segunda-feira, 18 de novembro de 2019

PE. MARCO ANTONIO ESPARZA MG - BENEFÍCIOS DO ZEN PARA O OCIDENTAL



A atitude em relação ao corpo humano no leste da Ásia é grandemente influenciada pela medicina chinesa, que fala de meridianos ou canais através dos quais a energia flui e dá vitalidade a todos. Essa energia é chamada chi em chinês e ki em japonês. A origem dessa energia é encontrada no abdômen (no hara japonês), chamado kikai (em japonês) ou "mar de energia". De particular importância é o tanden, um ponto localizado alguns centímetros abaixo do umbigo e que é a fonte da criatividade e o principal local da experiência religiosa. A pessoa é incentivada a estar ciente de sua existência, não apenas ao meditar, mas em todas as circunstâncias da vida. Nas artes marciais, a consciência do tanden é vital.

Um conhecido professor zen, o professor Okada Torajiro, escreve com grande vigor que o tanden é o santuário do divino: é aqui que reside a energia sagrada. Okada divide as pessoas em três classes. O primeiro tipo valoriza a cabeça: acumula grandes quantidades de conhecimento, desenvolve grande parte do cérebro e acaba perdendo o equilíbrio e permanecendo como uma pirâmide invertida. A segunda classe é composta por pessoas que amamentam; essas pessoas parecem fortes e cheias de coragem, mas por dentro são fracas. E ele diz: Mas as pessoas do mais alto escalão são aquelas que consideram o abdômen a parte mais importante, e assim construíram o bastião onde o divino pode prosperar. Eles desenvolvem suas mentes e corpos corretamente. A força flui através deles e produz uma condição espiritual de tranquilidade e equanimidade. Eles fazem o que acham certo sem infringir nenhuma lei.

O professor continua dizendo que as tristezas da humanidade são causadas por uma perda de equilíbrio, e o caminho para o equilíbrio - para um corpo saudável e um coração reto - é sentar-se adequadamente. A posição correta, na qual estamos cientes do tanden e na qual permanecemos focados no tanden, é, portanto, de importância capital. Pode ser a posição do lótus ou o seiza japonês (de origem confucionista) em que sentamos nos calcanhares ou em uma cadeira com as costas retas e os olhos ligeiramente abertos. E então, se a pessoa está de pé, sentada, andando ou dormindo, permanece focada no hara e, portanto, tem maior estabilidade e força interior.

A mudança importante ocorre dentro de nós, como o Mestre Okada diz quando explica: "Mesmo que o corpo sofra uma mudança com o seiza, o estado interior mais profundo não muda tão facilmente".

É interessante lembrar que o mestre zen Dogen, fundador ordem japonesa Soto, acreditava que sentar corretamente ou em zazen já era uma forma de iluminação.

- Treinamento respiratório.

Nesse ponto, a chave é a respiração abdominal novamente. A pessoa respira do tanden, lenta e ritmicamente. E assim como a maneira de sentar já é uma experiência religiosa, a energia flui através dela por todo o corpo. Devemos observar que aqui não estamos falando apenas da respiração e energia de nossos corpos insignificantes, mas também da respiração e energia do cosmos. Os mestres zen, com sua abrupta característica, dizem que a energia deve fluir pelo ânus até o centro da terra e depois subir novamente pela cabeça até as regiões mais distantes do universo.

A respiração pelo tanden, portanto, equilibra a pessoa e a torna uma com a harmonia de todo o universo. O mestre Okada nos dá conselhos práticos e simples novamente: "Sente-se quieto e silenciosamente, respire suavemente exalando longas expirações do ar, com a força na parte inferior do abdômen". Quando a respiração pelo tanden se torna comum, a pessoa obtém uma maravilhosa estabilidade física e espiritual.

A respiração em Zazen protege o corpo e a consciência. Trata-se de se concentrar em uma expiração profunda, doce e silenciosa; A inspiração acontece naturalmente, rápida e energizante. É difícil focar tanto na expiração quanto na inspiração, por isso focamos nossa atenção na respiração que escapa, na expiração.

