Ao contrário do Islã, o Budismo é apresentado ao público num tom
mais equilibrado. Mesmo hoje, em uma época caracterizada por fanatismos e
discussões acaloradas, isso oferece caminhos alternativos para àqueles que estão num processo de busca espiritual. Tanto que, em muitos setores da vida cotidiana da Igreja, não
existe atrativos ao silêncio e à meditação. Dentro da Igreja, existem muitas
oportunidades de estudo, e são raras as inspirações de origem oriental.
Nesse sentido, além da simples atração pelas práticas orientais, são utilizados
elementos particulares. Propomos aqui compreender a meditação
budista e, em particular, falar do treinamento Zen, como são praticados pelos
budistas e, principalmente, pelos cristãos. Uma das razões que nos levou a encarar essa questão, foi o seu
caráter espiritual, que chegou ao Ocidente por meio do Zen japonês, enquanto que
o Yoga, mais aceito em ambientes seculares, foi considerado uma forma
"psicossomática". Além disso, o uso da palavra “Zen” está na moda, e
se estende às inúmeras implicações, guardada as proporções, a
"professores" que se definem como tal, e que possuem certo prestígio.
Por outro lado, hoje não é aceitável a superficialidade que nos séculos passados foi julgado o que era heresia e o que não era, sobretudo, porque é indispensável distinguir
entre teoria e prática.
CONHECIMENTO DA RAZÃO
Atualmente, além do conhecimento lógico – todas as culturas podem
se expressar por uma linguagem simples – do mesmo modo, existem formas de comunicação
em que as pessoas não precisam de palavras. São Tomás de Aquino fala do "cognitio per connaturalitatem", isto é, um conhecimento baseado na
igualdade e na intimidade espiritual, uma "conaturalidade". John
Henry Newman recomendou o lema de seu cardeal, o ditado "cor ad cor
loquitur – o coração fala ao coração". No passado, o livro do jesuíta Peter Lippert, "Da anima anima
anima", foi publicado pela primeira vez em 1924, e amplamente lido. Existe
um ditado japonês, "ishin denshin" (de coração para coração),
derivada do Zen Budismo e refere-se à comunicação sem palavras e a transmissão
direta, mente a mente. Em todos esses casos, se trata de um tipo de comunicação que não se
dá por meios discursivos, mas pela intensa prática meditativa. O Zen é praticado no mundo todo. Já algum tempo buscamos respostas
para saber se apenas budistas podem praticá-lo: todos nós podemos praticar.
Para nós cristãos, uma abordagem aos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de
Loyola (1431-1556) pode ser útil. A palavra "exercício" também será
usada aqui. Um estudo mais profundo dos Exercícios mostra que paralelos
estruturais podem ser estabelecidos entre o treinamento Zen e os de Santo
Inácio de Loyola. Tem a ver com o fato de a prática espiritual apontar caminhos.
Para Santo Inácio, no início da era moderna, estes Exercícios preparavam um
percurso capaz de levar o praticante a uma consciência existencial de relação intima
com Deus. Para isso, Santo Inácio deu apontamentos precisos sobre lugares e o tempo
necessário para realizar esses Exercícios, descreveu ainda quais eram as
competências do guia, como ele deveria se comportar, executar e transmitir cada
um dos exercícios.
A INFLUÊNCIA ASIÁTICA
Muitos detalhes dos Exercícios foram esquecidos, e durante muito
tempo, foram reduzidos a tópicos e palestras. Mas ultimamente mudou, e não
devemos perder de vista o fato de que foi graças à influência oriental. Em
muitos cursos, foram adicionados elementos “psicossomáticos”. Os grupos cresceram
e se expandiram. Os “Exercícios” se tornaram um guia que aponta caminhos para
aqueles que estão buscando. Do ponto de vista cristão, num momento em que o pluralismo cresce
continuamente, somos chamados a fazer uma escolha pessoal. Portanto, considerando
todas as formas de acesso, compartilho o que Karl Rahner considerou ao final da
sua busca, que é o modo que Jesus Cristo nos indicou, que temos mais
certeza, e que nos leva a entender o significado de nossa existência. "Amor" e "serviço" são duas palavras que nos
últimos tempos estão cada vez mais inseparáveis do eixo da essência cristã,
resumindo-se num denominador comum simples e facilmente compreensível. Não se trata de palavras, mas
sobre colocar essas palavras em
prática. Em certo sentido, o silêncio antecede as palavras.
