quarta-feira, 7 de março de 2018

WILLIGIS JAGER OSB - SOBRE A PRÁTICA DO ZEN E DA CONTEMPLAÇÃO (OUTONO DE 1993)



De vez em quando perguntam-me sobre a diferença entre a contemplação cristã e o Zen. Nesta reunião tentarei responder. Toda religião possui escrituras sagradas, rituais e mandamentos para auxiliar os praticantes encontrar a Deus, o divino, a essência, a verdadeira natureza, sunyata, etc. As escrituras e os rituais só apontam para Deus. São direcionados pela razão, mas este é um instrumento vago para experienciar Deus. Quem quer experimentar Deus, tem que ir além dos livros, rituais e de todos conceitos mentais. Assim, todas as religiões apontam caminhos que conduzem à experiência da realidade última. Deste caminho, surgiu o Zen Budismo, Vipassana, e o Budismo Tibetano. Entre os hindus surgiram as diferentes formas de Yoga. No Islamismo, surgiu o Sufismo, no Judaísmo, a Cabalá e no Cristianismo, surgiu a contemplação. Estes diferentes caminhos espirituais, apresentam o conhecimento dos textos sagrados e de seus mandamentos. E a contemplação é a maneira cristã. Isto é ensinado nos textos dos místicos, começando pelos Padres do Deserto, incluindo São Boaventura, Mestre Eckhart, São João da Cruz, Teresa de Jesus, Tersteegen, Madame Guyon e os Padres da Igreja Oriental, para citar apenas esses. Todos eles sabiam da prática de sentar-se em silêncio por  longos períodos (muitas vezes num banquinho), a repetir versos, e a permanecerem na presença de Deus. A base do Zen, praticada pela nossa escola, consiste em usar certos sutras, koans e entrevistas pessoais (dokusan) para orientação e instrução individual do discípulo. Essa forma atual foi assimilada na China antiga, entre os séculos sétimo e décimo, e foi fortemente influenciado pelo Taoísmo. O Taoísmo filosófico não é uma religião com dogmas e rituais. Assim, no caminho do Zen não há confissões, até mesmo na budista, embora o Zen tenha sido transmitido dentro do Budismo. É conduzido de forma mais coerente do que em outras tradições, indo além da mente lógica, rumo à experiência que no Zen é chamado de "iluminação". Existe uma certa estrutura básica comum a todas as tradições místicas: sentar-se silenciosamente por longos períodos, caminhar coletivamente, recitar mantras como auxílio à recordação. Os monges cristãos de Tebas e Scythe, tem por hábito sentar-se por até dez horas num banquinho ou em pacotes de papiro, também realizam tarefas físicas simples, nas quais praticam a atenção. Depois de escolher qual caminho nos identificamos, devemos focar na prática escolhida. O objetivo é comum a todas elas: nos levar à experiência da realidade original, que se chama, de acordo com a religião correspondente, ao divino, a natureza iluminada, ao absoluto, a essência. O espaço para a experiência transcendental é a base de nossos dons humanos, ainda que muitas pessoas não saibam disso.

Willigis Jäger Kyo-Un, representa a espiritualidade interconfessional. Como ex-padre Beneditino e mestre Zen Budista, sua visão é de uma espiritualidade integradora que une em si, o grande tesouro da sabedoria oriental e ocidental. Foi ordenado “Sensei” pela ordem Sanbo-Kyodan. Em 1983, Yamada Koun Roshi (1907-1989) deu a ele permissão para ensinar o Buda-Dharma. Em 1996 Kubota Roshi (sucessor de Yamada) concedeu a ele o selo “Inka Ji'un Shomei” de Roshi. Desde 2003 é diretor espiritual da Benediktushof e co-fundador do Sonnenhof, também é fundador da Linhagem “Nuvem Vazia”. Em 23 de outubro de 2009 foi certificado como sucessor 45ª da escola Linchi (Rinzai Zen).

terça-feira, 6 de março de 2018

MONJA COEN - 108 CONTOS E PARÁBOLAS ORIENTAIS (PRESENTE DE INSULTOS)

