segunda-feira, 4 de novembro de 2019

FREI ANGELINO FEITOSA OFM - VIVER O SILÊNCIO

                                          
"Maria conservava no coração todas essas coisas. E Jesus crescia e ficava mais forte, cheio de graça e de sabedoria" (Lc 2, 51-52) O poder das trevas é a força do não iluminado, do obscuro, do medo. É tudo aquilo que se opõe à ação do Espírito Santo, que retarda essa ação, que dificulta essa ação. Quando reprimimos emoções, sentimentos, pensamentos ou qualquer coisa de nossa consciência, abrimos espaço para o poder das trevas.Tudo que sofremos com medo, dá força ao poder das trevas dentro e em torno de nós. Esse poder das trevas aparece na Bíblia algumas vezes. Ele é muito forte na paixão de Jesus. Quando Judas, Pedro e os apóstolos caem nesse poder do medo, deixam de viver a beleza e a verdade do momento. "Se a luz que existe em você se torna escuridão"... (Mt 6,23; Lc 11,34). Eu diria que aí há um pecado contra o Espírito Santo, porque impede a luz do Espírito Santo de introduzir-se em sua verdade. Esta é a razão de tanta gente não realizada. Qual é a força, a arma eficiente para enfrentar este poder destruidor? A arma eficiente se chama silêncio. O silêncio é o valor insubstituível. É a matéria-prima com que o Espírito Santo quer continuar a criar você. Mas experimentamos dificuldades para fazer silêncio. Por que? Por causa de nossa educação. Não fomos habituados a valorizar o silêncio. Quando muito, se pedia a nós silêncio, sem percebermos o valor do silêncio para nós. Por isso, muitas vezes ficamos com ódio do silêncio, exigido de fora para dentro, sem explicação. Há pessoas que por medo do silêncio, por ver nele apenas nulidade, ausência de eficiência, têm raiva do silêncio, têm impulso de tagarelice, ausência de conteúdo. E a mente fica entulhada de idéias sem a luz da verdade. No fundo, a pessoa dispensa o silêncio porque tem medo. Medo de ficar a sós consigo. No entanto, esse próprio medo do silêncio, se assumido, passa a ser algo positivo. Tomar consciência deste medo já é uma pequena vitória contra o poder das trevas, já é sinal de que você dá algum valor ao silêncio, significa um pouquinho de abertura à luz. Os preciosos momentos dados à contemplação, subsidiados no correr do dia, apressam a diminuição das forças das trevas do seu ego, favorecendo a consolidação do seu ser. A força das trevas se manifesta na ansiedade pelo reconhecimento dos outros a meu respeito. Aí, direta ou indiretamente, me dedico a mostrar minhas vantagens, preocupado com que os outros se convençam que eu sou bom, sou correto, faço tudo direitinho. Essa gabolice só faz me tornar menos aceito por aqueles que me conhecem. A força das trevas me torna ridículo. Não sou aquilo que eu desejo passar por minhas palavras. Sou o que sou, não o que eu digo que sou. O grande fruto do silêncio é ir atenuando a agitação, a angústia de não ser amado nem aceito como sou. O silêncio vai esvaziando o meu ser em sua forma simples, natural, serena e bonita conforme Deus o inventou. Não conforme os desejos inferiores do meu ego. Vai-se adensando uma nova e estável energia, antes desconhecida. Vamos descobrindo com clareza a verdade. A verdade de nossos preconceitos, de nossas ilusões, de nossos julgamentos sobre os outros. O gosto de estar se explicando aos outros: "eu sou assim porque papai... porque mamãe...", é uma maneira de julgar os outros como responsáveis por você agir desse jeito, é uma maneira de você não se comprometer com você agora. Jogar nos outros a lama do seu insucesso. A facilidade de julgar os outros nos mostra a necessidade do silêncio. Indispensável para a oração contemplativa, o silêncio interior vai com jeito abrindo nossa consciência à largueza do nosso ser. A contemplação vai nos libertando do passado e do futuro e dando relevo ao que vivo agora, ao que se passa agora comigo, privilegiando a atualidade. A mente e o coração abertos ao mundo real, tal qual é experimentado por você. A integração vai então acontecendo não apenas dentro de você, arrumando suas diversas dimensões, mas em torno de você. Vai fazendo bem à sua família, aos filhos (que são as maiores vítimas de nossa desintegração), às crianças de nossas vizinhanças, e mais particularmente aos humildes, aos sem força, aos miúdos. Vamos olhando o mundo com olhos novos, com olhos de criança, como se fosse a primeira vez. Coisas que já vimos tantas vezes começam a ter cintilações novas. Coisas comuns como varrer uma casa, escrever algo, um jeito novo, bem-humorado, gostoso, interessante que você vive na plenitude do seu eu agora. A naturalidade vai tomando o lugar do artificialismo, e vai nos atraindo para tudo que é experiência. A beleza das coisas, dos gestos, do dia-a-dia vão dando novo valor à vida. Mas nada disso se realizará se não houver a suavidade do silêncio. Vamos tomando consciência de que o mais importante não é o que se faz, mas o como se faz. A alma que você coloca em coisinhas como lavar prato. Ouvir uma pessoa, às vezes, pode ser penoso porque nós já sabemos o que ela costuma dizer, mas você para e fica interessado, vai descobrindo coisas que vão fazer bem a você, não tanto o que a pessoa diz, mas o que ela revela em seu rosto. Ouvir uma pessoa, portanto, pode se tornar uma experiência que ilumina, que nos reconduz à plena beleza. Essas ações do eu reforçam o bem da contemplação e vão assegurando, subsidiando o trabalho do Espírito Santo feito na hora do silencioso contemplar. Expondo-se ao silêncio, você acolhe a energia que, por ele, o Espírito Santo lhe dá. É a força contra o poder das trevas, que faltou a Pedro, Judas e aos apóstolos - e que marcou profundamente três mulheres: Maria, Madalena e Maria de Cleofas. Mulheres tão diferentes no passado e tão iguais no presente, porque marcadas pelo silêncio, pela ausência de querer explicar o inexplicável, aceitando o que experimentavam sem explicação. Esta força quer organizar e fazer você crescer, purifica sua casa interior e afasta a sombra do medo e da insegurança; alimenta a coragem, a decisão de viver o momento que passa, seja gratificante ou doloroso, deixando que a luz plena da atenção a tudo que lhe acontece invada o seu íntimo, afugentando o poder das trevas que multiplica seus julgamentos e atitudes condicionados pelo medo, pela insegurança, e transformando-as em ações plenas da sabedoria vinda de dentro do seu ser. Em silêncio recebemos o que vem de graça do céu, em silêncio espalhamos pela terra o bem do Senhor.

