sexta-feira, 9 de março de 2018

WILLIGIS JAGER OSB - MORTE, ONDE ESTÁ SUA VITÓRIA, O TEU AGILHÃO? (PÁSCOA DE 1995)




Nesta palestra, queria fazer algumas reflexões sobre a Páscoa. O tema é a morte e ressurreição. "Onde está, ó morte, o teu aguilhão? onde está, ó inferno, a tua vitória?" Paulo coloca essa questão na Epístola aos Coríntios (Cor 15: 55). Não sei como Paulo compreenderia essas palavras hoje, mas temos o direito de interpretar e trazer essa passagem do Evangelho para o nosso tempo, de acordo com a nossa compreensão de mundo. A compreensão de Jesus e Paulo era muito diferente da nossa. Eles provavelmente aguardaram o fim do mundo num futuro muito próximo a eles. Deste ponto de vista, a sagrada escritura foi interpretada de uma forma muito diferente da de hoje, da nossa compreensão, holística do universo. Eles falavam e escreviam muito diferente da gente. "Ressurreição" não significa uma existência ininterrupta, num tipo de céu dourado. Deus não é estático. Ressurreição significa a experiência una da origem ilimitada, sem espaço e tempo, aqui no Ocidente chamamos isso de "Deus". O objetivo, portanto, não é ser imortal, mas ter a experiência da atemporalidade da nossa natureza, que se manifesta nas mais diversas formas. A ressurreição não é algo que acontece no fim dos dias, a ressurreição é a irrupção do não nascido/não morto, apenas uma transformação das formas. A “ressurreição da carne” não significa retornar à condição humana, não importa quão etéreo a imaginemos, mas a realidade original – Deus – que se manifesta em todas as estruturas, e que é possível acessarmos. 

Há aqueles que pensam que, ao ressuscitar, a humanidade estará imersa num mingau oceânico, uma espécie de transe em que as faculdades cognitivas estarão perdidas. É o contrário disso. A unidade, o todo, não se opõe à individualidade, mas sim a maneira pela qual o ilimitado se manifesta. Portanto, a individualidade não perde seu padrão. É a expressão sem paralelos do ilimitado. Como cristãos, dizemos que fomos criados à imagem de Deus. Somos, então, manifestações individuais da realidade original, isso é a expressão de que somos especiais. O objetivo é conhecer como o tempo/espaço sem limites se manifesta em cada uma das existências, seja na dos anjos, dos demônios, dos espíritos ou em qualquer outra forma. Contudo, a individualidade não é fixa. Devemos passar por cada uma dessas existências. A religião pode apontar caminhos para o ser humano, mas também pode cegá-lo. A visão e a compreensão de mundo que temos mudam continuamente. Portanto, as interpretações dos ensinamentos religiosos também devem ser renovadas. As chamadas verdades não voltam a ser verdades por mais repetidas que sejam. Elas precisam ser compreendidas em cada época, de forma harmônica com cada tempo. Nosso problema fundamental é que, no fundo, todos nós queremos ser imortais e temos medo de deixar o nosso “eu” ilusório. Ele quer existir eternamente. Portanto, as pessoas não conseguem aceitar o esgotamento do “eu”, elas se refugiam em atividades que camuflam seus medos. Porém, este recurso não resolve o problema, porque ninguém pode manter a ilusão de ser eterno, estável, permanente e imortal. Quando essa ilusão é entendida como engano, as pessoas se refugiam em novas atividades. Por outro lado, em busca da nossa natureza essencial, encontramos a solução das nossas questões. Aqueles que experimentam o ilimitado  em si, poderão enfrentar seus problemas psíquicos, físicos e espirituais de outra maneira. Os problemas simplesmente perdem a importância. A visão do mundo é modificada e a ordem dos valores mudam. Acessando ou não, o desejo mais profundo do ser humano é alcançar esse estado. Toda pessoa tem a memória da sua natureza original, uma intuição de que algo o espera, e que esse algo funda sua verdadeira terra natal. É dito no Zen: "O som do cuco nos convida retornar ao lar". Por muito tempo, a pessoa busca a felicidade fora, no exterior, nas coisas materiais, no casamento, em um deus pessoal, até que ela percebe que tudo isso não é mais que o incessante chamado para voltar à sua casa. Talvez você diga que tudo isso, mais uma vez, são apenas palavras e conceitos. Você está certo, mas, sendo uma pessoa do século XX, trata-se de palavras e conceitos com as quais me sinto bem. Ademais, não quero forçar ninguém a aceitar minhas convicções. Mantenha sua fé desde que ela te sustente. Mas esteja disposto a se abrir, assim que força que te sustenta diminuir.

do livro, "Partida para um novo país: experiências de uma vida espiritual".

Willigis Jager Koun-kenrepresenta a espiritualidade interconfessional. Como ex-padre Beneditino e mestre Zen Budista, sua visão é de uma espiritualidade integradora que une em si, o grande tesouro da sabedoria oriental e ocidental. Foi ordenado “Sensei” pela ordem Sanbo-Kyodan. Em 1983, Yamada Koun Roshi (1907-1989) deu a ele permissão para ensinar o Buda-Dharma. Em 1996 Kubota Roshi (sucessor de Yamada) concedeu a ele o selo “Inka Ji'un Shomei” de Roshi. Desde 2003 é diretor espiritual da Benediktushof e co-fundador do Sonnenhof, também é fundador da Linhagem “Nuvem Vazia”. Em 23 de outubro de 2009 foi certificado como sucessor 45ª da escola Linchi (Rinzai Zen).

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