7  PRESENTE DE INSULTOS

Certa vez existiu um grande guerreiro. Embora idoso, ainda era capaz de derrotar  qualquer desafiante. Sua reputação estendeu-se longe e amplamente através do país e  muitos estudantes reuniam-se para estudar sob sua orientação.  Um dia um infame jovem guerreiro chegou à vila. Ele estava determinado a ser o  primeiro homem a derrotar o grande mestre. Junto à sua força, ele possuía uma habilidade fantástica em perceber e explorar qualquer fraqueza em seu oponente, ofendendo-o até que este perdesse a concentração. Ele esperaria então que seu oponente fizesse o  primeiro movimento, e assim revelando sua fraqueza, atacaria com força impiedosa e  velocidade de um raio. Ninguém jamais havia resistido a ele além do primeiro  movimento. 

Contra todas as advertências de seus preocupados estudantes, o velho mestre alegremente aceitou o desafio do jovem guerreiro.  Quando os dois se posicionaram para a luta, o jovem guerreiro começou a lançar insultos ao velho mestre. Ele jogava terra e cuspia em sua face. Por horas, verbalmente ofendeu o mestre com todo o tipo de insulto e maldição conhecidos pela humanidade. Mas o velho guerreiro meramente ficou parado ali, calmamente.  O jovem guerreiro ficou exausto.  Percebeu que tinha sido derrotado, e fugiu envergonhado. Um tanto desapontados por não terem visto seu mestre lutar contra o insolente, os estudantes perguntaram: 

“Como o senhor pôde suportar tantos insultos e indignidades? Como conseguiu derrotá-lo sem ao menos se mover?” 
“Se alguém vem para lhe dar um presente e você não o aceita,” o mestre replicou, “para quem retorna este presente?” 

Comentário

Não aceitar os insultos que nos fazem é uma arte. Geralmente nos ofendemos e ao ficarmos ofendidas reagimos. Toda a prática Zen é o treino de compreender nossos condicionamentos e, ao invés de reagir, agir. Escolher nossa resposta. Para tanto precisamos estar centradas, equilibradas, capazes de conhecer a nós mesmas e não nos intimidarmos com insultos e grosserias. No cristianismo talvez seja a expressão de "dar a outra face" ou seja, jamais responder a agressão com agressão.


Monja Coen Roshi, 108 Contos e Parábolas Orientais.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

PE. RICHARD ROHR OFM - JESUS E BUDA


Em seu livro, Jesus e Buda, o teólogo Marcus Borg (1942-2015) destaca numerosos ensinamentos de Jesus que são surpreendentemente semelhantes, aos ensinamentos do Buda, que viveu cerca de seis séculos antes de Cristo. Houve algumas tentativas de explicar essas semelhanças através do processo histórico, que é uma possibilidade distante. Borg sugere uma observação mais significativa: que Jesus e Buda trilharam a mesma meta e caminho espiritual, eu diria que o Espírito Santo que guiou toda a história. A Cabala judaica, o Sufismo muçulmano e os ensinamentos do Tao também revelam um mapa para a consciência de não dualismo.

Deixe-me apenas compartilhar apenas alguns dos ensinamentos comparativos que Borg recolheu em seu livro, e você verá como eles vem de uma mesma perspectiva não-dual:

Jesus diz: "E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também" (Lucas 6:31). Buda diz: "Considere os outros como você mesmo". (Dhammapada 10.1).

Jesus diz:"Se alguém lhe bater numa face, ofereça-lhe também a outra. Se alguém lhe tirar a capa, não o impeça de tirar-lhe a túnica", (Lucas 6:29). O Buda diz: "Se alguém golpeá-lo com a mão, com pedras, com um pau ou com uma faca, você deve abandonar todos os desejos e pensamentos que tomem por base a vida em família. E assim é como você deveria treinar: ‘Minha mente não será afetada e eu não direi palavras ruins; eu permanecerei compassivo pelo bem-estar dele, com a mente plena de amor bondade, sem raiva", (Majjhima Nikaya 21.6).

Jesus diz: "Ele responderá: Digo-lhes a verdade: o que vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim deixaram de fazê-lo", (Mateus 25:45). Buda diz: ""Se você não se cuida, então quem cuidará de você? Quem quer que me cuide, deveria cuidar dos doentes", (Vinaya, Mahavagga 8.26.3).

