segunda-feira, 12 de março de 2018

WILLIGIS JAGER OSB - ELE NASCEU (VERÃO DE 1992)


Jami, o místico Sufi, diz em um dos seus poemas: "Quem entrar na cidade do amor, só encontrará espaço de unidade". Ali não existe a palavra "eu", existe a palavra "nós", melhor ainda, só a palavra "um". Viver separados do todo é o preço que pagamos de nos tornar humanos, e sair das relações inconscientes. Ainda não sabemos como lidar com a presença de si mesmo. Isso nos levou ao isolamento. Nós construímos cercas, dizemos "meu", defendemos nossos bens e queremos tirar as coisas dos outros. Nós ainda não sabemos viver em comunidade. Este é o grande problema do indivíduo, também dos povos, e dos grupos.

Quem quiser entrar na dimensão divina (o que nós, cristãos, chamamos de "Reino de Deus") tem que atravessar fronteiras. Tem que sair do isolamento de si. Tem que atravessar um campo dualista, sem divisões, como: espírito matéria, luz escuridão, bem-mal, condenação salvação. O que chamamos "indivíduo" é falso. Experimentamos o "atemporal" quando o "indivíduo transitório" é abandonado. Este último vive às custas de separações. Mas já sabemos pela física quântica que não existe isolamento algum, que tudo flui e que apenas o ir e vir é real. "Na física quântica, o observador interage de tal maneira com o sistema, que não imagina que as partículas tenham uma existência separada" (Nils Bohr). Nos termos da espiritualidade, é a mesma coisa dizer: "Quem entra na cidade do amor, encontrará nela apenas espaço para a unidade". Lá, sua identidade se transformar em unidade, que não é senão a original realidade – Deus. É algo que nossa razão não concebe, por isso é melhor não entrarmos em discussões.

Nossa sociedade nos ensinou costumes destrutivos: o meu e o seu, a posse, o ataque violento, a conquista implacável, acumulação de bens e a proteger esses bens. Quem quer ser membro da sociedade, deve abandonar esses pontos de vistas, como uma criança. Jesus disse que devemos ser crianças, se quisermos entrar no Reino de Deus. Com a consciência de si mesmo, vivemos no engano de viver num mundo estável. Acreditamos ter segurança, graças a nós mesmos. Entretanto, em nosso íntimo, intuímos que não existe segurança, e é por isso que temos medo e buscamos desesperadamente apoio nos bens, no poder e na construção de barreiras à nossa volta.

Nossa linguagem demonstra essa alienação da unidade. Usamos palavras deludidas. Dizemos: "eu nasci". Mas, deveríamos dizer: "ele nasceu". Não é a nossa vida que vivemos, mas a vida de Deus. Isto foi entendido por Shakiamuni Buda, quando teve a experiência de iluminação. Ele disse: "eu, a grande Terra, e todos os seres, juntos, simultaneamente, nos tornamos o caminho". Percebeu que, todos os seres possuem essa natureza buda, e que cada um de nós juntos, podemos ter a mesma realização. Podemos dizer: "sou único".  Podemos dizer o que Jesus disse: "Eu e o Pai somos um". Somos simplesmente o transbordamento de Deus. Aquilo que sai, não difere do que existe dentro. "A iluminação é, ao mesmo tempo, interior e se voltar para dentro é a própria iluminação. O Uno emana de si e imprime a necessidade de retorno a si mesmo. Sempre é a unidade que emana do ser. Ego, a palavra “eu”, não quer dizer nada, existe somente Deus,  em sua unidade ".

do livro, "Partida para um novo país: experiências de uma vida espiritual".

