Durante os últimos quarenta anos da sua vida, o P.e Shigeto Oshida viveu num eremitério, procurando o rosto de Cristo através do caminho Zen japonês que ele tinha praticado na juventude. Nele, a sabedoria da Ásia tornou-se patrimônio da Igreja.
A Segunda Guerra Mundial grassava no Extremo Oriente. O Exército japonês tinha invadido os países em seu redor: Singapura, Sul da China, Tailândia, Filipinas... Por todo o lado, a crueldade e o fanatismo dos soldados japoneses espalharam terror e o sinistro destino das pessoas nos seus campos de prisioneiros iria permanecer no imaginário coletivo e ser objeto de filmes famosos como A Ponte do Rio Kwai, de David Lean, ou romances como King Rat, de James Clavel.
Foi neste cenário sombrio que Deus realizou um milagre pessoal que transformou a vida de um jovem japonês de 20 anos, simples, humilde seguidor da tradição do Budismo Zen: Shigeto Oshida. Anos mais tarde, o P.e Oshida costumava mencionar muitas vezes as circunstâncias do seu encontro com um jovem católico alemão, que foi fundamental para ele encontrar Cristo: «Assim que vi aquele homem cristão, acreditei logo. Não conhecia ainda os dogmas, mas já acreditava. Não tinha qualquer problema em aceitar os dogmas, porque eu acreditava no testemunho de um verdadeiro cristão.»
Quão transparente deve ter sido a bondade de Cristo no rosto daquele jovem! O P.e Oshida costumava falar da duração da sua viagem quando jovem no Zen e como, passando pelo digno silêncio do Zen, ele imediatamente acreditou no Homem que morreu na cruz implorando o perdão universal: «O perdão é o silêncio no silêncio. Cristo é o coração do Zen.»
Por favor, fá-lo à vontade
O P.e Vicent Shigeto Oshida, OP, nasceu no Japão em 1922. Depois de se tornar cristão, o jovem Oshida sentiu o desejo de dedicar a vida a Cristo como religioso e foi atraído pela Ordem Dominicana. Mas adoeceu com tuberculose e foi confinado num sanatório. É aí que nasce uma pequena comunidade em torno dele constituída pelos seus colegas doentes que gostavam de rezar com ele e de se sentarem com ele em meditação Zen.
Shigeto Oshida, que se descrevia a si próprio como «o budista que conheceu Cristo», tornou-se dominicano em 1951. Após a ordenação sacerdotal, foi enviado ao Canadá para estudar Teologia. De regresso ao Japão, foi internado mais uma vez por causa da tuberculose e uma operação retirou-lhe metade do pulmão direito. Shigeto Oshida foi então transferido para um sanatório, localizado no bairro onde mais tarde se estabeleceria, para convalescer. Aqui, no sanatório, à sua volta, nasceu novamente uma pequena comunidade de silêncio e de oração.
Depois de aproximadamente treze anos de relativo silêncio, exceto para conversas com o seu provincial dominicano, decidiu falar com o seu superior local. Falou sobre como estava dilacerado pelo desejo de desistir da vida ocidental do convento dominicano e aderir à simplicidade do Zen em que se criara. O superior disse-lhe: «Não percebo muito bem o que estás a fazer. Estás sentado na posição Zen na nossa pequena capela. Tenho de ser honesto. Eu não gosto do que estás a fazer. Vemos muitos jovens a seguir-te agora...» Depois, seguiu-se um momento de silêncio, após o qual o superior lhe disse claramente: «Mas, meu filho, mesmo que eu não entenda e não goste, não tenho o direito de impedir-te de fazê-lo.» A voz do superior amaciou-se: «Por favor, fá-lo à vontade.» Foi assim que, finalmente, o P.e Oshida deixou o convento e fundou um pequeno eremitério, onde ele e os que se lhe juntaram viviam em solidariedade com os seus vizinhos e praticavam uma forma de vida feita de trabalho manual, prolongada meditação Zen e uma liturgia cristã de luminosa simplicidade.
A Segunda Guerra Mundial grassava no Extremo Oriente. O Exército japonês tinha invadido os países em seu redor: Singapura, Sul da China, Tailândia, Filipinas... Por todo o lado, a crueldade e o fanatismo dos soldados japoneses espalharam terror e o sinistro destino das pessoas nos seus campos de prisioneiros iria permanecer no imaginário coletivo e ser objeto de filmes famosos como A Ponte do Rio Kwai, de David Lean, ou romances como King Rat, de James Clavel.
Foi neste cenário sombrio que Deus realizou um milagre pessoal que transformou a vida de um jovem japonês de 20 anos, simples, humilde seguidor da tradição do Budismo Zen: Shigeto Oshida. Anos mais tarde, o P.e Oshida costumava mencionar muitas vezes as circunstâncias do seu encontro com um jovem católico alemão, que foi fundamental para ele encontrar Cristo: «Assim que vi aquele homem cristão, acreditei logo. Não conhecia ainda os dogmas, mas já acreditava. Não tinha qualquer problema em aceitar os dogmas, porque eu acreditava no testemunho de um verdadeiro cristão.»
