segunda-feira, 1 de maio de 2017

PATRICK EASTMAN KUNDO - MEU ENCONTRO COM PE. BEDE GRIFFITHS




Fui um oblato beneditino da comunidade anglicana de Nashdom, em meados dos anos 1960 estava quando estudava para o sacerdócio na Igreja Anglicana da Casa de Santo Estêvão em Oxford, fui atraido pelo livro “Golden String” do Pe. Bede Griffiths. Eu tinha visitado Prinknash uma vez antes, então eu já conhecia esta comunidade, e achei seu compromisso com o diálogo interreligioso extremamente interessante. Na mesma época, li os documentos do Concílio Vaticano II, especialmente “Nostra Aetate”, sobre a relação da Igreja Católica com as religiões não-cristãs. Eu estava particularmente muito interessado pelo que li sobre Budismo. Ao mesmo tempo que eu procurava viver uma vida espiritual contemplativa cristã, encorajei-me a estudar: "O Budismo em suas várias configurações, propõe uma atitude pelo qual as pessoas podem, com diligência, acessar um estado de libertação total e alcançar a completa iluminação". Além disso, colaborou com o meu sincero compromisso de dialogar com budistas, ao que diz esta passagem: “A Igreja Católica não rejeita nada do que é verdadeiro e santo nessas religiões. Portanto, a Igreja exorta seus filhos e filhas a entrar com cuidado e caridade em discussões e cooperações com membros de outras religiões, para o reconhecimento das verdades espirituais e morais encontradas entre os não-cristãos”. Este desejo de estar aberto ao Zen Budismo surgiu em 1983, quando, depois de passar 15 anos como sacerdote anglicano, minha esposa e eu nos mudamos para Tulsa, Oklahoma, onde fui aceito como padre católico que havia obtido matrimônio. Foi auspicioso naquela época ter ido morar quase na porta do mosteiro de Osage. Osage era uma pequena comunidade religiosa estabelecida pelas irmãs beneditinas, como a Irmã Pascaline Coff, que passou um ano em Shantinavam com o Pe. Bede. O mosteiro foi construído numa área de 50 hectares no território de Osage. Pe. Bede veio da Índia abençoar o espaço e os alojamentos, concretizando assim o primeiro Ashram Beneditino da América do Norte. Nos anos seguintes, Pe. Bede sempre fazia uma visita ao mosteiro de Osage, durante suas visitas à América ficava uma semana ou mais. Durante essas visitas passei um bom tempo dialogando com ele e recebi muito força. Concelebrando a Eucaristia com ele, também pude aprender como oficiar uma cerimônia no estilo indiano, que foi mais interessante quando atuei como capelão da comunidade entre 1990 a 1995. Nas minhas conversas com o Pe. Bede falei da minha prática Zen Budista. Pe. Bede me deu muito ânimo, foi encorajador, lembrou-me que o Zen se desenvolveu fora da tradição Hindu mas que ainda se unificava com o Hinduísmo em sua raiz mais profunda. (aqui Pe. Bede usou uma expressão típica usando seus dedos e a palma da sua mão para mostrar que todas as religiões do mundo se unem em seu plano mais profundo). Embora eu tivesse começado a usar meu próprio método de meditação Zen inspirado nos escritos de Thomas Merton durante a década de 1980, foi no mosteiro de Osage que fui apresentado pela primeira vez a um genuíno Zen Roshi. Ruben Habito Roshi veio liderar as irmãs em seu retiro anual. Após minha participação neste retiro, fui aceito como um estudante Zen por Ruben em 1990. Isso marcou o momento em que a minha prática se desenvolveu de modo mais sério. Minha tarefa sacerdotal na naquela época era de diretor Diocesano de Formação Espiritual. Como parte do meu trabalho sob este importante título, formei um grupo de oração contemplativa. Embora ainda chamado de “grupo de oração”, eles se desenvolveram na comunidade Monos, que pouco a pouco sob minha