Quando uma pessoa se fixa a uma emoção, o difragma é bloqueado, a respiração se encurta, e sua energia é concentrada na parte superior do tronco. Quando somos dominados pela raiva, ofegamos, ficamos vermelhos por causa da falta de ar. Qualquer pessoa é capaz de observar esses estados em sua vida cotidiana e sofrerá por não poder dominá-los. Livrar-se do sofrimento do espírito é o problema de todos os seres humanos.

A expiração profunda atua como um purificador, um limpador de consciência. Durante a inspiração, há absorção de oxigênio, que é transmitida ao sangue e distribuída pelas artérias; Durante a expiração, há expulsão de gás carbônico dos pulmões. Dessa maneira, a expiração profunda permite que o sangue seja limpo, se torne puro e, com isso, aumente seu equilíbrio, e a pureza instala-se em nosso corpo e em nosso espírito. O espírito segue a ação correta do corpo, uma influência invisível toma seu lugar e automaticamente o espírito é simplificado.

Enquanto praticamos o zazen, a expiração é o elo natural entre corpo e o espírito, é um dos suportes da concentração. Essa respiração pode ser mantida em nossa vida diária, mas não necessariamente de forma voluntária. Influencia automaticamente nosso espírito cotidiano: temos menos tensões, menos apegos, mais distância com os pensamentos que nos atormentam, enfim, obtemos mais liberdade.

Sempre focando na expiração, pouco a pouco a área debaixo do umbigo se expande, é a região de Kikai Tanden - o oceano de energia - para os japoneses e para nós, ocidentais, a barriga, algo um pouco escuro, oculto e isso pode ser a causa de inúmeras disfunções essa região ganhará vitalidade, assim como a região lombar; respiraremos com a barriga, e a barriga se tornará o novo centro de gravidade durante o zazen e ao longo de nossas vidas diárias, seja em pé, sentado ou deitado.

Enquanto respiramos pelo diafragma, os órgãos caem e uma expansão é criada sob o umbigo; quando inspiramos, os órgãos sobem e o ar enche os pulmões. Sem esforço, uma expiração profunda nos dá calma e espalha sua influência pelo meio ambiente.

- O treinamento da mente

A mente humana é selvagem e inquieta e vagueia daqui para lá, vislumbrando o futuro cheio de ansiedade ou olhando nostalgicamente para o passado. A maior conquista é fazer com que a mente descanse em um único ponto, o que em japonês é chamado seishin toitsu, e esse é um estado que é alcançado através da respiração. Embora a mente esteja agora no momento presente, ela não repousa sobre uma parte do corpo, mas flui através dela em um estado conhecido como não-mente (no japonês mushin) ou não-eu (no japonês muga).

As distrações se sucedem, mas a pessoa não luta contra elas, mas deixa que elas venham e depois as deixa ir. "Deixar ir; deixe fluir ”é o que sempre nos diz. Mestre Okada nos dá conselhos simples e claros: “Não tente se libertar de todos os pensamentos. Apenas esteja ciente e mantenha a força na barriga". Dessa maneira, os pensamentos fluem para fora e para dentro, enquanto a pessoa permanece focada em um nível mais profundo.



Marco Antonio de Rosa Ruiz Esparza MG, (Missionário de Guadalupe). Nascido em Aguascalientes, México, estudou filosofia na Universidade Ibero-Americana e teologia na Universidade Intercontinental, foi ordenado sacerdote em 1983, e vive no Japão desde 1986. É representante dos Missionários de Guadalupe perante o Conselho Pastoral Diocesano de Sendai, noroeste do Japão (1993-97). Criou pastorais na região de Aizu, província de Fukushima (1996-2004), onde foi diretor de dois grupos de contemplação de Sadhana em (2002-2004). É praticante de zazen e aluno dos mestres Sato Kenko e Klaus Riesenhuber, S.J., e continua sob a orientação deste último. Atualmente reside na Catedral de Sendai.


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