FONTE- (1) Ao Encontro de Você - Frei Angelino Caio Feitosa, OFM - Editora Universitária da UFPe, 2001. O autor publicou, ainda, os livros "Chão Necessário" (Meditação Cristã do Rio de Janeiro, 2002) e "Renasça pela Contemplação" (Edições Bagaço, 2006).

Frei Angelino OFM, (Porto da Folha, 09 de janeiro de 1925— Salvador, 05 de abril de 2015) era um eremita e frade franciscano. Foi um dos maiores divulgadores da Meditação Cristã no Brasil e autor de dois livros: "Ao Encontro de Você" e "Chão Necessário". Ele ingressou na Ordem dos Irmãos Menores em 1945 e após a ordenação, passou a organizar retiros espirituais e fazer palestras em várias congregações religiosas e dioceses em Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia. A partir de 1994, os retiros se tornaram específicos de contemplação, incluindo treinamento prático. Frei Angelino é conhecido por ensinar “a oração que liberta a pessoa de si mesma, de todo peso da vida passada e abre para um futuro renovado”. Durante sua vida dedicada à igreja, Frei Angelino passou pelo povoado Areia Branca, em Aracaju; em Maceió; no convento de Olinda (PE) e na cidade de Salvador. Carregava consigo a Alegria, a Simplicidade de criança, o sorriso fácil, a gentileza de todos os escolhidos de Deus!



PE. STEFANO CARTABIA OMI - O FUTURO DO MUNDO? O MOSTEIRO INTERIOR!


                                           

O mundo arde em busca da verdadeira paz e da alegria. Pessoas correndo pelos caminhos da vida, perseguindo sonhos frágeis. Tudo se move e não se sabe por que e onde. Frustração e fadiga nos venceram. Mas há outros sinais reconfortantes. Existem sinais, sinais poderosos, de luz e novidade. Sinais que revelam nossa casa de origem. A Casa do Silêncio e do Amor. A Casa do Ser. Em nosso mundo contraditório e ferido, sinais e desejos estão entrelaçados e acompanhados. Bobagem, desespero, pobreza, violência, egoísmo, consumismo andam de mãos dadas - vivendo juntos (às vezes pacificamente e às vezes em conflito) - com solidariedade, ecologia, defesa dos pobres, progresso de ciência, esperanças e sonhos de um mundo unido e fraterno.

Para onde nosso mundo vai? Que futuro aguarda nossos descendentes?
Podemos contribuir com algo que marca um marco?

Sem dúvida, a humanidade evoluiu. Ela evoluiu em muitos campos - nossa história humana manchada de sangue - está lá, evidenciando-a. Crescemos na compreensão do valor do ser humano e da vida em geral. Crescemos em tolerância e respeito pelos diferentes de qualquer tipo. Os avanços da ciência e da medicina são extraordinários.
Crescemos na consciência de nossas raízes espirituais e divinas. Ainda está faltando, eu sei. Tanto o egoísmo quanto a dor inútil e evitável ainda estão presentes em nosso mundo. Mas o salto da consciência está realmente sempre lá, na ponta dos dedos, porque a consciência não sabe sobre tempo e espaço. Os grandes espíritos sempre souberam: Francisco de Assis tinha visto - 800 anos atrás - que a irmandade define o Universo. Gandhi viu e viveu que a chave para viver juntos era respeito e não-violência. E muitos antes, Buda , Confúcio , Lao Tsé , Jesus , haviam experimentado e compartilhado com seus contemporâneos que a saída do sofrimento e a experiência da realização estavam (e mentem) no amor.

