(Natal 1996)
No mês de novembro participei do
encontro anual de mestres Zen da nossa escola (Sanbo Zen) no Japão. Numa
exposição me deparei com uma joia de arte budista. Representava o nascimento de Shakyamuni Buda. Sua mãe Mayadevi descansava graciosamente num sândalo ornado com diamantes. Shakyamuni
caminhava com as mãos unidas e uma coroa na cabeça. Embora a história da vida
de Shakyamuni seja bem conhecida em seus detalhes históricos, se desenvolveu em
um dado momento, o mito do nascimento de uma virgem. Do mesmo modo o Atharva Veda
relata outro nascimento imaculado. O mito que fala do nascimento de Krishna,
lembra muito o de Jesus: ”O líder dos ascetas mandou levar Devaki (a virgem) e disse a ela: “O desejo dos
devas se cumpriu, você conceberá o amor divino na pureza de seu coração. Virgem
Mãe, nós te veneramos. Uma criança vai nascer e será o salvador do mundo. Mas
teu irmão Kansa te procura e quer matar a você e o fruto perfeito que carregas
no ventre. Tem de se proteger dele. Os monges e os pastores que vivem no pé do
Monte Meru te levará até o ar puro dos Himalaias, debaixo dos cedros perfumados. Lá
você dará a luz ao seu divino filho, e dará o nome de Krishna o "bem aventurado”. Por que não se fala de
tais mitos? Os mitos falam de nós mesmos. Devemos reconhecê-los e reconhecer neles o
sentido da nossa vida. O Natal não se trata de provar historicamente o
nascimento de Jesus e o milagre do nascimento biológico. A mensagem religiosa
não se refere a fatos históricos. Proclama a verdade que há por trás deles, e
se serve de imagens míticas e símbolos que se expressam melhor do que palavras
inefáveis. Este é o nascimento do nosso Deus nos mitos mencionados. Todos nós
fomos concebidos e nascidos da pureza. Portanto Mestre Eckhart nos diz:
"Meu pai carnal não é o meu próprio pai, sou uma partícula da sua natureza
mas sou diferente dele, ele morreu e eu estou vivo. Logo o Pai celestial é o
meu verdadeiro pai, e tenho dele tudo que possuo, não sou outro mas o mesmo
filho. Assim como o Pai não faz apenas uma única obra, por isso me fez como seu amado
filho, sem diferenciações". (Edhasa Sermão IV)
Partida para um novo país
(experiências de uma vida espiritual) pág. 61-62.
Willigis Jager Koun-ken, nasceu na Alemanha, é monge
beneditino ex-clausurado e mestre Zen Budista ordenado por Harada Daiun Sogaku mestre da
tradição Sanbô Zen.

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