Jesus e Buda diagnosticaram o dilema humano da mesma maneira. Nosso sofrimento baseia-se principalmente na ignorância. A grande maioria da humanidade está cega sobre quem somos e para onde vamos. Jesus e Buda falaram sobre ansiedade, apego e autocentramento.

Infelizmente, o cristianismo se preocupou tanto com a certeza de que todos deveriam acreditar que Jesus era Deus, que ignorou em grande parte seus ensinamentos sobre desapego, simplicidade, não-violência e ansiedade. Nossos irmãos e irmãs budistas podem nos ajudar a lembrar estes ensinamentos no centro da nossa fé. Eles podem nos ajudar a ser cristãos melhores e mais verdadeiros. E podemos ajudá-los, ou pelo menos dar-lhes muito poucos motivos para não gostar de nós! Por que não tentar esse novo plano?

Em muitos níveis, Jesus e Buda falaram sobre a mesma experiência, a de transformação. A finalidade de toda espiritualidade é se  transformar, morrer antes de morrer e renascer como verdadeiros seres compassivos.

Caminho da porta para o silêncio: Nós já somos um.

Sexta-feira, 8 de dezembro de 2017 (dia de iluminação de Buda)


Richard Rohr OFM, (1943) é um frade franciscano americano. Ele entrou na Ordem Franciscana em 1961 e foi ordenado sacerdote em 1970. Fez o mestrado em Teologia na Universidade de Dayton em 1970. Fundou a "Comunidade Nova Jerusalém" em Cincinnati, Ohio. Em 1971 fundou o "Centro de Ação e Contemplação" (CAC) em Albuquerque, no Novo México. Atualmente atua como Diretor Fundador e Decano Acadêmico da "Living School for Action and Contemplation". Pe. Richard é autor de numerosos livros, incluindo Everything Belongs, Adam's Return, The Naked Now, Immortal Diamond e Ansioso para amar: o Caminho alternativo de Francisco de Assis. 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

PE. RICHARD ROHR OFM - UM PONTO NO VAZIO



Hoje, continuamos com o relato de Thomas Merton sobre o "Verdadeiro Eu" que resultou na sua "conversão" em Fourth e Walnut. Isto é tão inspirador, que quero citar todo o texto: "No centro do nosso ser tem um ponto vazio que é intocado pelos pecados e pelas ilusões, um ponto de pura realidade, uma centelha que pertence integralmente a Deus, e que não está ao nosso alcance, que é inacessível às fantasias de nossa própria mente ou às brutalidades dos nossos próprios desejos." 

Este pequeno ponto no vazio é o absoluto, a simplicidade, a pura glória de Deus em nós. Seria como o nome de [Deus] pincelado em nós, com nossa humildade, nossa pobreza, nossa segurança, com nossos filhos.

É como um puro diamante, ardendo na luz translúcida do céu. Está em todos, e se pudéssemos vê-lo, veríamos isso: bilhões de pontos luminosos se misturando diante da face escaldante do sol, e isso faria desaparecer por completo a escuridão e a crueldade do mundo.

Não tem nenhum programa de computador para visualizar isto. É apenas a realização. Mas o portão do paraíso está em todo lugar. A maioria das pessoas passa a vida toda alimentando seus falsos "eus", suas auto-imagens, acreditam serem isto, ao invés de acessarem o "eu" original, que seria ótimo aos olhos de Deus. 

Mas tudo o que podemos "retribuir" à Deus, para os outros e também para mim é ser quem realmente somos. Isto é o que Merton descreve acima. É um espaço de simplicidade absoluta. Talvez não queremos retornar porque é demasiado simples e espontâneo. Nos sentiríamos perdidos. Sem motivos para festejar. Sem nada para demonstrar, muito menos superioridade. Ali estou nu e pobre. Depois de anos de postura e prática, se sentindo vazio.

