sexta-feira, 9 de junho de 2017

PE. LUCIANO MAZZOCHI - A PIA BATISMAL E O TSUKUBAI


O "tsukubai" é um elemento muito importante nos templos xintoístas e budistas do Japão. Além dos locais religiosos, o “tsukubai” ornamenta muitos jardins de instituições civis - escolas de cerimônia do chá e residências, como expressão de uma sensibilidade espiritual própria e independente de qualquer filiação religiosa. Os japoneses que moram nas ilhas cercadas pelo oceano pacífico, nos períodos sazonais das chuvas de monção, desenvolvem uma relação de reverência e intimidade com a água. A água é a graça; o tsukubai é o altar.

O “tsukubai” geralmente é feito a partir de um bloco de granito, com uma cavidade aberta na superfície central superior, para receber a água. A água flui por um canal de bambu, dessa forma é direcionada para o interior do “tsukubai”. A água é de preferência das chuvas da primavera. Em alguns lugares, o “tsukubai” é coberto por um telhado simples, e cercado por pequenas pedras e um jardim.

O “tsukubai” é o primeiro lugar "sagrado" por onde o visitante passa antes de entrar no espaço interno de um templo ou de uma residência. O visitante usa uma longa concha de bambu que fica reclinada no “tsukubai” chamada “hishaku”. Com essa concha a água é recolhida e derramada na mão esquerda, purificando-a. Então, com mão esquerda, um pouco de água é despejada sobre a mão direita, purificando-a também. Do mesmo modo, a água recolhida com o mesmo "hishaku" e é despejada na mão para ser bebida, purificando o interior do corpo. Se necessário, o “hishaku” é lavado e colocado de volta com a cavidade reclinada na superfície do “tsukubai”, e assim, disponível para o próximo visitante. 

Os exemplares de “tsukubai” mais venerados, tem nas quatro extremidades alguns kanjis entalhados. Na verdade, a forma central quadrada na pedra reproduz o kanji "kuchi- boca” 口. Isso não é por acaso, mas sim o primeiro ensinamento do “tsukubai”.


Os quatro kanjis são:

• 吾 ware: louça
• 唯 tada: apenas, somente
• 足 taru: ser suficiente, bastar, valer a pena, merecer
• 知 shiru: saber - sei

A frase que se obtém é “taru tada ware shiru”. A tradução em língua portuguesa fica assim: “o que se tem é tudo que se precisa”. O “tsukubai” está sempre cheio, porque recebe água ininterruptamente e, em seguida, deixa tudo fluir. O templo, a cerimônia do chá, o jardim de areia, o bosque de bambu, as pessoas que se deslocam para se purificar e rezar, tudo é preenchido na fluidez das coisas que mana e se modifica. Tudo é a celebração da presença e da partilha, sem se fechar a nada, mas deixando tudo fluir livremente de acordo com a lei da impermanência, assim como o canal de bambu que despeja água na pedra. O fluxo da água e a resistência da rocha: o “tsukubai”.

Na tradição católica, um elemento cristão que se comunica com o “tsukubai” é a pia batismal, especialmente se escavada numa rocha como no batistério da Basílica de São Pedro e São Paulo Agliate (Brianza), onde a água batismal brota da própria rocha. No Japão, muitas igrejas católicas adotaram o “tsukubai” como repositório de água benta. Da contemplação do “tsukubai” e do batistério escavado na rocha, brota a esperança, a oração, que é a restauração da liturgia,  a missão da água benta como memória da doçura da cena  em que Jesus desceu ao Jordão, e pelas mãos de João Batista foi mergulhado nas águas correntes do rio. Então, do céu veio a voz: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mt 3:17).

Luciano Mazzocchi, é missionário Jesuíta Xaveriano nascido na Itália, viveu durante vinte anos (1962-1982) no Japão, estudou as tradições religiosas e a cultura do país. De volta à Itália, fundou com o monge Zen Jiso Forzani, a sangha "Estrela da Manhã", local de diálogo entre os Evangelhos de Cristo e o Zen Budismo. Em 2008 fundou a associação "Evangelho e Zen", com sede em Desio, Brianza. É o autor de vários livros, dentre os quais se destaca “O Evangelho de João e o Zen”; “O evangelho e o Zen. Diálogo como caminho religioso” (com AM Tallarico); “As ondas e o mar. A aventura de um cristão no diálogo com o Zen”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.