orientação se tornou algo parecido com uma sangha. Em 2001 passei por um longo mês sabático. Um membro da comunidade Monos ofertou um financiamento de viagem ao Japão para eu estudar num mosteiro Zen. Cuidadosamente considerei a possibilidade, mas acabei sendo atraído por participar do programa de residência de um mês no "Zen Mountain Monastery" localizado nas montanhas Catskill do norte de Nova York. Este monastério foi considerado como um dos melhores mosteiros de treinamento Zen do ocidente. Daido Loori Roshi, o abade do Mosteiro tinha treinado com o mestre Zen japonês Taizan Maezumi Roshi que veio à Los Angeles na década de 1950. Os livros de Taizan Maezumi e Daido me ajudaram muito na prática. Decidi que passaria todo o mês de outubro no mosteiro sob a orientação de Daido Roshi. A experiência desta época foi tão poderosa que, com a permissão de Ruben Habito, me tornei um estudante formal com Daido Roshi. Durante todo este tempo eu ainda estava conectado a Pe. Bede, me pusera como oblato beneditino da comunidade Camaldolense em Big Sur, Califórnia. Durante minhas visitas para os retiros e para passar um tempo só no eremitério, me tornei amigo de Pe. Cyprian Consiglio, que é membro dessa comunidade. Pe. Cipriano estudou os escritos do Pe. Bede e passou um longo tempo no Ashram em Shantivanam. Como eu, ele é verdadeiramente dedicado ao trabalho do diálogo interreligioso, todos os anos viaja por todo o mundo para passar a mensagem do Pe. Bede, usando poesia e música em suas canções, versos e melodias de distintas religiões. Não foi nenhuma grande surpresa quando me aposentei do trabalho em Tulsa em 2004, e voltei a morar na Inglaterra. Não demorou muito montei um grupo Zen em Cotswolds. Em 2006 formamos a “Wild Goose Zen Sangha”, que se reúne todas as quintas-feiras à noite na Igreja St. Lawrence em Chesterton, em Cirencester. Quando voltei para a Inglaterra, no entanto, não podia cumprir as condições para continuar a ser aluno de Daido Loori Roshi. Por causa da minha longa amizade com o Pe. Robert Kennedy, que é tanto padre jesuíta quanto um  Roshi, pedi que me aceitasse como seu discípulo. Ele concordou prontamente e em 2009, com o acordo do bispo Declan, o bispo católico de Clifton, ele me transmitiu como um “Sensei” (professor) no White Plum Asanga, sangha fundada por Taizan Maezumi Roshi. Fiquei satisfeito por ter meu trabalho assegurado pela publicação em 2010 de um documento de ensino da Conferência dos Bispos Católicos da Inglaterra e do País de Gales chamado “Meeting God in Friend and Stranger”. Nesse relatório foi dito que o Papa Bento XVI, durante sua visita à Turquia em 2006, declarou que o diálogo não era uma opção, mas uma necessidade. Parece-me que não havia melhor maneira de responder a isto do que praticar um exercício de oração inspirado na de outra tradição religiosa, que é perfeitamente compatível com a fé cristã. Afinal, o mestre Zen japonês Yamada Roshi, costumava dizer duas coisas aos cristãos que estudavam com ele; Não há diferenças entre um cristão e um zen budista quando oram: ambos são luz sentadas na luz". De outro modo, ele diria aos estudantes cristãos: “Não estou tentando te converter ao Budismo, mas te auxiliar a se esvaziar, como fez seu senhor Jesus Cristo”. Na minha própria vida, descobri que a tradição cristã é esplêndida em sua teologia e oração contemplativa, mas o que falta são instruções de como fazer isso. Para aqueles que são atraídos para um estilo contemplativo de oração, além de todas as escrituras, a prática Zen Budista é uma maneira favorável de entrar em contato com o seu próprio ser genuíno. O Zen oferece algo muito simples, muito direto e acessível a todos.
 