Willigis Jager Koun-kenrepresenta a espiritualidade interconfessional. Como ex-padre Beneditino e mestre Zen Budista, sua visão é de uma espiritualidade integradora que une em si, o grande tesouro da sabedoria oriental e ocidental. Foi ordenado “Sensei” pela ordem Sanbo-Kyodan. Em 1983, Yamada Koun Roshi (1907-1989) deu a ele permissão para ensinar o Buda-Dharma. Em 1996 Kubota Roshi (sucessor de Yamada) concedeu a ele o selo “Inka Ji'un Shomei” de Roshi. Desde 2003 é diretor espiritual da Benediktushof e co-fundador do Sonnenhof, também é fundador da Linhagem “Nuvem Vazia”. Em 23 de outubro de 2009 foi certificado como sucessor 45ª da escola Linchi (Rinzai Zen).

sexta-feira, 9 de março de 2018

WILLIGIS JAGER OSB - MORTE, ONDE ESTÁ SUA VITÓRIA, O TEU AGILHÃO? (PÁSCOA DE 1995)



Nesta palestra, queria fazer algumas reflexões sobre a Páscoa. O tema é a morte e ressurreição. "Onde está, ó morte, o teu aguilhão? onde está, ó inferno, a tua vitória?" Paulo coloca essa questão na Epístola aos Coríntios (Cor 15: 55). Não sei como Paulo compreenderia essas palavras hoje, mas temos o direito de interpretar e trazer essa passagem do Evangelho para o nosso tempo, de acordo com a nossa compreensão de mundo. A compreensão de Jesus e Paulo era muito diferente da nossa. Eles provavelmente aguardaram o fim do mundo num futuro muito próximo a eles. Deste ponto de vista, a sagrada escritura foi interpretada de uma forma muito diferente da de hoje, da nossa compreensão, holística do universo. Eles falavam e escreviam muito diferente da gente. "Ressurreição" não significa uma existência ininterrupta, num tipo de céu dourado. Deus não é estático. Ressurreição significa a experiência una da origem ilimitada, sem espaço e tempo, aqui no Ocidente chamamos isso de "Deus". O objetivo, portanto, não é ser imortal, mas ter a experiência da atemporalidade da nossa natureza, que se manifesta nas mais diversas formas. A ressurreição não é algo que acontece no fim dos dias, a ressurreição é a irrupção do não nascido/não morto, apenas uma transformação das formas. A “ressurreição da carne” não significa retornar à condição humana, não importa quão etéreo a imaginemos, mas a realidade original – Deus – que se manifesta em todas as estruturas, e que é possível acessarmos. 

Há aqueles que pensam que, ao ressuscitar, a humanidade estará imersa num mingau oceânico, uma espécie de transe em que as faculdades cognitivas estarão perdidas. É o contrário disso. A unidade, o todo, não se opõe à individualidade, mas sim a maneira pela qual o ilimitado se manifesta. Portanto, a individualidade não perde seu padrão. É a expressão sem paralelos do ilimitado. Como cristãos, dizemos que fomos criados à imagem de Deus. Somos, então, manifestações individuais da realidade original, isso é a expressão de que somos especiais. O objetivo é conhecer como o tempo/espaço sem limites se manifesta em cada uma das existências, seja na dos anjos, dos demônios, dos espíritos ou em qualquer outra forma. Contudo, a individualidade não é fixa. Devemos passar por cada uma dessas existências. A religião pode apontar caminhos para o ser humano, mas também pode cegá-lo. A visão e a compreensão de mundo que temos mudam continuamente. Portanto, as interpretações dos ensinamentos religiosos também devem ser renovadas. As chamadas verdades não voltam a ser verdades por mais repetidas que sejam. Elas precisam ser compreendidas em cada época, de forma harmônica com cada tempo. Nosso problema fundamental é que, no fundo, todos nós queremos ser imortais e temos medo de deixar o nosso “eu” ilusório. Ele quer existir eternamente. Portanto, as pessoas não conseguem aceitar o esgotamento do “eu”, elas se refugiam em atividades que camuflam seus medos. Porém, este recurso não resolve o problema, porque ninguém pode manter a ilusão de ser eterno, estável, permanente e imortal. Quando essa ilusão é entendida como engano, as pessoas se refugiam em novas atividades. Por outro lado, em busca da nossa natureza essencial, encontramos a solução das nossas questões. Aqueles que experimentam o ilimitado  em si, poderão enfrentar seus problemas psíquicos, físicos e espirituais de outra maneira. Os problemas simplesmente perdem a importância. A visão do mundo é modificada e a ordem dos valores mudam. Acessando ou não, o desejo mais profundo do ser humano é alcançar esse estado. Toda pessoa tem a memória da sua natureza original, uma intuição de que algo o espera, e que esse algo funda sua verdadeira terra natal. É dito no Zen: "O som do cuco nos convida retornar ao lar". Por muito tempo, a pessoa busca a felicidade fora, no exterior, nas coisas materiais, no casamento, em um deus pessoal, até que ela percebe que tudo isso não é mais que o incessante chamado para voltar à sua casa. Talvez você diga que tudo isso, mais uma vez, são apenas palavras e conceitos. Você está certo, mas, sendo uma pessoa do século XX, trata-se de palavras e conceitos com as quais me sinto bem. Ademais, não quero forçar ninguém a aceitar minhas convicções. Mantenha sua fé desde que ela te sustente. Mas esteja disposto a se abrir, assim que força que te sustenta diminuir.

