Jami,
o místico Sufi, diz em um dos seus poemas: "Quem entrar na cidade do amor,
só encontrará espaço de unidade". Ali não existe a palavra
"eu", existe a palavra "nós", melhor ainda, só a palavra
"um". Viver separados do todo é o preço que pagamos de nos tornar
humanos, e sair das relações inconscientes. Ainda não sabemos como lidar com a presença
de si mesmo. Isso nos levou ao isolamento. Nós construímos cercas, dizemos
"meu", defendemos nossos bens e queremos tirar as coisas dos outros.
Nós ainda não sabemos viver em comunidade. Este é o grande problema do
indivíduo, também dos povos, e dos grupos.
Quem
quiser entrar na dimensão divina (o que nós, cristãos, chamamos de "Reino
de Deus") tem que atravessar fronteiras. Tem que sair do isolamento de si.
Tem que atravessar um campo dualista, sem divisões, como: espírito matéria, luz escuridão, bem-mal, condenação salvação. O que chamamos "indivíduo"
é falso. Experimentamos o "atemporal" quando o "indivíduo
transitório" é abandonado. Este último vive às custas de separações. Mas
já sabemos pela física quântica que não existe isolamento algum, que tudo flui
e que apenas o ir e vir é real. "Na física quântica, o observador interage
de tal maneira com o sistema, que não imagina que as partículas tenham uma
existência separada" (Nils Bohr). Nos termos da espiritualidade, é a mesma
coisa dizer: "Quem entra na cidade do amor, encontrará nela apenas espaço
para a unidade". Lá, sua identidade se transformar em unidade, que não é
senão a original realidade – Deus. É algo que nossa razão não concebe, por isso
é melhor não entrarmos em discussões.
Nossa
sociedade nos ensinou costumes destrutivos: o meu e o seu, a posse, o ataque
violento, a conquista implacável, acumulação de bens e a proteger esses bens.
Quem quer ser membro da sociedade, deve abandonar esses pontos de vistas, como
uma criança. Jesus disse que devemos ser crianças, se quisermos entrar no Reino
de Deus. Com a consciência de si mesmo, vivemos no engano de viver num mundo
estável. Acreditamos ter segurança, graças a nós mesmos. Entretanto, em nosso íntimo,
intuímos que não existe segurança, e é por isso que temos medo e buscamos
desesperadamente apoio nos bens, no poder e na construção de barreiras à nossa
volta.
Nossa
linguagem demonstra essa alienação da unidade. Usamos palavras deludidas. Dizemos:
"eu nasci". Mas, deveríamos dizer: "ele nasceu". Não é a nossa
vida que vivemos, mas a vida de Deus. Isto foi entendido por Shakiamuni Buda, quando
teve a experiência de iluminação. Ele disse: "eu, a grande Terra, e todos os seres,
juntos, simultaneamente, nos tornamos o caminho". Percebeu que, todos os
seres possuem essa natureza buda, e que cada um de nós juntos, podemos ter a
mesma realização. Podemos dizer: "sou único". Podemos dizer o que Jesus disse: "Eu e o
Pai somos um". Somos simplesmente o transbordamento de Deus. Aquilo que
sai, não difere do que existe dentro. "A iluminação é, ao mesmo tempo, interior
e se voltar para dentro é a própria iluminação. O Uno emana de si e imprime a
necessidade de retorno a si mesmo. Sempre é a unidade que emana do ser. Ego, a
palavra “eu”, não quer dizer nada, existe somente Deus, em sua unidade ".
Willigis Jager Koun-ken, representa a espiritualidade interconfessional. Como ex-padre Beneditino e mestre Zen Budista, sua visão é de uma espiritualidade integradora que une em si, o grande tesouro da sabedoria oriental e ocidental. Foi ordenado “Sensei” pela ordem Sanbo-Kyodan. Em 1983, Yamada Koun Roshi (1907-1989) deu a ele permissão para ensinar o Buda-Dharma. Em 1996 Kubota Roshi (sucessor de Yamada) concedeu a ele o selo “Inka Ji'un Shomei” de Roshi. Desde 2003 é diretor espiritual da Benediktushof e co-fundador do Sonnenhof, também é fundador da Linhagem “Nuvem Vazia”. Em 23 de outubro de 2009 foi certificado como sucessor 45ª da escola Linchi (Rinzai Zen).

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