Concordamos com essas descobertas e com os convites desses grandes espíritos. Talvez a maioria da raça humana, com suas diferentes culturas, aprove e compartilhe essa visão. Por que, então, é tão difícil vivê-los, praticá-los, compartilhá-los? O desafio é vislumbrado no mesmo processo evolutivo da humanidade. O amor que nossos pensamentos e sentimentos aprovam e anseiam ainda é vivido como algo exterior. Não percebemos que o amor é, em suma, o que somos. É um problema antropológico / espiritual, um problema de identidade. Perdidos em pensamentos e abalados continuamente por sentimentos e emoções, estamos ansiosos pelo mundo ansiando por migalhas do mesmo Amor que nos define nos sustenta, nos cria, nos alimenta. Nosso mundo precisa de identidade. Ele precisa ser descoberto. A humanidade precisa se descobrir. Mal entramos em uma veia cuja profundidade não conhecemos. Todas as outras "identidades", porque são psicologicamente e socialmente importantes, são secundárias e relativas: homem, mulher, rico, pobre, europeu, americano ou asiático, agricultor ou médico, crente ou ateu, com esse ou aquele sobrenome.

"Identidades" relativas à nossa experiência humana e terrestre, mas "identidades" que serão diluídas para dar espaço à identidade única, única e autêntica: o amor.
O desafio, o único desafio verdadeiramente importante, é o desafio que nos leva a descobrir o amor, os entes queridos e amá-los . Existe um caminho privilegiado. Uma estrada direta. Um caminho que muitas pessoas "realizadas" percorreram e apontaram. É o caminho do silêncio. Por que esse caminho é tão essencial e tão direto?

Na experiência cristã - para citar alguém sem prejudicar os outros que têm tanto a nos ensinar dessa maneira - temos a grande tradição dos mosteiros. Os mosteiros eram e são lugares de identidade. Procurar lugares da nossa verdadeira identidade. Por isso são lugares cercados e encharcados de silêncio. Monges e leigos foram aos grandes mosteiros - cartuchos, beneditinos, carmelitas, cistercienses, para citar alguns - para sentir o eterno. Eles não estavam satisfeitos com o transitório e o temporário. Transitório e passageiro que nos captura e nos distrai de nosso tempo.
Eles buscaram (e buscam) o Ser que não acontece. Eles procuraram (e buscam) o Invisível que se manifestou nas maravilhas visíveis. O Ser eterno que se manifesta no tempo e o Invisível que bate no visível permitem e sustentam a mesma característica: eles se sentem no silêncio.

Por uma razão simples e requintada: pensamentos, sentimentos e emoções são transitórios e temporários. Somente o silêncio é eterno. O silêncio é o espaço onde tudo aparece e toma forma. O pensamento emerge do silêncio e volta para ele. Então os sentimentos. Portanto, colocar-nos à parte do silêncio é escolher a sabedoria. É optar pelo eterno e ser verdadeiramente livre. Apenas o silêncio é o espaço da pura liberdade. Essa liberdade tão aclamada e proclamada em nossas culturas e nas classes políticas, mas não encontrada. Porque é uma pseudo-liberdade, uma liberdade sempre dependente e condicionada pelo pensamento frágil e pelas feridas emocionais.

Somente com o silêncio aprendemos a única liberdade. A partir disso, aprendemos a dirigir e gostamos de pensar e sentir. Em outras palavras da vida. Porque existe uma vida. Vida Silenciosa é o que permite e cria nossa vida terrena, cheia de pensamentos e sentimentos. O que eles podem ser - e são, se você duvida - enormemente bonita e agradável. Como também extremamente dolorosa.

Você tem que voltar aos mosteiros. Com uma mudança a propósito. Uma mudança ditada pela evolução humana. Volte e construa o mosteiro interior. Fazendo do coração humano um mosteiro, um lugar - o lugar - onde o silêncio sussurra e revela quem somos. Os templos externos terminarão ou se tornarão secundários. Descobriremos outro templo, outro imponente mosteiro em nosso coração frágil. Um mosteiro que estava sempre presente na realidade. O professor de Nazaré o vislumbrou quando ele disse:

Mas a hora está chegando e chegou, em que os verdadeiros adoradores eles vão adorar o Pai em espírito e em verdade, porque esses são os adoradores. O que o pai quer. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem fazê-lo em espírito e em verdade ”(Jo 4, 23-24).

