Introdução
Bede Griffiths encontrou John Main pessoalmente apenas uma vez. Mas, como este livro mostra, ele veio a conhecê-lo muito bem através de seus livros e da comunidade que nasceu de seus ensinamentos. Do único encontro que tiveram em um mosteiro americano no verão de 1979, o que mais recordo vividamente é o senso de humor rápido e compartilhado entre eles. Desconcertando um tanto seus anfitriões, eles interrompiam os momentos mais solenes de discussão com risadas espontâneas e um espírito de diversão.
John Main costumava comentar que a solenidade levava à trivialidade, enquanto a seriedade conduzia à alegria. Humor e piadas simples não são fáceis de transmitir em livros; ainda assim, para professores cuja primeira ferramenta é a palavra falada, o riso do espírito é um canal natural e essencial para comunicar a verdade; ou, poderíamos dizer, para deixar a verdade escapar do saco em que tendemos a enfiá-la. No Seminário John Main de 1991, no qual Bede Griffiths falou sobre o tema “Meditação Cristã: A Tradição em Evolução”, houve essa rara integração entre seriedade e alegria. Robert Kiely e eu tentamos, ao editar essas palestras, preservar algo dessa qualidade da tradição oral — a “transmissão” de boca a boca e pela simples e total presença transmitida na linguagem do corpo, da mente e do espírito — da qual estávamos então compartilhando de forma tão intensa.
Foi depois da morte de John Main, em 1982, que o Padre Bede o leu profundamente pela primeira vez. Ele me escreveu por essa época expressando sua solidariedade pessoal, bem como sua admiração pelo que John Main havia tentado e iniciado na comunidade que fundou em Montreal e que agora se espalhou por todo o mundo. Foi então que comecei a perceber quanta visão e experiência comum de esperanças e decepções esses dois monges, bastante diferentes, compartilhavam.
John Main e Bede Griffiths, no Ocidente e no Oriente respectivamente, tentaram viver uma vida monástica restaurada aos seus elementos primitivos de contemplação e comunidade. Ambos haviam conhecido rejeição e incompreensão, assim como alguma aclamação e reconhecimento por sua inovação. O Padre Bede compreendia quão rapidamente as pessoas podem se apegar aos primeiros fracassos de uma nova visão e usá-los para denunciar a própria visão. Ele também sabia que era em comunidades pequenas e arriscadas — e não em instituições confortáveis —, e sobretudo no retorno fiel ao chamado do Espírito, que a visão acabava por se realizar.
Embora suas experiências em novos tipos de vida monástica
fossem muito diferentes e respondessem às necessidades de diferentes partes da
Igreja Católica, a leitura profunda e intuitiva do Padre John feita pelo Padre
Bede aproximou os dois movimentos. Essa é a importância e a realização do
ensinamento que ele transmitiu em New Harmony, Indiana, em agosto de 1991, e
que este livro registra para aqueles que desejam partilhar daquele momento do
espírito a uma distância de espaço e tempo.
Quando o Padre Bede me escreveu alguns anos atrás e disse
que sentia que “em minha experiência John Main é o guia espiritual mais
importante da Igreja hoje”, respondi perguntando-lhe o que queria dizer com
isso. Ele de modo algum estava diminuindo a contribuição de outros mestres contemporâneos, nem tampouco desejava criar uma tabela competitiva de
classificação. O que ele queria dizer era a singularidade da maneira como John
Main respondia a certas necessidades críticas das pessoas modernas em sua busca
por uma experiência mais profunda de Deus.
Em primeiro lugar, houve a redescoberta, por John Main, da tradição do mantra dentro do Cristianismo, especialmente nos ensinamentos dos Padres do Deserto e, em particular, de João Cassiano. Isso permitiu ao cristão moderno seguir um método de contemplação com o qual poderia se sentir confortável tanto teológica quanto culturalmente. E, de fato, como o Padre Bede afirma nas páginas seguintes, essa recuperação de um caminho de meditação não-discursiva preencheu uma lacuna trágica de vários séculos na vida espiritual cristã ocidental.
É claro que o que também encantava o Padre Bede nisso era o fato de que o próprio Padre John havia aprendido a meditar, inicialmente, com um mestre indiano. Foi isso que abriu seus olhos para reconhecer que a “fórmula” da Décima Conferência de Cassiano é, na prática, a mesma que o “mantra” do Oriente. Outro grande estudioso beneditino, Adalbert de Vogüé, disse em seu artigo “De João Cassiano a John Main” (Monastic Studies, nº 15) que, assim como Cassiano fez uma ponte entre o Cristianismo oriental e ocidental, assim também John Main é hoje uma ponte entre o mundo cristão e o não cristão.