Quão transparente deve ter sido a bondade de Cristo no rosto daquele jovem! O P.e Oshida costumava falar da duração da sua viagem quando jovem no Zen e como, passando pelo digno silêncio do Zen, ele imediatamente acreditou no Homem que morreu na cruz implorando o perdão universal: «O perdão é o silêncio no silêncio. Cristo é o coração do Zen.»
Por favor, fá-lo à vontade
O P.e Vicent Shigeto Oshida, OP, nasceu no Japão em 1922. Depois de se tornar cristão, o jovem Oshida sentiu o desejo de dedicar a vida a Cristo como religioso e foi atraído pela Ordem Dominicana. Mas adoeceu com tuberculose e foi confinado num sanatório. É aí que nasce uma pequena comunidade em torno dele constituída pelos seus colegas doentes que gostavam de rezar com ele e de se sentarem com ele em meditação Zen.
Shigeto Oshida, que se descrevia a si próprio como «o budista que conheceu Cristo», tornou-se dominicano em 1951. Após a ordenação sacerdotal, foi enviado ao Canadá para estudar Teologia. De regresso ao Japão, foi internado mais uma vez por causa da tuberculose e uma operação retirou-lhe metade do pulmão direito. Shigeto Oshida foi então transferido para um sanatório, localizado no bairro onde mais tarde se estabeleceria, para convalescer. Aqui, no sanatório, à sua volta, nasceu novamente uma pequena comunidade de silêncio e de oração.
Depois de aproximadamente treze anos de relativo silêncio, exceto para conversas com o seu provincial dominicano, decidiu falar com o seu superior local. Falou sobre como estava dilacerado pelo desejo de desistir da vida ocidental do convento dominicano e aderir à simplicidade do Zen em que se criara. O superior disse-lhe: «Não percebo muito bem o que estás a fazer. Estás sentado na posição Zen na nossa pequena capela. Tenho de ser honesto. Eu não gosto do que estás a fazer. Vemos muitos jovens a seguir-te agora...» Depois, seguiu-se um momento de silêncio, após o qual o superior lhe disse claramente: «Mas, meu filho, mesmo que eu não entenda e não goste, não tenho o direito de impedir-te de fazê-lo.» A voz do superior amaciou-se: «Por favor, fá-lo à vontade.» Foi assim que, finalmente, o P.e Oshida deixou o convento e fundou um pequeno eremitério, onde ele e os que se lhe juntaram viviam em solidariedade com os seus vizinhos e praticavam uma forma de vida feita de trabalho manual, prolongada meditação Zen e uma liturgia cristã de luminosa simplicidade.
O eremitério da erva
Era 1964, quando o P.e Oshida, então com 39 anos, abriu o eremitério Sooan, a fim de dar espaço para todos os que tinham sido atraídos pelo seu modo de vida (Soo significa «erva», an significa «eremitério»). Sooan localiza-se na aldeia de Takamori, na província de Nogano, não muito longe da montanha sagrada, Fuji. Foi construído como uma cabana tradicional rústica. O eremitério de Takamori não é uma organização nem uma instituição. Era um lugar humilde que se enquadrava naturalmente na paisagem dos campos de arroz, dos regatos e da vida rural das cercanias das aldeias.
Deus concedeu ao P.e Oshida quarenta anos para ficar no silêncio e na simplicidade de Sooan e para procurar o rosto de Cristo e ouvir a makoto (a verdade/acontecimento). Makoto só pode ser verdade quando as pessoas se tornarem completamente simples e sinceras. Isso acontece no mais absoluto silêncio. Essas pessoas, imersas em silêncio, talvez um dia encontrem então uma nova makoto e descubram a «Mão» ou a «Palavra» de Deus através desta nova experiência. Deus trabalha através de nossa simplicidade.
A simplicidade pode ser como um «sacramento». Na tradição cristã, um sacramento é um sinal visível que aponta para a presença da graça invisível. No Zen, são precisamente as coisas simples e do dia-a-dia que têm um caráter sacramental. Não há nada de especial em beber chá, conhecer pessoas, ir trabalhar todos os dias, brincar com as crianças, deleitar-se com a Natureza, mas é nos elementos da vida do dia-a-dia que o mistério da existência se abre. Um poema Zen põe as coisas como se segue: «Como é excelente!, como é milagroso!, eu transportar água. Cortei lenha.»
Enfim, quem sabe se não é esta a radical simplicidade que provoca maior impacto nos cristãos que viajam nas paisagens do Budismo Zen. Acima de tudo, no entanto, eles já aprenderam alguma coisa sobre a verdadeira humanidade. Eles já descobriram o sacramento da simplicidade.