Mas quando não somos especiais, estamos em uma boa posição para receber tudo de Deus. Como Merton diz acima, nosso ponto vazio é "a pura glória de Deus em nós". Se olharmos para as grandes tradições religiosas, vemos que todos usam palavras diferentes para apontar na mesma direção. A palavra franciscana é "pobreza". A palavra carmelita é "não-existência". Os budistas falam do "vazio".

Em sua bem-aventurança, Jesus fala de ser "pobre em espírito". A Bíblia como um todo, prefere falar em imagens, e o deserto é fundamento. O deserto é onde somos voluntariamente testados; Jesus diz para entrar no "quarto interior". 

Eu devo estar "vazio" para se abrir a toda e nova realidade. O reservatório de solitude e contemplação de Merton permitiu que ele visse o portão do paraíso em todos os lugares, mesmo numa esquina comum. Um mestre Zen chamaria o "Eu Verdadeiro" de "o rosto que tínhamos antes de nascermos". Paulo chama isso de "a vossa vida escondida com Cristo em Deus." (Colossenses 3:3) 

Isto é, quem você era antes de ter feito tudo certinho ou algo errado, quem você era antes de pensar sobre quem você é. Os pensamentos criam o falso-eu, o ego, o eu-inseguro. A mente contemplativa concebida por Deus, por outro lado, reconhece o eu-Deus, o eu-Cristo, o verdadeiro eu de abundância e de profunda estabilidade interior. Começamos com uma mera observação, nos identificando.

Caminho da porta para o silêncio:
Você mora em mim; Eu vivo em você.

Sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Richard Rohr OFM, (1943) é um frade franciscano americano. Ele entrou na Ordem Franciscana em 1961 e foi ordenado sacerdote em 1970. Fez o mestrado em Teologia na Universidade de Dayton em 1970. Fundou a "Comunidade Nova Jerusalém" em Cincinnati, Ohio. Em 1971 fundou o "Centro de Ação e Contemplação" (CAC) em Albuquerque, no Novo México. Atualmente atua como Diretor Fundador e Decano Acadêmico da "Living School for Action and Contemplation". Pe. Richard é autor de numerosos livros, incluindo Everything Belongs, Adam's Return, The Naked Now, Immortal Diamond e Ansioso para amar: o Caminho alternativo de Francisco de Assis. 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

EIDO SHIMANO ROSHI - GRATIDÃO

                        David Steindl-Rast e Eido Shimano

"As pessoas geralmente me perguntam como os budistas respondem a pergunta sobre a existência de "Deus". Outro dia eu estava andando pela margem de um rio. O vento soprava. De repente, pensei, Oh! O ar existe. Sabemos que o ar está lá, mas, a menos que o vento não sopre contra o nosso rosto, não ficamos cientes disso. O vento está aqui. E o sol também. De repente, percebi o sol, brilhando entre as árvores. O seu calor, o seu brilho e tudo isso de forma gratuita, completamente grátis. Simplesmente para nós desfrutarmos. E sem me dar conta, espontaneamente, uni minhas duas mãos palma com palma e percebi que estava fazendo gasshô. E ocorreu-me que isso é tudo o que importa: que podemos nos curvar, tornar-se um arco largo. Apenas isso. Só isso."


Eido Tai Shimano (1932 - 2018) foi um roshi da tradição Rinzai. Foi o abade fundador do New York Zendo Shobo-Ji em Manhattan e o mosteiro Dai Bosatsu Zendo Kongo-Ji nas montanhas Catskill de Nova York. 


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

MESTRE TOKUDA, SÃO JOÃO DA CRUZ, ECKHART em 'O ZEN NO BRASIL'