DIÁLOGO ENTRE BUDISMO E CRISTIANISMO
O amor altruísta está sintetizado em uma única palavra, que inspira
o diálogo entre o Budismo e Cristianismo, e cria novos espaços para o diálogo
que queremos fazer, nas palavras de São Paulo, a 'kenosis' divina da
encarnação de Jesus. Em Filipenses (2:5-8), a passagem nos convida a seguir o Cristo,
Paulo diz: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus ”. Que,
sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas
esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos
homens. E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente
até à morte, e morte de cruz. Paulo afirma que Cristo 'heauton ekenōsen',
"ficou vazio", "esvaziado". Entretanto, o termo
"vazio" não pode ser entendido aqui em sentido literal. Mestres Zen e o filósofo Keiji Nishitani, reconhecem a proximidade
de tal conceito, com o conceito fundamental da espiritualidade e pensamento
budista, e sobre qual seus pensamentos continuamente se voltam: 'shunyata',
"vazio". A palavra em si não vem diretamente do Zen, mas pertence a
um erudito indiano e místico do segundo século. Nāgārjuna, a quem nós devemos à
formulação da grande herança da natureza budista. Os termos, que também têm significados
filosóficos, são usados principalmente para a prática espiritual.
CORTE DO DESAPEGO
O Zen Budismo lida substancialmente com o processo de
"esvaziamento", um corte radical que afasta os apegos, conhecido como
"vazio". O vazio não é um objeto de reflexão, mas um processo que
traz à mente a sabedoria, isso se aplica à linguagem de místicos cristãos como São João da Cruz e Teresa de Ávila, e os alemães, como Mestre
Eckhart. A escassa formação filosófica e psicológica levou alguns instrutores
de meditação cristã a conceituações simplórias. Não é de se admirar, que para
eles falar de Deus, acabe no impessoal, e que a pessoa de Jesus – o
Jesus histórico – não tem nenhum interesse, e de modo particular, tenha se
transformado num princípio cósmico. Aqui o sofrimento na cruz é uma barreira que
não deve ser evitada. E essa verdade é evidenciada, por um lado, de que olhar
pra cruz é chocante para os não-cristãos e, por outro lado, num momento considerado
“depois de cristo”, muitos cristãos se esforcem para tirar a cruz da vida diária,
e para muitos jovens, a cruz se tornou um simples objeto de adoração sem muito valor.
Precisamos ser realmente cristãos, devemos ter uma posição diante da cruz. Porém, no campo da linguagem espiritual, o discernimento de ação
feito no silêncio é verdadeiro. No Julgamento Universal de que fala Jesus em
Mateus 25, 34-46, o que verdadeiramente conta é a dedicação altruísta, o compromisso
amoroso com o próximo. Ao término dos 'Exercícios Espirituais', a vida de
introspecção continua integrada, tolerante, e de um certo ponto de vista, não se fala
de uma vida iluminada vivida no espírito. No diálogo Budista-Cristão, a verdadeira iluminação não é sectária,
não está separada. Pelo contrário, convida os interessados a se dedicarem completamente
à compaixão, e ao mundo não-iluminado.
(*) Artigo original publicado no L'Osservatore Romano. Tradução de
New Life.
Hans Waldenfels, (Johannes Bernhard Maria Waldenfels), nasceu em 20 de outubro de 1931 em Essen, Alemanha. É um teólogo da Companhia de Jesus. De 1960 a 1964, curso Teologia na Universidade Católica de Sophia, em Tóquio. Nesse meio tempo, foi ordenado sacerdote em 1963 e foi convidado pela Universidade Imperial de Kyoto em Takeuchi Yoshinori. De 1965 a 1968, Waldenfels fez seu doutorado na Gregoriana (Roma) e na Universidade de Münster . Sua tese, publicada em 1969, foi baseada em Karl Rahner e leva o título de "Revelação".

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