Heródoto: Assim como Buda, Jesus meditava?
Frei Betto: Tenho para mim que Jesus passava longos tempos em meditação. Não acredito que ele orasse como a minha vó paterna. À noite, ela abria a lista de oitenta nomes da família e, enquanto não rezasse por cada um, não terminava as orações, achando que se alguém morresse não teria reduzida sua pena no purgatório ou não se salvaria do inferno...
Jesus costumava passar a noite em oração. Quem de nós, nos últimos dez anos, passou uma noite em oração? suponho que ele meditava. Ou seja. falamos muito de Deus, sobre Deus, a Deus, mas não deixamos Deus falar em nós. Porque isso mexe muito com os rumos de nossas vidas. Jesus, no entanto, deixava Deus falar nele.
Essa é a grande contribuição do Budismo ao Cristianismo - a meditação com excelência de oração. Na meditação, escutamos Deus, um escutar sem ouvidos e palavras, uma intuição, irmã gêmea da inteligência. Inteligência, em latim, significa intus legere, ser capaz de "ler dentro". Recordo a cozinheira do meu avô materno, Bertula, filha de escravos, que nunca aprendeu a ler, mas era muito inteligente. Às vezes, chegava uma visita na casa de meu avô e ela apenas observava. Depois, chamava minha vó e alertava: "olha, sabe aquela pessoa? Não confie, não". Dito e feito. Era inteligente e intuitiva também., como se lesse no interior das pessoas e pressentisse. Esta opera na mente, aquela no plexo solar.
Jesus só teria se dado conta de que Deus o escolheu para ser a sua encarnação no momento em que ressuscitou. Tanto que chorou na hora da morte, teve muito medo. O Evangelho diz que chorou lágrimas de sangue.
trecho do livro: Heródoto Barbeiro e Frei Betto: O budista e o cristão: um diálogo pertinente.

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