(...) a influência  de Suzuki foi ainda mais profunda: Tokuda (Igarashi) também era fascinado pelos místicos cristãos. Assim, ele entendia que o estado de êxtase mencionado por São João da Cruz e Mestre Eckhart como sendo experiência de iluminação Zen. Tokuda não via diferença entre Ocidente e Oriente em relação a esse estado de êxtase e via a experiência cristã da união com Deus como a mesma do satori (iluminação). De fato, Tokuda escreveu, em seu livro, Psicologia Budista (1997, p.60): "Como disse São João da Cruz: a noite dos sentidos, a noite do espirito, a noite da alma. Através desta viagem interna começamos a nos afastar do mundo exterior e começamos a trabalhar o nosso mundo interior, mergulhando dentro da nossa subconsciência, da inconsciência. Quando chegar ao fundo dessa escuridão, há aquela união com Deus, com o Amor. Para que essa experiência, a escola Zen tem uma palavra: a iluminação, o satori" A interpretação de Tokuda parece ser decorrente diretamente da proposta de Suzuki de equiparar os misticismos cristão e Zen e, assim, responder ao desafio do discurso de superioridade cristã ocidental. Para Suzuki, como o Zen era livre de tradições religiosas, culturais, e filosóficas, tanto budistas quanto os cristãos poderiam praticá-lo. De fato Suzuki afirma "Eckhart, e o Zen... podem ser colocados juntos como pertencendo a grande escola do misticismo" e "tenho certeza de que Eckhart teve um satori" Suzuki, apud FAURE, 1993, P. 61-64)

pág 69, cap.1 - A conexão Brasil-Japão: organizando as missões Zen; Kaikyôshi trabalhando com não descendentes. 

"O ZEN NO BRASIL: EM BUSCA DA MODERNIDADE COSMOPOLITA"

Cristina Rocha, é professora associada do "ARC Future Fellow at the Religion and Society Research Centre". Ela é editora do "Journal of Global Buddhism" e da série de livros Religião nas Américas. Suas áreas de pesquisa são: globalização, religião, transnacionalismo e negociações interculturais, com especial interesse no trânsito cultural entre o Japão, Brasil e Austrália. 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

HUGO ENOMIYA LASSALLE SJ - ZEN E FÉ CRISTÃ


Enomiya-Lassalle pratica zazen desde 1943, e está dando cursos regulares na Europa desde o encontro “Oriente-Ocidente com Elmaul R.F.” na Alemanha em 1967. O Zen é um caminho meditativo cuja antiga origem está na Índia. Lassalle tem sido um discípulo do famoso mestre zen japonês Harada, que uniu as duas correntes clássicas "Soto" e "Rinzai", criando uma nova forma, que até agora é transmitida. Padre Lassalle insiste de forma especial na atitude interna, sem a qual a abertura para os níveis mais profundos de consciência não é possível. Enquanto isso, alguns mestres Zen ocidentais foram treinados seguindo o exemplo de Lassalle. As avaliações e o reconhecimento como “senseis” são extremamente difíceis, entre outras questões, porque você tem que solucionar cerca de cem koans. O reconhecimento completo como professor Zen é reservado para poucos. O professor não é para seus discípulos nenhum professor, mas sim o próprio "Buda". Enomiya-Lassalle teve as primeiras dificuldades com as instâncias do Vaticano quando publicou seu livro "Zen em sua própria identidade". O livro não tinha sido aprovado até o Concílio Vaticano II, que abriu as janelas para o Oriente. Enomiya-Lassalle sempre seguiu seu caminho sem hesitação, firmemente convencido, e levou um número considerável de discípulos ao objetivo real, que é a experiência da iluminação.

O que só era possível no caso de pessoas especiais, hoje pode se tornar uma realidade para muitos. A experiência da realidade absoluta leva à plena unidade, transformando a vida e a morte em uma e mesma coisa, não experimentadas como realidades separadas. Um monge perguntou ao famoso mestre Zen chinês Joshu, à época da dinastia Tang (778-897): "O que é a iluminação?" Joshu respondeu: "Sou surdo". O monge repetiu a pergunta. Joshu disse: "Eu não sou surdo, como você sabe". Então Joshu compôs um poema: “aquele que se move livremente na grande estrada percebe o portal da iluminação”. "Apenas sente-se", e o espírito não conhecerá fronteiras. Todos os anos, primavera, e primavera novamente.

O que é o Zen?