Podemos acelerar essa mudança de era. Podemos criar comunidades espirituais - mosteiros sem muros - que vivem do silêncio e do mosteiro interno um do outro. O Mosteiro interno, alguns chamam de "santuário interno", outros "alma", outros "intimidade mais íntima", outros "quarto do rei do castelo interno". Pouco importa o nome. Use o que mais te inspira e gosta, aquele que melhor se adapta à sua história e perfil psicológico. Bonito é a metáfora do "débito". O "Dever" era o lugar mais sagrado do Templo de Jerusalém, onde a Arca da Aliança era mantida e onde o Sumo Sacerdote entrava apenas uma vez por ano. É o Sancta sanctorum (Santo dos Santos). O termo hebraico "Debir " significa "o que está por trás" e, portanto, algo oculto. Também vem da mesma raiz da "palavra" ("dabar"). Debir é então o lugar mais íntimo, onde tudo é silêncio e onde a verdadeira palavra é ouvida. É o nosso lugar mais sagrado, o nosso mosteiro interior.

O futuro da humanidade passa pelo mosteiro interior, passa pela experiência do silêncio. Não tenho dúvida. Porque apenas enraizados no silêncio podemos descobrir e viver do que somos: Amor, porque apenas o silêncio permite e gera vida. Quando nos instalamos no silêncio de nosso mosteiro interior, o amor aparece. Mistério inesgotável que desaparece com a menor tentativa de ser pego e mantido. Extremamente livre, o Mistério nos liberta, com a única condição de não tentar possuí-lo. Não podemos manipular o mistério, como não podemos dizer o silêncio. Nós podemos ser. Ser, a partir do silêncio interior, o amor transforma e transforma a realidade.

Nós podemos fazer algo. Nós devemos: pelo bem do nosso mundo maravilhoso e daqueles que virão. Podemos fazer algo: silenciar nossa casa e anunciar silêncio em todos os lugares.

(a Eclesalia autoriza e recomenda a divulgação de seus artigos, indicando sua origem).




Pe. Stefano Cartabia OMI, é escritor, meditante e sacerdote pela ordem “Oblatos de Maria Imaculada”, também é aluno de Dom Laurence Freeman. Publicou recentemente dois livros: “O segredo:  caminhos da felicidade e da vida”, e “Teologia da Calma”. Apesar de italiano, atualmente mora no Uruguai.  

quarta-feira, 12 de junho de 2019

PETER ILGENFRITZ - APRENDENDO A VELEJAR: MINHA VIDA INTERRELIGIOSA CRISTÃ BUDISTA



Eu estou tomando aulas de velejamento. É a última coisa que pensei que estaria fazendo. Particularmente, nunca gostei de barcos, estar na água, contar com instabilidades. Mas sabe aquele momento em que você ouve algo dizendo em seu coração para você fazer algo? Odeio quando isso acontece. Eu amo a estabilidade e manter as coisas do mesmo jeito.  Mas a meia-idade bateu à porta da minha vida. E estou experimentando uma época de transformação - do homem que eu já fui para um novo homem que estou me tornando. As habilidades que desempenhei usei para me conhecer, e como ser produtivo e proficiente, mas essas não são mais as habilidades de que preciso para seguir em frente. Fui forçado a prestar atenção em algumas outras coisas que não havia feito antes. Eu tive que olhar para dentro, para prestar atenção à minha mudança de uma forma que  eu não havia feito antes. Tive que me mover para o desconhecido, do terror à excitação, para descobrir novamente quem eu era. Ouvi uma batida semelhante na porta do meu coração, cerca de 10 anos atrás, quando eu sabia que precisava morrer para algumas coisas. Eu não tinha ideia do que isso significava ou como fazer, mas quando ouvi a sugestão de que eu poderia participar de um retiro zen de uma semana, sabia que era exatamente o que eu precisava fazer. Eu nunca tinha meditado. Eu particularmente não gosto de ficar em silêncio ou ficar parado. Mas sabia que isso era o que eu precisava para deixar as coisas fluírem. É uma grande coisa inovar. Sinto que estou com seis anos de novo, como no primeiro dia do primeiro ano na escola. Ansioso e animado. Sentindo-me como todos que sabem dos preceitos. Foi assim na aula de vela no mês passado, e naquele primeiro retiro de meditação zen. Quem são essas pessoas, me perguntei, nessas estranhas vestes negras? O que têm nesses cânticos? Que idioma eles estão cantando? Nós realmente temos que comer todas as nossas refeições com pauzinhos? Porque os budistas se curvam a todo momento?  É uma grande coisa fazer algo novo. Porque você não sabe o que pode acontecer em seguida. Nós tivemos condições perfeitas para minha primeira aula de vela, pelo menos para mim. Não havia absolutamente nenhum vento. Nós mal conseguimos sair da doca. Então, me senti tranquilo três dias depois, quando vim para a segunda aula. E novamente, condições perfeitas, outro dia sem vento. Mas quando pegamos o barco no meio do lago Union, um vento forte começou a soprar, inflou as velas, e lançou o nosso barco pro outro lado do lago. Eu me agarrei à borda do barco e alguém gritou: "Está tudo bem? Nós não vamos tombar ?!”, "Não", ouvi o instrutor dizer: "Estamos bem". "Você tem certeza?! Você realmente tem certeza ?!”. E então percebi que a pessoa gritando era eu. "Sim", disse o instrutor, "É por isso que temos uma quilha de 500 libras embaixo de nós." Eu não sabia exatamente o que era uma quilha. Ou para que servia. Eu certamente não a via. Eu me perguntava se poderia quebrar ou cair. O que eu sei é que minha vida dependeu disso. Eu estava apenas a uma hora do primeiro retiro de meditação, quando tive essa sensação. Eu me senti como no veleiro no mês passado  - me levantando acima das águas, oscilando na borda de algo que eu não tinha certeza que iria segurar. Derramei uma lágrima,  de modo que aprendi a andar a semana toda. E entre o terror e as lágrimas, lentamente, fui me purificando e se soltando. Foi há muitos anos, no meu primeiro ano de faculdade, que li “Monoteísmo Radical e Cultura Ocidental”, de H. Richard Niebuhr. Perto do final do livro, ele escreveu algumas frases que eu sublinhei e protagonizei várias vezes ao longo dos anos:

“Há algo na realidade com o qual todos nós devemos contar. Podemos não ser capazes de dar um nome a ela, chamando-o apenas 'vazio', de onde tudo vem e para o qual tudo retorna. Contra isso, não há defesa. Ela permanece quando tudo mais passa. É a fonte de todas as coisas e o fim de tudo. ”(página. 122-123)


Quando jovem, eu não sabia tanto quanto agora sobre o significado dessas palavras. Mas eu sabia o suficiente sobre perder, e a lutar contra o medo de que as palavras de Niebuhr plantassem questões em mim que definiria minha vida. Isto é, o que é a “fé”, ter confiança e confiar neste grande vazio de onde tudo vai e no qual todos retornam. O cristianismo diz sobre a fé vinda através de Jesus Cristo. Cristo, aquele que recebeu a morte e ressuscitou e nasceu para uma nova vida. Da morte, a vida nova veio. No Zen, praticamos a morte e o retorno. Toda expiração é uma morte; cada inspiração, um nascimento. Nos últimos 10 anos desde o primeiro retiro Zen, passei a maior parte das manhãs sentado em minha pequena comunidade zen-budista. Nove anos atrás eu me tornei um membro de ChoBoJi, e fiz votos para me dedicar ao Buda, Dharma e Sangha. Ao longo dos anos, passei por tempos de profundo questionamento, dúvida e luta sobre minhas práticas e identidade de fé dual. Eu me questionei por que eu estava participando de uma prática tão estranha e rigorosa como o Zen, que requer levantar-se muito cedo pela manhã e ficar sentado em posição desconfortável ​​por longos períodos de tempo. É uma prática que eu nunca teria escolhido se dependesse de mim. Eu me perguntava como poderia realmente ser um membro de uma comunidade zen-budista e também pastor cristão. E ao longo dos anos, nas ondas dessas perguntas e dúvidas, veio uma profunda aceitação: não posso imaginar minha vida agora sem a fé discursiva do cristianismo, ou sem o misterioso encontro  no silêncio do Zen. Ambos me alimentam de maneira profunda e importante. Eu vou a ChoBoJi quase todas as manhãs para "sentar, respirar e ouvir", a fim de praticar a presença no pequeno barco rochoso que é a minha própria vida. Eu sento e tudo gira, todas as minhas preocupações, dores, ansiedades e tédios giram. E a maioria das manhãs, nos últimos cinco segundos da sessão, algo acontece. Eu deixo ir. Talvez apenas por um momento, e então eu sou pego. Algo me pega. Parece absurdo colocar palavras nisso. É um sentimento, e mais, um profundo conhecimento de que tudo em mim é capturado por algo muito maior do que eu. Doug está navegando há 40 ou 50 anos. Ele se ofereceu para me levar para velejar na quinta-feira passada. Naquele dia, infelizmente, houve vento. Quando pulei de um lado do barco para o outro, enquanto nos agarrávamos ao vento, Doug ficava perguntando: “Você consegue sentir isso? Você pode sentir isso, Peter? “Sentir o quê, Doug? "Como se estivesse um pouco menos em pânico do que o habitual? perguntou. “Você pode sentir isso?”. “Sim, estou um pouco mais calmo. Sinto-me um pouco melhor do que antes" respondi. Consegui grande consolo de ficar no cais que fiz da minha vida, pensando que a fé e sobre todas as coisas alegres, bem sucedidas e indo muito bem, obrigado. Eu estou consolado de estar bem comigo, no meu pequeno mundo. Mas o chamado da fé é muito mais do que um lugar de segurança. O chamado da fé é arriscar, se aventurar, partir do seu pequeno cais de segurança que você fez da sua vida para o desconhecido. A fé deve ser levada diretamente contra o desconhecido. O que o cristianismo fala em histórias, o Zen me permite pôr em pratica. "Você pode sentir isso?" Doug pergunta. Eu pratico. Na maravilha do barulho, na comunidade cristã, na música e na história de uma fé que fundamentou minha vida. No modo silencioso e contemplativo do Zen. Eu sinto algo profundo e seguro, isso me deixou livre em minha vida para navegar. 


