quinta-feira, 15 de março de 2018

MONJA COEN ROSHI - 108 CONTOS E PARÁBOLAS ORIENTAIS (APENAS DUAS PALAVRAS)


Havia um mosteiro muito rígido. Seguia um estrito voto de silêncio, a ninguém era permitido falar. Mas havia uma pequena exceção a essa regra: a cada dez anos os monges tinham permissão de falar apenas duas palavras. Após passar seus primeiros dez anos no monastério, um jovem monge obteve permissão para ir falar ao Superior. — Passaram-se dez anos — disse o monge Superior. — Quais são as duas palavras que você gostaria de dizer? — Cama dura... — disse o jovem. — Entendo... — replicou o monge Superior. Dez anos depois, o monge retornou à sala do Superior. — Passaram-se mais dez anos — disse o Superior. — Quais são as duas palavras que você gostaria de dizer? — Comida ruim... — disse o monge. — Entendo... — replicou o Superior. Mais dez anos se foram e o monge uma vez mais encontrou-se com seu Superior, que perguntou: — Quais são as duas palavras que você gostaria de dizer, após mais estes dez anos? — Eu desisto! — disse o monge. — Bem, eu entendo o porquê — replicou, cáustico, o monge superior. — Tudo o que você sempre fez foi reclamar!  

Comentário

Definitivamente, essa não é uma história real. Não existe mosteiro onde só se possa dizer duas palavras a cada dez anos. Mas é simbólica de algo verdadeiro. Os antigos mosteiros abrigavam 800, mil e até mais de 1.500 monásticos. Conseguir uma entrevista individual com o mestre era raridade, e o tempo para estar com ele, muito curto. Mesmo em mosteiros menores da atualidade, nem sempre os monges ou as monjas podem livremente entrar na sala do mestre para receber instruções. Houve uma monja irlandesa, Jiyu Kenneth Roshi, fundadora de Shasta Abbey, na Califórnia, que morou durante alguns anos no Mosteiro-Sede de Sojiji, em Yokohama, no Japão. Ela fora ordenada pelo Zenji (abade superior). Entretanto, não conseguia entrevistas individuais com ele para ser orientada, mesmo residindo no mosteiro. Para que pudesse falar com seu mestre, combinou com ele que deixaria uma flor próximo à sua janela, para que ele a chamasse. Foi apenas assim que pôde ser orientada. Outro aspecto interessante nesse conto é que raramente as pessoas vão aos abades agradecer ou compartilhar seus estudos e ensinamentos. A maioria dos encontros é para reclamar — tanto de sua vida pessoal presente ou regressa, como das ansiedades sobre o futuro, bem como reclamar dos outros praticantes, da alimentação, do local de dormir, e assim por diante. O conto serve como admoestação: não percam a oportunidade de falar com o mestre e peçam pelos ensinamentos. Não reclamem. São Bento, fundador da ordem beneditina, deixou um livro de regras. Uma delas — parece ser a 34 — diz ser proibido resmungar. Até o murmúrio correto é proibido. Nenhuma comunidade se sustenta se houver resmungos e murmúrios. É preciso saber falar de maneira correta e com quem possa fazer mudanças, caso sejam necessárias. Mas, antes de tudo, observe se o que você vai dizer é apenas uma reclamação. Não perca tempo e procure também observar o que há de benéfico em cada situação e local. Certa feita, uma praticante que só reclamava veio me procurar, novamente reclamando, e eu disse a ela: — Durante esta semana, observe coisas boas e me traga cinco boas notícias. Terminada a semana, ela voltou. E, então, perguntei, curiosa. Ela respondeu: — Nada. Não houve nada bom. Seria possível? Houve o nascer do sol, houve o dia e a noite, houve estrelas e nuvens. Houve refeições, houve sono. Trabalho, trânsito. Tantas coisas. Mas ela estava incapacitada de apreciar a vida. Assim como o monge do conto. A cada dez anos, duas palavras. E eram apenas duas reclamações. 

capítulo 12: Apenas duas palavras, do livro "108 contos e parábolas Zen", Monja Coen Roshi.

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