
"Maria conservava no coração
todas essas coisas. E Jesus crescia e ficava mais forte, cheio de graça e de
sabedoria" (Lc 2, 51-52) O poder das trevas é a força do não iluminado, do
obscuro, do medo. É tudo aquilo que se opõe à ação do Espírito Santo, que retarda
essa ação, que dificulta essa ação. Quando reprimimos emoções, sentimentos,
pensamentos ou qualquer coisa de nossa consciência, abrimos espaço para o poder
das trevas.Tudo que sofremos com medo, dá força ao poder das trevas dentro e em
torno de nós. Esse poder das trevas aparece na Bíblia algumas vezes. Ele é
muito forte na paixão de Jesus. Quando Judas, Pedro e os apóstolos caem nesse
poder do medo, deixam de viver a beleza e a verdade do momento. "Se a luz
que existe em você se torna escuridão"... (Mt 6,23; Lc 11,34). Eu diria
que aí há um pecado contra o Espírito Santo, porque impede a luz do Espírito
Santo de introduzir-se em sua verdade. Esta é a razão de tanta gente não
realizada. Qual é a força, a arma eficiente para enfrentar este poder destruidor?
A arma eficiente se chama silêncio. O silêncio é o valor insubstituível. É a
matéria-prima com que o Espírito Santo quer continuar a criar você. Mas
experimentamos dificuldades para fazer silêncio. Por que? Por causa de nossa
educação. Não fomos habituados a valorizar o silêncio. Quando muito, se pedia a
nós silêncio, sem percebermos o valor do silêncio para nós. Por isso, muitas
vezes ficamos com ódio do silêncio, exigido de fora para dentro, sem
explicação. Há pessoas que por medo do silêncio, por ver nele apenas nulidade,
ausência de eficiência, têm raiva do silêncio, têm impulso de tagarelice,
ausência de conteúdo. E a mente fica entulhada de idéias sem a luz da verdade.
No fundo, a pessoa dispensa o silêncio porque tem medo. Medo de ficar a sós consigo.
No entanto, esse próprio medo do silêncio, se assumido, passa a ser algo
positivo. Tomar consciência deste medo já é uma pequena vitória contra o poder
das trevas, já é sinal de que você dá algum valor ao silêncio, significa um
pouquinho de abertura à luz. Os preciosos momentos dados à contemplação,
subsidiados no correr do dia, apressam a diminuição das forças das trevas do
seu ego, favorecendo a consolidação do seu ser. A força das trevas se manifesta
na ansiedade pelo reconhecimento dos outros a meu respeito. Aí, direta ou
indiretamente, me dedico a mostrar minhas vantagens, preocupado com que os
outros se convençam que eu sou bom, sou correto, faço tudo direitinho. Essa
gabolice só faz me tornar menos aceito por aqueles que me conhecem. A força das
trevas me torna ridículo. Não sou aquilo que eu desejo passar por minhas
palavras. Sou o que sou, não o que eu digo que sou. O grande fruto do silêncio
é ir atenuando a agitação, a angústia de não ser amado nem aceito como sou. O
silêncio vai esvaziando o meu ser em sua forma simples, natural, serena e
bonita conforme Deus o inventou. Não conforme os desejos inferiores do meu ego.