A origem da palavra Zen vem do sânscrito 'dhyana' que significa 'meditação'. Os chineses começaram a pronunciar ‘Chan’, e a escrever com um ideograma que eles já usavam no Taoísmo. O ideograma é composto pelos elementos 'deus' e 'um', e significa, portanto, 'unidade com Deus'. Com o tempo, a palavra Zen foi adquirindo um significado mais amplo e hoje abarca tudo o que tem alguma relação com essa forma de meditação. Para este conjunto também pertence, por exemplo, a famosa cerimônia do chá, bem como a arte do tiro com arco, chamado kyodo (caminho do arco). Também a esgrima, o judô, o karatê, a caligrafia e o ikebana (o caminho das flores). Todos eles são para o Zen, não simples esportes ou artes, mas caminhos, caminhos espirituais. O espírito do Zen pulsa neles, isto é, eles são animados pela mesma atitude espiritual em relação à própria vida. Todos esses caminhos do Zen estão sendo conhecidos hoje em maior ou menor extensão no Ocidente, onde são praticados por mais e mais pessoas. Cada um deles tem suas próprias regras, seus significados e seus resultados especiais. Se deter-nos nos detalhes de cada um deles, nos levaria muito tempo. No entanto, o mais radical e eficaz de todos esses caminhos sempre foi e ainda é o Zazen.

A origem do zazen

No século VI a.c. Buda adotou a postura de lótus, postura clássica de meditação iogue na Ásia, usada no zazen. No entanto, é considerada essencial para o seu fundador: Bodidarma, um monge indiano, que, segundo a tradição, foi para o Sul da China em 526 d.c, cerca de mil anos depois de Buda. Ele fundou na China uma escola de meditação, na qual ao longo do tempo resultou no que hoje é a meditação Zen. Bodidarma legou o método prático de meditação que é usado nas correntes budistas a que fundou, e denominou Mahayana (em outras divisões budistas, estendendo-se, por exemplo, ao Ceilão, Birmânia e Tailândia, havia formas diferentes de budismo, portanto, o zazen não pertence a estas tradições).  Mais tarde, aos ensinamentos e a meditação de Bodidarma foram incorporados elementos de várias correntes filosóficas chinesas, especialmente o Taoísmo, com o qual o zazen tem uma relação muito próxima. Falar dos detalhes do desenvolvimento do Zen na China nos levaria tempo para nosso propósito, também não seria necessário. Além disso, uma vez que a fusão com o espírito chinês havia sido consumado, o Zen já não passava por mudanças essenciais. O Zen chegou no Japão pela Coréia. Isso aconteceu entre os séculos VII e XI. Mas, mesmo depois de ter sido introduzido no Japão, os discípulos Zen japoneses por séculos seguintes iam à China aprender com os grandes mestres chineses. Quase todos os koans, (certas charadas apresentadas para os discípulos que serão discutidos abaixo) recorrem aos antigos mestres chineses, ou seja, remonta cerca de mil anos atrás. Este breve resumo da história do Zen torna compreensível que exista hoje, como em outros tempos, diferentes interpretações, práticas e exercícios. Deve ser citado principalmente duas escolas que se destacaram no século XII, momento culminante da entrada do Zen no Japão, e que agora estão claramente diferenciadas entre duas escolas: "Soto" e "Rinzai". Vamos tentar apontar, no momento, as diferenças mais importantes em termos de interpretações e práticas.

Prática e exercício do Zazen 1985/86.

do livro; “Viver na nova consciência”.



Pe. Hugo Enomiya-Lasalle, nasceu na Alemanha em 1898, se dedicou à atividade missionária no Japão desde 1929, interessou-se pelas práticas budistas locais, abraçando a prática meditativa do Zen. Ordenado como jesuíta tornou-se vigário de Hiroshima e em 6 de Agosto de 1945 foi gravemente ferido no ataque atômico sobre a cidade. por um curto período de tempo retornou à Alemanha. Em 1956, Enomiya-Lassalle começou a estudar o Zen com Harada Daiun Sogaku. Em 1958 publicaria Zen: Caminho para a iluminação, no entanto a Santa Sé o proibiu de continuar publicando sobre o assunto. Em fins da década de 1960, Enomiya-Lasalle ganhou autorização como professor na linhagem Sanbo Kyodan de Yamada e recebeu o título de Roshi, ao mesmo tempo que mantinha sua crença cristã. Depois de 1968, Enomiya-Lassalle passou muito de seu tempo na Europa promovendo retiros zen e incentivando a prática do zazen entre cristãos.