Peter Ilgenfritz é praticante Zen Rinzai, do centro DaiBaiZan ChoBoZenJi  em Seattle. É também pastor da Universidade Congregacional da Igreja de Cristo. Durante a última década, Ilgenfritz navegou por caminhos dessas duas tradições, em um curso único, que ainda está mapeando.


sábado, 8 de junho de 2019

JIM OWENS - BUDISMO NO CINTURÃO DA BÍBLIA

Um cristão evangélico revela como o budismo o ajudou a enfrentar uma crise de consciência e fé.

Eu vivo no centro do cinturão da Bíblia. Quando este artigo for publicado, muitos dos meus familiares e amigos temerão que eu esteja destinado ao inferno. Muitos cristãos, julgam mal o que não entendem. Alguns simplesmente coçam a cabeça quando ouvem falar de um cristão que estuda o budismo,  que medita ou até mesmo que passa por experiências de fé alternativas. Outros cristãos tem dúvidas muito mais resistentes. Eu sei bem, pois houve um tempo em que eu era um desses.

Minha trajetória no budismo se desenvolveu com a prática da meditação, quando um conselheiro matrimonial, cristão, sugeriu que eu lesse os livros de Richard Rohr. Suas obras "Everything Owners" e "Falling Upward" fazem referência ao renomado monge trapista Thomas Merton, cujo envolvimento com o budismo me levou a ler textos de nomes como Thich Nhat Hanh e Dalai Lama. Quanto mais eu lia, mais eu achava que eu tinha pouca compreensão do budismo e de suas muitas escolas. Mas observei  que os ensinamentos das quatro nobres verdades e do caminho óctuplo eram de muitas maneiras - embora nem todas - compatíveis com os ensinamentos de Jesus e a doutrina cristã.

Por exemplo, o ensinamento de Buda sobre a visão correta permite uma compreensão mais profunda da advertência de Jesus de “não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente.” (Romanos 12: 2) e “quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai Filipenses 4:8”. Meus pensamentos se transformaram de tal forma que compreendi as reações negativas de meus colegas como decorrentes de seus próprios apegos e não como esforços determinados a me ferir. Ao conduzir minha mente de maneira hábil, me preparei melhor para evitar erros de julgamento ou me debruçar sobre circunstâncias difíceis que poderiam resultar em sofrimento.

Em minha busca pela atenção plena, encontrei-me dando graças por todas as coisas  num nível muito mais profundo. Tenho gratidão por coisas simples, como por um pedaço de fruta, por caminhar na floresta e suportar as provações da vida. Sim, à medida que me sinto mais atento, sou até grato pelas dificuldades e dores, pois elas me permitem ter maior compaixão por aqueles que passam pelas suas próprias atribulações.

Liberto apegos, enquanto isso, reforço minha convicção de que eu não deveria “guardar para mim tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões invadem e roubam” (Mateus 6:19). A observação bíblica de “não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares (Salmos 46:2). Fui iluminado pelo insight da impermanência, assim como a admoestação para esquecer "quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim ”(Filipenses 3:13). Esforço-me para manter a mente de principiante aberta a fé em Jesus, para além dos preconceitos que tenho desde que a juventude. Finalmente, depois de tantos anos, vejo  o cristianismo genuíno novamente.
Esses ensinamentos percorreram meus pensamentos, durante uma crise familiar e conjugal levou-me a questionar de modo fundamental se minha experiência era, de fato, consistente com o sistema de crenças ao qual aderi por tanto tempo. Ultimamente, o tumulto em minha vida pareceu imune aos meus remédios habituais: a Bíblia, a oração e a comunhão com outros cristãos. Nos meus estudos e meditações, comecei a ver o quanto da minha vida era o resultado de viver de acordo com as expectativas dos outros, o pouco que eu perdoava e quanto, mesmo como cristão, estava propenso a um julgamento ríspido entre eu e os demais, embora não aparente.

Mas, como observei essa tendência em mim, meu questionamento aumentou e inclui não apenas meus hábitos, mas minha fé. Recentemente, confessei a minha esposa e filhos, e me perguntei sobre a existência de Deus. Com certeza, essas preocupações eram, e permanecem desconcertantes para aqueles que me conhecem como ancião na igreja, um professor da escola dominical e um apologista da Bíblia e do cristianismo. Eles estavam e ainda estão consternados. Eu posso ver sua dor, sua preocupação e seu sofrimento, assim como eu me tornei profundamente consciente da minha.

Enquanto escrevo estas palavras, estou sentado no quarto de um apartamento, me separei de minha esposa há oito semanas, fomos casados por 31 anos. Nos círculos cristãos, pelo menos naquele em que tenho amigos e em cuja tradição criei meus filhos, tal decisão é considerada covarde, egoísta e pecaminosa. Eu tenho, em resumo, falhado no que é para muitos o teste decisivo da masculinidade cristã.