Vai-se adensando uma nova e estável energia, antes desconhecida. Vamos
descobrindo com clareza a verdade. A verdade de nossos preconceitos, de nossas
ilusões, de nossos julgamentos sobre os outros. O gosto de estar se explicando
aos outros: "eu sou assim porque papai... porque mamãe...", é uma
maneira de julgar os outros como responsáveis por você agir desse jeito, é uma
maneira de você não se comprometer com você agora. Jogar nos outros a lama do
seu insucesso. A facilidade de julgar os outros nos mostra a necessidade do
silêncio. Indispensável para a oração contemplativa, o silêncio interior vai
com jeito abrindo nossa consciência à largueza do nosso ser. A contemplação vai
nos libertando do passado e do futuro e dando relevo ao que vivo agora, ao que
se passa agora comigo, privilegiando a atualidade. A mente e o coração abertos
ao mundo real, tal qual é experimentado por você. A integração vai então
acontecendo não apenas dentro de você, arrumando suas diversas dimensões, mas
em torno de você. Vai fazendo bem à sua família, aos filhos (que são as maiores
vítimas de nossa desintegração), às crianças de nossas vizinhanças, e mais particularmente
aos humildes, aos sem força, aos miúdos. Vamos olhando o mundo com olhos novos,
com olhos de criança, como se fosse a primeira vez. Coisas que já vimos tantas
vezes começam a ter cintilações novas. Coisas comuns como varrer uma casa, escrever
algo, um jeito novo, bem-humorado, gostoso, interessante que você vive na
plenitude do seu eu agora. A naturalidade vai tomando o lugar do
artificialismo, e vai nos atraindo para tudo que é experiência. A beleza das
coisas, dos gestos, do dia-a-dia vão dando novo valor à vida. Mas nada disso se
realizará se não houver a suavidade do silêncio. Vamos tomando consciência de
que o mais importante não é o que se faz, mas o como se faz. A alma que você
coloca em coisinhas como lavar prato. Ouvir uma pessoa, às vezes, pode ser
penoso porque nós já sabemos o que ela costuma dizer, mas você para e fica
interessado, vai descobrindo coisas que vão fazer bem a você, não tanto o que a
pessoa diz, mas o que ela revela em seu rosto. Ouvir uma pessoa, portanto, pode
se tornar uma experiência que ilumina, que nos reconduz à plena beleza. Essas
ações do eu reforçam o bem da contemplação e vão assegurando, subsidiando o
trabalho do Espírito Santo feito na hora do silencioso contemplar. Expondo-se
ao silêncio, você acolhe a energia que, por ele, o Espírito Santo lhe dá. É a
força contra o poder das trevas, que faltou a Pedro, Judas e aos apóstolos - e
que marcou profundamente três mulheres: Maria, Madalena e Maria de Cleofas.
Mulheres tão diferentes no passado e tão iguais no presente, porque marcadas
pelo silêncio, pela ausência de querer explicar o inexplicável, aceitando o que
experimentavam sem explicação. Esta força quer organizar e fazer você crescer,
purifica sua casa interior e afasta a sombra do medo e da insegurança; alimenta
a coragem, a decisão de viver o momento que passa, seja gratificante ou
doloroso, deixando que a luz plena da atenção a tudo que lhe acontece invada o
seu íntimo, afugentando o poder das trevas que multiplica seus julgamentos e
atitudes condicionados pelo medo, pela insegurança, e transformando-as em ações
plenas da sabedoria vinda de dentro do seu ser. Em silêncio recebemos o que vem
de graça do céu, em silêncio espalhamos pela terra o bem do Senhor.
FONTE- (1) Ao Encontro de Você -
Frei Angelino Caio Feitosa, OFM - Editora Universitária da UFPe, 2001. O autor
publicou, ainda, os livros "Chão Necessário" (Meditação Cristã do Rio
de Janeiro, 2002) e "Renasça pela Contemplação" (Edições Bagaço,
2006).
Frei Angelino OFM, (Porto da Folha, 09 de janeiro de 1925— Salvador, 05 de abril de 2015) era um eremita e frade franciscano. Foi um dos maiores divulgadores da Meditação Cristã no Brasil e autor de dois livros: "Ao Encontro de Você" e "Chão Necessário". Ele ingressou na Ordem dos Irmãos Menores em 1945 e após a ordenação, passou a organizar retiros espirituais e fazer palestras em várias congregações religiosas e dioceses em Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia. A partir de 1994, os retiros se tornaram específicos de contemplação, incluindo treinamento prático. Frei Angelino é conhecido por ensinar “a oração que liberta a pessoa de si mesma, de todo peso da vida passada e abre para um futuro renovado”. Durante sua vida dedicada à igreja, Frei Angelino passou pelo povoado Areia Branca, em Aracaju; em Maceió; no convento de Olinda (PE) e na cidade de Salvador. Carregava consigo a Alegria, a Simplicidade de criança, o sorriso fácil, a gentileza de todos os escolhidos de Deus!
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