O próprio Bede Griffiths, é claro, é um dos grandes mestres da união entre Oriente e Ocidente. Mais até do que John Main, ele fez disso a obra de sua vida: estudar e ser essa ponte. Nesse campo, eles são claramente complementares, e as diferenças entre seus ensinamentos refletem gradações de ênfase e de experiência pessoal. Para aqueles que se sentem desconfortáveis com as vestes amarelas de sannyasi do Padre Bede ou com seu canto em sânscrito, o Padre John é um apresentador mais familiar do ensinamento da não-dualidade. Já para aqueles que acham o foco inabalável do Padre Main no mantra, a príncipio exigente demais, a abordagem intercultural do Padre Bede e seu pensamento interdisciplinar oferecem uma estrutura mais ampla dentro da qual começar a meditar. Ambos não têm dúvida, e não hesitam em afirmar, que o mais importante é meditar.
O Padre Bede reconheceu, em sua primeira leitura de John Main, que uma de suas contribuições originais à busca espiritual moderna foi sua consciência especial da ligação entre contemplação e comunidade. Ao meditar em comum, as comunidades beneditinas de John Main — e a comunidade global de grupos de meditação cristã — afirmavam uma verdade que está no coração de sua visão: que da experiência cristã essencial de Cristo nasce e cresce a Igreja. John Main estava bem consciente de que o nascimento de uma comunidade é também o início da dor do crescimento e dos ciclos pascais de desenvolvimento. Se a meditação cria comunidade, a comunidade traz conflito. Mas essa espada que Cristo traz também pode ser usada para cortar as camadas de egoísmo pessoal e coletivo que bloqueiam a livre passagem do Espírito.
O Padre Bede dedica alguma atenção, nas páginas seguintes, à experiência psicológica individual do que o Padre John chamava de “peregrinação da meditação”. Mas, por mais importante que considere esse aspecto, ele não deixa de situá-lo dentro da compreensão da experiência de Cristo, que o Padre John via como estando no coração da meditação. Na verdade, é a teologia da meditação de John Main que tanto entusiasmou o Padre Bede quando o leu pela primeira vez. A visão é que, à medida que ultrapassamos nossa própria consciência egocentrada de pensamento e imaginação, entramos na liberdade da mente de Cristo e descobrimos que a consciência humana de Jesus é o nosso caminho para o Uno a quem ele chamava de Pai.
O psicológico e o teológico são desenvolvidos e integrados, tanto para o Padre John quanto para o Padre Bede, dentro da comunidade. A comunidade monástica deve servir a uma dupla função de laboratório e testemunha dessa jornada humana rumo à plenitude. O próprio monaquismo moderno necessita de renovação se quiser cumprir esse papel hoje. Na visão de John Main e Bede Griffiths, ele pode alcançar essa renovação ao se revisitar como o movimento leigo de comunidade contemplativa que, em essência, ele é.
No Seminário John Main em New Harmony, meditadores cristãos
— que já estavam formando comunidade — reuniram-se vindos de
muitas partes do mundo para se enriquecerem com os ensinamentos e a presença do
Padre Bede. Tornou-se, então, naturalmente, a oportunidade de dar forma à
articulação da rede internacional de meditadores, grupos e centros de meditação
que continuam a se formar a partir do compromisso comum com a meditação, na
tradição que John Main recuperou e transmitiu. Isso foi expresso como a Comunidade
Mundial para a Meditação Cristã. O Padre Bede participou das discussões que
delinearam sua primeira forma e estrutura e permanece um amigo próximo e
patrono ativo dela.
Minha lembrança do encontro entre o Padre Bede e o Padre John concentra-se em uma cena em um jardim, numa noite estrelada. Uma pequena brincadeira ou provocação levou a uma explosão de alegres risadas das quais todos participaram. Minha lembrança mais recente do Seminário John Main de 1991, em New Harmony, também reúne iluminações e risadas. Nem todos estavam visivelmente presentes, mas todos que estavam lá, estavam plenamente presentes. Junto com sua sabedoria, este livro deve transmitir algo do calor de Bede Griffiths e John Main, que souberam compartilhar seus dons de alegria um com o outro de uma forma que nos toca a todos. Este livro reconhece, de modo especial, a hospitalidade de Jane Owen, de New Harmony, Indiana, que fez do Seminário John Main de 1991 uma epifania daquele espírito de unidade pelo qual a comunidade de New Harmony corajosamente mantém.
Laurence Freeman

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