Nesta
palestra, queria fazer algumas reflexões sobre a Páscoa. O tema é a morte e ressurreição. "Onde está, ó morte, o teu aguilhão? onde está, ó inferno, a tua vitória?" Paulo coloca essa questão na Epístola aos Coríntios (Cor 15: 55). Não sei como Paulo
compreenderia essas palavras hoje, mas temos o direito de interpretar e trazer essa
passagem do Evangelho para o nosso tempo, de acordo com a nossa compreensão de
mundo. A compreensão de Jesus e Paulo era muito diferente da nossa. Eles
provavelmente aguardaram o fim do mundo num futuro muito próximo a eles. Deste
ponto de vista, a sagrada escritura foi interpretada de uma forma muito diferente da de hoje, da nossa compreensão, holística do universo. Eles falavam e
escreviam muito diferente da gente. "Ressurreição"
não significa uma existência ininterrupta, num tipo de céu
dourado. Deus não é estático. Ressurreição significa a experiência una da origem ilimitada, sem espaço e tempo, aqui no Ocidente chamamos
isso de "Deus". O objetivo, portanto, não é ser imortal, mas ter a experiência da atemporalidade da nossa natureza, que se manifesta nas mais
diversas formas. A ressurreição não é algo que acontece no fim dos dias, a
ressurreição é a irrupção do não nascido/não morto, apenas uma transformação
das formas. A “ressurreição da carne” não significa retornar à condição humana,
não importa quão etéreo a imaginemos, mas a realidade original – Deus – que se
manifesta em todas as estruturas, e que é possível acessarmos.
Há
aqueles que pensam que, ao ressuscitar, a humanidade estará imersa num mingau
oceânico, uma espécie de transe em que as faculdades cognitivas estarão
perdidas. É o contrário disso. A unidade, o todo, não se opõe à
individualidade, mas sim a maneira pela qual o ilimitado se manifesta. Portanto,
a individualidade não perde seu padrão. É a expressão sem paralelos do ilimitado.
Como cristãos, dizemos que fomos criados à imagem de Deus. Somos, então, manifestações
individuais da realidade original, isso é a expressão de que somos especiais. O objetivo é conhecer como o tempo/espaço sem limites se manifesta
em cada uma das existências, seja na dos anjos, dos demônios, dos espíritos ou em qualquer
outra forma. Contudo, a individualidade não é fixa. Devemos passar por cada uma dessas existências. A
religião pode apontar caminhos para o ser humano, mas também pode cegá-lo. A
visão e a compreensão de mundo que temos mudam continuamente. Portanto, as
interpretações dos ensinamentos religiosos também devem ser renovadas. As
chamadas verdades não voltam a ser verdades por mais repetidas que sejam. Elas precisam
ser compreendidas em cada época, de forma harmônica com cada tempo. Nosso
problema fundamental é que, no fundo, todos nós queremos ser imortais e temos
medo de deixar o nosso “eu” ilusório. Ele quer existir eternamente. Portanto, as
pessoas não conseguem aceitar o esgotamento do “eu”, elas se refugiam em
atividades que camuflam seus medos. Porém, este recurso não resolve o problema,
porque ninguém pode manter a ilusão de ser eterno, estável, permanente e imortal.
Quando essa ilusão é entendida como engano, as pessoas se refugiam em
novas atividades. Por
outro lado, em busca da nossa natureza essencial, encontramos a solução das nossas questões. Aqueles que experimentam o ilimitado em si, poderão enfrentar
seus problemas psíquicos, físicos e espirituais de outra maneira. Os problemas simplesmente
perdem a importância. A visão do mundo é modificada e a ordem dos valores mudam. Acessando
ou não, o desejo mais profundo do ser humano é alcançar esse estado. Toda
pessoa tem a memória da sua natureza original, uma intuição de que algo o espera,
e que esse algo funda sua verdadeira terra natal. É dito no Zen: "O som do
cuco nos convida retornar ao lar". Por muito tempo, a pessoa busca a
felicidade fora, no exterior, nas coisas materiais, no casamento, em um deus
pessoal, até que ela percebe que tudo isso não é mais que o incessante chamado para voltar à sua casa. Talvez
você diga que tudo isso, mais uma vez, são apenas palavras e conceitos. Você
está certo, mas, sendo uma pessoa do século XX, trata-se de palavras e conceitos
com as quais me sinto bem. Ademais, não quero forçar ninguém a aceitar
minhas convicções. Mantenha sua fé desde que ela te sustente. Mas esteja
disposto a se abrir, assim que força que te sustenta diminuir.
do livro, "Partida para um novo país: experiências de uma vida espiritual".
Willigis Jager Koun-ken, representa a espiritualidade interconfessional. Como ex-padre Beneditino e mestre Zen Budista, sua visão é de uma espiritualidade integradora que une em si, o grande tesouro da sabedoria oriental e ocidental. Foi ordenado “Sensei” pela ordem Sanbo-Kyodan. Em 1983, Yamada Koun Roshi (1907-1989) deu a ele permissão para ensinar o Buda-Dharma. Em 1996 Kubota Roshi (sucessor de Yamada) concedeu a ele o selo “Inka Ji'un Shomei” de Roshi. Desde 2003 é diretor espiritual da Benediktushof e co-fundador do Sonnenhof, também é fundador da Linhagem “Nuvem Vazia”. Em 23 de outubro de 2009 foi certificado como sucessor 45ª da escola Linchi (Rinzai Zen).

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