21/12/2011


Patrick Eastman Kundo, é um padre católico e monge Zen Budista ordenado por Pe. Robert Jinsen Kennedy Roshi. É fundador e orientador do ”Wild Goose Zen Sangha” na região Cotswold no Reino Unido. Treinou também com Ruben Habito Roshi, John Daido Loori Roshi e Maezumi Roshi.

 

domingo, 30 de abril de 2017

PATRICK EASTMAN KUNDO - QUARTA-FEIRA DE CINZAS DE 2010





Hoje nas Igrejas Católicas em todo o mundo e em muitas Igrejas Anglicanas as pessoas serão chamadas pelas palavras "Lembre-se que és pó e ao pó voltará". Parece uma maneira muito desanimadora de iniciar a Quaresma; muitos pode se sentir para baixo, com falta de dignidade e valor. Mas isso não é o caso. É apenas uma observação de nossa finitude. A morte é algo que todos nós temos que enfrentar, pois é parte de todo o mistério da vida. Para os cristãos, é uma advertência de que nós devemos participar do mistério pascal, que inclui a vida, a morte e ressurreição. Não apenas como uma coisa prometida, mas algo que passamos no dia a dia. Nos locais de tradição budista, ouve-se à noite as seguintes “gathas” (versos de moppan)

"Deixe-me respeitosamente lembrar que vida
morte é de suprema importância
Tempo rapidamente se vai e oportunidade se perde
Cada um de nós deve se esforçar para despertar ..."

Mais uma vez somos desafiados a encarar os fatos. Os psicólogos dizem que todos nós temos um medo contido de desvanecer, precisamos eliminar os efeitos tóxicos que esse medo se dá em nossas vidas. Temos que enfrentar este mistério, que a impermanência está inserida. Isso só é um fato. Quando usamos o tempo  com silêncio entramos em contato com camadas mais profundas de nossa consciência, experimentamos a plenitude verdadeira.


Patrick Eastman Kundo, é um sacerdote católico ordenado pelo Pe. Robert Jinsen Kennedy. É fundador e orientador do ”Wild Goose Zen Sangha” na região Cotswold no Reino Unido. Treinou também com Ruben Habito Roshi, John Daido Loori Roshi e Maezumi Roshi. http://wildgoosesangha.org.uk/

THOMAS HAND SJ - UMA REVELAÇÃO


Eu estava de pé na plataforma da velha estação de madeira do distrito de Taura em Yokosuka à espera do costumeiro trem azul da linha Yokosuka, lendo um pequeno livro do teólogo Karl Rahner intitulado “Natureza e Graça”. Mais de 40 anos depois, hoje ao ler este livro novamente, Rahner argumenta contra a "visão generalizada da graça" como "o sobrenatural acima da vida espiritual e moral do homem" . Ele diz que não é surpreendente "quando um homem desinteressado nesta superestrutura incompreensível do ser, esta dádiva se faz presente no preparo da manifestação da própria consciência”. Ele sustenta que os movimentos de graça são uma parte autêntica da existência desperta; Que esses "fatos existenciais" naturais não são apenas irregularidades do ser além da mente, mas se tornam palpáveis na prática da busca de si mesmo. Mesmo agora, depois de todos esses anos, ainda me lembro do impacto que essas palavras tiveram sobre mim na plataforma daquela estação. Dizer que podemos e devemos estar conscientes da graça em nossa vida diária abriu um novo plano existencial para mim.  Rahner falava sobre a experiência direta. "autoconsciência imediata”. Refleti a minha vida toda sobre essas coisas. Especialmente durante os três anos de formação filosófica e quatro anos de formação teológica, estudei e aprendi tudo sobre a graça. Contudo, as realidades tratadas em todos esses estudos permaneceram apenas no plano das ideias. Acima de tudo, a graça sobrenatural, essencial como se julgava, sempre fôra superior a qualquer experiência direta. Alguns anos depois da minha leitura de Rahner, Thomas Merton falou em Anchorage quando deixou os EUA pela última vez, ele disse brevemente que a Igreja nos EUA é demasiado cerebral. Bem, a este respeito, fui certamente um produto do meu tempo. Por muitos anos vivi de forma intelectual e cerebral. Abordava a vida de forma analítica, padronizada. Nenhuma dessas operações mentais levam a experiência direta, que é o único meio de transformação.
 
tradução livre do trecho do livro Handokai – O caminho Zen-Cristão (seleção de escritos e palestras de Thomas G. Hand)

