante anos, ele acolheu de coração aberto todos aqueles que batiam à sua porta. Numa época como a nossa, em que as pessoas em geral não têm mais tempo para cuidar do próximo, o Padre Basílio viveu totalmente dedicado a Deus e, justamente por isso, totalmente dedicado a cada pessoa que o procurava. Um bom monge e uma boa pessoa.

 

A DECEPÇÃO É POSITIVA

 

Conversa com o Padre BASILI GIRBAU OSB.

 

Uma caminhada de apenas uma hora separa a ermida de Santa Creu do Mosteiro de Montserrat, que podemos ver claramente abaixo de nós, assim como distinguimos os minúsculos pontos de cor que representam os alpinistas subindo a face da montanha. Lá embaixo, o mundo, seu brilho e suas sombras. A ermida é uma das muitas cavernas que perfuram suavemente a montanha sagrada. É cercada por uma parede de vidro, criando um pequeno espaço que contém uma cama, uma mesa, duas cadeiras, um fogão a gás, uma estante, uma cruz, um par de retratos de Ramana Maharshi (um sábio hindu deste século) e um altar. Suficiente para o Padre Basili, "O Eremita de Montserrat", que vive como Blanquerna há quinze anos, acordando ao amanhecer, rezando e meditando, depois de ter viajado meio mundo como Ramon Llull. O Padre Basil, de 66 anos, com uma barba longa e espessa, um estudioso fluente em línguas tão diversas como árabe, alemão e hebraico, é atualmente o único habitante dos doze eremitérios de Montserrat.

 

- No final do século XX, numa sociedade movida pelo consumismo, é possível viver asceticamente, como um eremita?

 

- Para o homem que quer fazer tudo, é possível com a ajuda de Deus. Há uma graça, um certo algo, um amor, que me dá a força para descobrir que se pode viver feliz sem ter que satisfazer tantas necessidades. Há muitas pessoas que acreditam que, se não tiverem isto ou aquilo, não podem ser felizes. E então, quando talvez você tenha conseguido isso depois de muito esforço, surge a pergunta: "E agora? Mais coisas?"

 

- E você já respondeu a esta pergunta?

 

- Viver. Não se trata de filosofar ou fazer um discurso. Você está aqui. O que mais você quer? Você respira. Seu coração bate. Que importa o ontem? Que importa o amanhã? Você está aqui. Então ria, ria com vontade. Você tem o essencial. Não precisa de mais nem de menos.

 

- Como você tomou a decisão de se aposentar aqui?

 

- Geralmente respondo que não sei. Não há uma explicação puramente racional; não é apenas a mente que age, é toda uma corrente de vida que assume diversas formas. Embora, certamente, não me teria ocorrido pedir permissão para viver neste eremitério se eu não tivesse sido precedido por um monge, o Padre Stanislau, que esteve aqui até 1972 e continua a viver como eremita em outro lugar. O que eu só desejo é aprofundar minha consciência. E com esse aprofundamento, acredito que estou ajudando todas as pessoas; não apenas a mim mesmo, mas a todos que o fazem. Também acho importante encontrar essa dimensão que nos ajuda a alcançar a comunhão com todas as pessoas, e essa distância que nos separa de onde as pessoas vivem juntas, coexistem, de certa forma nos ajuda a entender melhor o que é coexistência e nos faz sentir muito mais próximos delas, ainda que de uma forma diferente.

 

- Não é difícil suportar essa solidão?

 

- É algo que você deveria perguntar ao inquilino de um desses prédios anônimos, cercado por centenas ou milhares de pessoas, mas que experimenta uma solidão verdadeiramente terrível. A solidão habita o coração. Eu não estou sozinho. É algo completamente externo ao fato de eu estar vivendo nesta semi-caverna, no meio da montanha. Se você vive plenamente, não pode estar sozinho. Você estará sozinho no sentido de não estar próximo de outras pessoas, mas apenas nesse sentido. Para mim, a verdadeira solidão é a falta, a ausência de Deus, a ausência dessa plenitude, essa busca pela transcendência...

 

- O que seu retiro aqui lhe trouxe até agora?

 

- Paz, alegria, silêncio interior, desapego ou distanciamento das coisas que acontecem, e ver como a fé, o amor e a oração realmente impactam e confirmam o quão úteis são.

 

- Hoje, qual é a missão de pessoas que, como você, se dedicam à contemplação?

 

- Como já disse, acredito que o poder do amor, da oração, tem um efeito real no mundo, e que qualquer pessoa que decida se aprofundar em si mesma e cultivar uma vida espiritual além da matéria está ajudando todas as pessoas.

 

- À primeira vista, parece haver inúmeros pontos de contato entre a contemplação, o misticismo cristão e diversas correntes religiosas orientais que criaram uma nova espiritualidade na segunda metade do século...