Mas, em meio a esse caos, retornei à minha fé, embora diferente como era. Ainda que o budismo não reconheça um Deus criador, sou consolado pelas palavras de encorajamento do Dalai Lama aos cristãos, que permite que o budismo os torne melhores praticantes na sua fé. Para muitos cristãos, esse chamado significaria voltar para minha esposa. Mas, na sabedoria reflexiva do budismo, tenho visto mais claramente a mensagem do perdão de Cristo.

Embora a minha luta com o divórcio não tenha finalizado, vejo claramente a dor e o sofrimento dos outros quando eles reagem a mim com raiva, embora reconheçam que não sou obrigado a julgá-los assim como me julgam. Lembro-me das palavras do apóstolo Paulo: “nem eu mesmo me julgo”. Estas são palavras curativas de um homem que se considerou “o principal entre os pecadores” e que, de acordo com a Bíblia, presidia o apedrejamento de Estêvão, discípulo de Cristo, antes da conversão de Paulo de sua fé judaica.

Fique tranqüilo, minhas palavras não são uma tentativa de reconciliar o budismo com o cristianismo. De própria experiência, acho difícil conciliar algumas das minhas escolhas  com algumas convicções sobre o caminho. Eu sou imperfeito. No entanto, no silêncio da meditação, encontro o que os budistas chamam de compaixão de Avalokiteshvara e os cristãos de “a paz de Cristo”. Vejo a luta sob uma nova luz quando percebo em minha própria vocação religiosa  e no meu casamento o apego à permanência , o quanto  causou dor a mim e aos outros. Da mesma forma, vejo como minha falta de compaixão me colocou num trono de julgamento. Ao buscar a graça da família e dos amigos, anseio por conceder-lhes reciprocamente graça em suas dores, falhas e medo.

Eu não acho mais necessário acreditar que a Bíblia é literalmente verdadeira. Sua verdade é suficiente, embora eu muitas vezes lute para entender isso. Eu me atento a mensagem de Jesus - amar meu próximo como a mim mesmo - com mais clareza, e oro para que eu me torne mais parecido com ele todos os dias. Mas vejo as contradições do meu comportamento e de minhas crenças, assim como Paulo escreveu em Romanos 7:15 quando admitiu: “o que estou fazendo não entendo; pois não estou praticando o que gostaria de fazer. E enquanto me sento em meditação, para acalmar as tempestades da minha mente, aguento duro e encontro sua presença ali para me consolar enquanto recebo amor de alguns amigos cristãos.

Ao ler isto, muitos cristãos sugeriram que eu tirei as palavras da Bíblia de contexto, que distorci as palavras de Jesus, Paulo e outros evangelistas. Talvez eles estejam corretos.  No entanto, me lembro das palavras do discípulo Pedro, um dos círculos mais íntimos de Jesus, a pedra angular da igreja de Jesus, em sua apresentação de Cristo: ”Quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça.(1 Pedro 2:23). Eu rezo para que tenha a resposta igual para aqueles que me insultam.

Embora eu ainda tenha que reconciliar inteiramente minha fé com minha nova perspectiva budista e a prática de meditação, desejo viver como Jesus o fez em compreensão e compaixão, consolando aqueles que sofrem. Eu farei isto em oração, estudando e me sentando.

Por Jim Owens DEZEMRO 04, 2017

quinta-feira, 16 de maio de 2019

MAURA SHOSHIN O´HALLORAN - A MONJA CRISTÃ ZEN

Ícone de Maura Shoshin

A MONJA ZEN CRISTà

"De repente eu entendi que devemos cuidar das coisas só porque elas existem."