 Pe. Thomas Hand, foi um teólogo jesuíta que viveu por quase 30 anos no Japão, onde estudou o Zen-Budismo sob orientação de Yamada Koun Roshi e Yasutani Roshi. É professor do Mercy Center em Burlingame, Califórnia, espaço onde os praticantes são orientados na prática inter-confessional cristã-budista.

 http://mercy-center.org/

sábado, 29 de abril de 2017

THOMAS HAND SJ - SER INFINITO, SER INCRÍVEL




O Zazen começa com a chamada "Raiz da Grande Fé". "Daishinkon" em japonês. (Dai "grande", shin "fé, confiar", kon "raiz") Em que temos fé? Aceitamos a realidade e simplesmente confiamos nela? No Zen, aceitamos a realidade da natureza-buda (buddhata) (natureza de Cristo para os cristãos) e no conceito de que tudo possui natureza-buda. Essa é a fé fundamental, e se você confia, isso se manifesta. Você não é simplesmente essa natureza, mas deve experimentá-la conscientemente, despertá-la.  Em japonês, essa natureza-buda é chamada "kû”. Em sânscrito é chamada de "sunyatâ". Ambas as palavras, em certo sentido, significam "vazio". No entanto “ku” não é um simples vazio. É o que é vivo, ativo, desprovido de tamanho-profundidade, além de individualidade ou personalidade e de causalidade.Todos os fenômenos surgem deste vazio, que só é vazio do ponto de vista discriminativo. Está vazio de todas as separações. “Vazio” no sentido de extinção. No sentido de não termos uma personalidade fixa, de todos os fenômenos brotarem deste vazio. O significado de “ku” como vazio nega qualquer identificação com a personalidade.Shin ku nyo yu”, essa frase Zen tem um bonito significado. O vazio verdadeiro é magnífico, indescritível. É esta experiência elementar da felicidade verdadeira, que é a perfeita união. Esta é a realidade última, o ensinamento primordial. Este “sem forma” está aquiagora e pode ser experimentado. Eu posso experimentá-lo. Isso é o que Jesus quis dizer: "Eu voltarei ao Pai". O “Pai” é este vazio, a fonte sem forma. Como conhecemos nossa própria natureza sem forma? É apenas por meio da iluminação, lucidez e clareza. Não se realiza através de palavras, ou falando. Assim ninguém se ilumina, mas sim através da intuição, da percepção direta. O oposto disso é o pensamento conceitual. É como olhar para um mapa. Você não vai ter a experiência do lugar olhando para o mapa. Só apenas quando você for para a cidade e ter essa experiência. Isso é percepção direta. Conceitos, imagens, memórias. Todas essas coisas não são percepção direta e isso nunca satisfará nossa fome por descobrir nossa verdadeira natureza, que só pode ser vivida através do contato direto. Meu corpo é um fantasma, como bolhas num rio. Minha mente, em si mesma, é tão sem forma quanto o espaço infinito, mas em algum lugar por dentro ruídos são percebidos. Quem está ouvindo? Se você se questiona neste sentido com profunda concentração, sem enfraquecer a intensidade do esforço, sua mente racional acabará se cansando e apenas o questionamento mais profundo se manterá. Finalmente você abandona corpo e mente. Suas velhas concepções e achismos se anulam, em seguida surgem questões mais elevadas, do tipo “como cada gota d´água desaparece no fundo do copo”, lampejos seguirão como flores que desabrocham inesperadamente em árvores mortas. De fato, com tal prática você consegue se libertar. Sua essência, então, que brilha se intensificará à medida que as sensações ilusórias vão indo embora, como uma joia que cintila sob o polimento, até que finalmente reluz em todo o universo. Não duvide disso! Bassui, citado em Kapleau, Os Pilares do Zen, p. 171.

 tradução livre do trecho do livro Handokai – O caminho Zen-Cristão (seleção de escritos e palestras de Thomas G. Hand)

 Pe. Thomas Hand, foi um teólogo jesuíta que viveu por quase 30 anos no Japão, onde estudou o Zen-Budismo sob orientação de Yamada Koun Roshi e Yasutani Roshi. É professor do Mercy Center em Burlingame, Califórnia, espaço onde os praticantes são orientados na prática inter-confessional cristã-budista.

 http://mercy-center.org/