Era 1964, quando o P.e Oshida, então com 39 anos, abriu o eremitério Sooan, a fim de dar espaço para todos os que tinham sido atraídos pelo seu modo de vida (Soo significa «erva», an significa «eremitério»). Sooan localiza-se na aldeia de Takamori, na província de Nogano, não muito longe da montanha sagrada, Fuji. Foi construído como uma cabana tradicional rústica. O eremitério de Takamori não é uma organização nem uma instituição. Era um lugar humilde que se enquadrava naturalmente na paisagem dos campos de arroz, dos regatos e da vida rural das cercanias das aldeias.
Deus concedeu ao P.e Oshida quarenta anos para ficar no silêncio e na simplicidade de Sooan e para procurar o rosto de Cristo e ouvir a makoto (a verdade/acontecimento). Makoto só pode ser verdade quando as pessoas se tornarem completamente simples e sinceras. Isso acontece no mais absoluto silêncio. Essas pessoas, imersas em silêncio, talvez um dia encontrem então uma nova makoto e descubram a «Mão» ou a «Palavra» de Deus através desta nova experiência. Deus trabalha através de nossa simplicidade.
A simplicidade pode ser como um «sacramento». Na tradição cristã, um sacramento é um sinal visível que aponta para a presença da graça invisível. No Zen, são precisamente as coisas simples e do dia-a-dia que têm um caráter sacramental. Não há nada de especial em beber chá, conhecer pessoas, ir trabalhar todos os dias, brincar com as crianças, deleitar-se com a Natureza, mas é nos elementos da vida do dia-a-dia que o mistério da existência se abre. Um poema Zen põe as coisas como se segue: «Como é excelente!, como é milagroso!, eu transportar água. Cortei lenha.»
Enfim, quem sabe se não é esta a radical simplicidade que provoca maior impacto nos cristãos que viajam nas paisagens do Budismo Zen. Acima de tudo, no entanto, eles já aprenderam alguma coisa sobre a verdadeira humanidade. Eles já descobriram o sacramento da simplicidade.
É esta simplicidade que as pessoas procuraram no P.e Oshida e que ele levava consigo quando saía para pregar em retiros ou se escondia nas páginas dos muitos livros que escreveu. Uma vez, o P.e Oshida orientou um retiro para os bispos da Ásia e começou por pedir-lhes que saíssem para o campo e plantassem arroz! No início, houve uma certa resistência. Mas foi igual, ele forçou-os a fazê-lo, para que os bispos pudessem perceber que são apenas «colaboradores» na seara do Senhor. Podem começar, mas é Deus que faz brotar a semente.
Beleza e paz
No convento de Takamori, nos últimos dias da sua vida, o P.e Oshida passou muito tempo a contemplar o caminho vestido de cores de Outono das colinas circunvizinhas. Olhando para as folhas a cair suavemente no chão, ele proferiu as palavras que irão permanecer nos seus lábios até ao último suspiro: «Deus é maravilhoso! Amém, amém!» O P.e Oshida deixou este mundo num estado de profundo silêncio, atravessando para o outro lado da vida, enquanto descansava num sono profundo. Quando já tinha falecido, o seu rosto estava radiante de beleza e paz. Era 6 de Novembro de 2003.
O Pe. Oshida foi sepultado no quinto dia após a sua morte pelos seus seguidores e amigos: o caixão, simples de madeira, foi colocado no meio das árvores do Sagrado Memorial de Madeira que lembra as vítimas de todos os conflitos. Após uma vigília de oração que durou toda a noite, a missa foi celebrada entre as árvores, perto da pequena nascente, e, em seguida, o caixão foi descido à terra, mesmo por detrás da capela do convento, em frente da estátua de Maria segurando o Menino Jesus. Alguns grãos de arroz foram colocados dentro do caixão e depois no túmulo, e no chão em volta foram espargidas belas folhas outonais: vermelhas, amarelas, douradas... Estes simples gestos na celebração tornaram dignamente presente a figura religiosa do P.e Oshida.
Renovar a meditação
O P.e Oshida foi uma grande testemunha da aventura do espírito do nosso tempo, um peregrino e um pioneiro da fecundidade do caminho do Zen que encontra o Evangelho. Este encontro teve lugar na sua vida de uma forma radicalmente simples, sem qualquer complicação, sem duplicidade, sem hesitações, porque ele realmente aconteceu na profundidade da alma em que a original criatividade nos lembra o sopro criativo de Deus. O P.e Oshida acolheu o Evangelho na sua alma japonesa. Era como se a bondade do Budismo se tivesse reunido com a bondade do Cristianismo.
O jesuíta William Johnston, que passou a maior parte da vida no Japão e que é um reputado estudioso da espiritualidade, escreve: «Os cristãos podem, não só dispor da riqueza da meditação oriental, mas tornar-se líderes de um movimento de que Cristo teria de ser o centro – um movimento de meditação que humildemente aprenderia com o Zen. Tenho dito a cristãos japoneses – e creio que é verdade – que eles têm um papel importante a desempenhar no desenvolvimento do Cristianismo. A sua vocação é a de renovar a meditação na Igreja (por causa da sua tradição Zen) e interpretá-la para o Ocidente.»
LORENZO CARRARO, Missionário comboniano



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