Em um mosteiro budista no norte do Japão, há uma estátua de uma jovem irlandesa-americana cuja memória é reverenciada por muitos peregrinos. Como uma mulher católica veio a ser honrada como um santa budista é uma história interessante de "diálogo inter-religioso". Mas também diz algo sobre os caminhos convergentes da santidade e sua capacidade de se encontrar em um espírito de consciência compassiva. Maura O'Halloran nasceu em Boston, filha de pai irlandês e mãe americana. Quando ela tinha quatro anos, a família se mudou para a Irlanda, onde foi educada em escolas de freira e depois se formou no Trinity College, em Dublin. Seu pai morreu quando ela tinha quatorze anos, e ela desempenhou um grande papel na educação de seus quatro irmãos mais novos. Desde tenra idade, Maura demonstrou uma profunda consciência do sofrimento humano. Depois da faculdade, ela passou um tempo trabalhando em restaurantes e viajou muito pela América Latina. Sua preocupação com a justiça social foi acompanhada por uma séria atração pela vida espiritual. Depois de experimentar por alguns anos vários métodos de oração e meditação, ela decidiu explorar a sabedoria do Oriente. Em 1979, ela voou para o Japão e solicitou a admissão em um tradicional mosteiro budista em Tóquio. Muitos católicos, e até padres jesuítas, passaram por treinamento em meditação Zen no Japão, não encontrando nenhum conflito inerente entre sua fé cristã e os princípios do Zen. Mas, na época da chegada de Maura, havia poucas mulheres ocidentais que haviam sido aceitas no mundo muito masculino de um monastério Zen. Maura foi admitida e, assim, embarcou no rigoroso treinamento monástico. Seus diários oferecem um registro incomum de sua experiência, que incluiu períodos sustentados de meditação, trabalho manual árduo e uma disciplina ascética. Sob a orientação de seu Roshi (mestre), ela lutou para resolver seus koans designados, os famosos enigmas zens projetados para libertar a mente das ilusões dualistas e levar o novato ao caminho da iluminação. No frio do inverno, ela se juntou aos outros monges em uma expedição anual para mendigar mais ao norte. Com a cabeça raspada e o manto monástico, usando apenas sandálias de palha na neve no granizo, ela se juntava aos outros monges enquanto passavam pelas ruas, tocando um sino e estendendo as tigelas para esmolar e doações de comida.
Após seis meses de treinamento intensivo, Maura experimentou um avanço no sentar. Enquanto estava sendo interrogada por seu Roshi, ela foi subitamente dominada por lágrimas e risos. "É iluminação!" e o Roshi chorou. Depois, quando ela saiu, ela foi tomada por um sentimento de compaixão por tudo que existia.




Este não foi o fim de seu treinamento. Nos meses que se seguiram, ela concentrou mais energia do que nunca em sua meditação e autodisciplina. No ano seguinte, seu Roshi fez uma oferta extraordinária. Se ela concordasse em se casar com um monge, ele confiaria seu templo a ela. Dividida entre o desejo de obedecer ao seu Roshi e a convicção de que não se tratava de onde ela deveria permanecer, ela experimentou um estranho colapso físico. Seu Roshi aceitou seu plano de deixar o mosteiro no final de seu treinamento. Alguns meses depois, Maura refletiu sobre sua vocação:

"Tenho vinte e seis anos e me sinto como se tivesse vivido minha vida. Sensação estranha, quase como se estivesse perto da morte. Quaisquer desejos, ambições, esperanças que eu tenha tido ou se cumpriram ou se dissiparam espontaneamente. Estou totalmente contente, claro que quero ir mais fundo, ver mais claro, mas mesmo que pudesse ter apenas esse despertar superficial e insignificante, ficaria bastante satisfeita... Então, em certo sentido, sinto que estou morta. Para mim não há mais nada em que se esforçar, nada mais para fazer, a minha vida valer a pena ou para justificá-la. Aos vinte e seis anos, um cadáver vivo, tal a vida! ... Se eu tiver outros cinquenta ou sessenta anos (quem sabe do tempo, eu quero vivê-lo para as outras pessoas. O que mais tem pra fazer? ... Então eu devo ir mais fundo e mais profundo e trabalhar duro, não mais para mim, mas para que eu possa ajudar a todos".

Com essa reflexão ela deixa claro, não considerou a iluminação algo a ser vivido sozinha. Em vez disso, ela queria se esvaziar para servir aos outros no caminho da compaixão. Este era o desejo de Maura. Mas não foi o seu carma. Em vez disso, depois de deixar o mosteiro em seu caminho de volta para a Irlanda, morreu em um acidente de ônibus na Tailândia em 22 de outubro de 1982. Ela tinha vinte e sete anos.

Em uma carta de condolências a sua mãe, Roshi escreveu:

"Ela alcançou o que levou o Shakuson (Buda Shakyamuni]) oitenta anos em vinte e sete anos. Ela foi capaz de fazer o treinamento de mil dias de Dogen. Então, ela deixou esta vida imediatamente para começar a salvação das massas na próxima vida! Alguém já conheceu uma Buda tão corajosamente trabalhadora como Maura? Não posso expressar minha surpresa."

Por meio de um livro de memórias publicado por sua mãe em um periódico católico, e da publicação posterior de seus diários, a história de Maura conquistou seguidores dedicados entre cristãos e budistas. Seu curto caminho para a santidade em um monastério Zen tem sido comparado à carreira comprimida de Teresa de Lisieux, a freira francesa que partiu como uma criança para se tornar uma santa. As duas jovens, tendo realizado sua espiritualidade neste mundo, prontamente partiram. É certo que Maura teria se identificado com as palavras de Teresa, que disse que “esperava passar seu paraíso fazendo o bem na terra”.


artigo de Robert Ellsberg: IN: Todos os Santos: Reflexões Diárias sobre os Santos, os Profetas e as Testemunhas do Nosso Tempo.

fonte: https://terebess.hu/zen/mesterek/MauraOHalloran.html

segunda-feira, 29 de abril de 2019

RETIRO WCCM COM DOM LAURENCE FREEMAN - APARECIDA - SP





Missa presidida por Dom Laurence Freeman - capela St. Afonso Ligório, Aparecida do Norte

                         

                                  foto de despedida, enviada por Roldano Giuntolli