 

- Sim. Há. Por exemplo, um autor medieval anônimo do século XIV, possivelmente um monge cartuxo, escreveu um livro chamado "A Nuvem do Desconhecimento", um belo tratado sobre contemplação com postulados muito semelhantes aos da meditação zen. O próprio São João da Cruz aconselhou praticar os mesmos exercícios da meditação transcendental para alcançar a união com a divindade, tentando esvaziar a mente: "simples atenção amorosa a Deus, sem nenhum pensamento concreto ou particular", creio que ele diz. No meu caso, foi Ramana Maharshi, um hindu que conheci através de um livro.

 


Sábio, místico e eremita de Montserrat

 

Um sábio que, depois de viajar meio mundo, retirou-se para o silêncio de um eremitério na montanha sagrada de Montserrat. Basili Girbau, o monge eremita, faleceu no último dia 23 de dezembro, aos 78 anos, após uma longa e dolorosa enfermidade. Ele não era um monge qualquer. Como o abade do mosteiro catalão, Josep María Soler, reconheceu em seu funeral, ele era um beneditino com "um carisma especial", um sábio, um místico, talvez um santo. Basili nasceu em Barcelona em 1925, concluiu o ensino médio e, aos 18 anos, sentiu o chamado de Deus. Foi para Montserrat, onde professou como monge beneditino em 1945. Por muitos anos, dedicou-se à pesquisa e ao ensino bíblico. E para isso, depois de estudar em vários países, dedicou-se a viajar pelas terras bíblicas, onde aprendeu árabe e hebraico. Em 1973, retornou a Montserrat, onde iniciou seu eremitério, que interrompeu apenas por alguns anos, para viver no mosteiro maiorquino de Benicanella e, nos últimos dois anos de sua vida, devido a problemas de saúde.

 

Por quase 30 anos, viveu no eremitério de Santa Creu, a uma hora de caminhada do mosteiro de Montserrat. Seu eremitério, uma das muitas cavernas que perfuram suavemente a montanha sagrada, é cercado por uma parede de vidro, criando um pequeno espaço que contém uma cama, uma mesa, duas cadeiras, um fogão a gás, uma estante, uma cruz, um par de retratos de Ramana Maharshi, um sábio hindu do século XX, e um altar. Suficiente para o eremita de Montserrat, que, por quase três décadas, acordava ao amanhecer para passar o dia meditando, rezando e estudando.

 

O Padre Basili era um amante do momento presente. Quando alguém lhe perguntava qual era o segredo da felicidade de sua vida de eremita, ele respondia: "Viver. Não se trata de filosofar ou fazer longos discursos. Você está aqui, o que mais quer? Você respira. Seu coração bate. Que importa o ontem? Que importa o amanhã? Você está aqui. Então ria, ria com todo o coração. Você tem o essencial. Você não precisa de mais nem de menos."Uma filosofia de vida que o mantinha sempre alegre. Sua longa e espessa barba nunca lhe faltava um sorriso. Porque, como ele costumava dizer, "eu vivo em paz, silêncio interior e desapego." E a solidão? O Padre Basili afirmava não conhecê-la. "A solidão mora no coração. Não estou sozinho porque vivo em uma caverna no meio da montanha. Se você vive plenamente, não pode estar sozinho. Solitários são aqueles que vivem em um desses prédios anônimos, cercados por centenas de pessoas, mas em meio a uma terrível solidão."Em contato constante com o Mistério de Deus, Basili conseguiu alcançar o caminho da contemplação mística com a ajuda de um mestre espiritual hindu, Ramana Maharshi, que conheceu por meio de um livro em 1963. Ele o definiu como "um homem sem mente, que não precisava usar sua mente porque Deus havia preenchido seu espírito". Assim como ele preencheu o espírito de Basili, escrevendo livros em seu eremitério para ensinar as pessoas a serem felizes, profundamente felizes. "Para que a sociedade seja mais justa, a única coisa que precisa mudar é o coração do homem." Para superar tal inércia, o Padre Basili recomendou a desilusão. "Porque a desilusão é algo muito positivo. Se você vive enganado, a desilusão é libertadora. À medida que as pessoas se desiludem, a luz emergirá. Os aspectos negativos do engano serão revelados, e o que não é engano permanecerá", disse o mestre, e ele foi para o Reino da Desilusão.

Por Bru Rovira e Patricio Simón. Publicado em La Vanguardia no domingo, 23 de dezembro de 1990

 


Basili Girbau OSB, foi um exegeta bíblico catalão e monge beneditino da abadia de Montserrat. Seus estudos e pesquisas o levaram a vários países e a viajar por terras bíblicas. Ao retornar a Montserrat, ele iniciou uma vida de eremita que durou cerca de quase trinta anos. Em 1973, durante o mandato do Abade Cassiá Just, Basili Girbau retornou a Montserrat e iniciou sua vida eremítica, que interrompeu apenas por anos depois, para viver no mosteiro maiorquino de Santa Maria de Benicanella, do qual era prior e, nos últimos dois anos de sua vida, para onde se mudou devido a uma doença. Por quase trinta anos, viveu no eremitério de Santa Creu, a cerca de uma hora de caminhada do mosteiro de Montserrat.