do livro, "Partida para um novo país: experiências de uma vida espiritual".

Willigis Jager Koun-kenrepresenta a espiritualidade interconfessional. Como ex-padre Beneditino e mestre Zen Budista, sua visão é de uma espiritualidade integradora que une em si, o grande tesouro da sabedoria oriental e ocidental. Foi ordenado “Sensei” pela ordem Sanbo-Kyodan. Em 1983, Yamada Koun Roshi (1907-1989) deu a ele permissão para ensinar o Buda-Dharma. Em 1996 Kubota Roshi (sucessor de Yamada) concedeu a ele o selo “Inka Ji'un Shomei” de Roshi. Desde 2003 é diretor espiritual da Benediktushof e co-fundador do Sonnenhof, também é fundador da Linhagem “Nuvem Vazia”. Em 23 de outubro de 2009 foi certificado como sucessor 45ª da escola Linchi (Rinzai Zen).

quarta-feira, 7 de março de 2018

WILLIGIS JAGER OSB - SOBRE A PRÁTICA DO ZEN E DA CONTEMPLAÇÃO (OUTONO DE 1993)



De vez em quando perguntam-me sobre a diferença entre a contemplação cristã e o Zen. Nesta reunião tentarei responder. Toda religião possui escrituras sagradas, rituais e mandamentos para auxiliar os praticantes encontrar a Deus, o divino, a essência, a verdadeira natureza, sunyata, etc. As escrituras e os rituais só apontam para Deus. São direcionados pela razão, mas este é um instrumento vago para experienciar Deus. Quem quer experimentar Deus, tem que ir além dos livros, rituais e de todos conceitos mentais. Assim, todas as religiões apontam caminhos que conduzem à experiência da realidade última. Deste caminho, surgiu o Zen Budismo, Vipassana, e o Budismo Tibetano. Entre os hindus surgiram as diferentes formas de Yoga. No Islamismo, surgiu o Sufismo, no Judaísmo, a Cabalá e no Cristianismo, surgiu a contemplação. Estes diferentes caminhos espirituais, apresentam o conhecimento dos textos sagrados e de seus mandamentos. E a contemplação é a maneira cristã. Isto é ensinado nos textos dos místicos, começando pelos Padres do Deserto, incluindo São Boaventura, Mestre Eckhart, São João da Cruz, Teresa de Jesus, Tersteegen, Madame Guyon e os Padres da Igreja Oriental, para citar apenas esses. Todos eles sabiam da prática de sentar-se em silêncio por  longos períodos (muitas vezes num banquinho), a repetir versos, e a permanecerem na presença de Deus. A base do Zen, praticada pela nossa escola, consiste em usar certos sutras, koans e entrevistas pessoais (dokusan) para orientação e instrução individual do discípulo. Essa forma atual foi assimilada na China antiga, entre os séculos sétimo e décimo, e foi fortemente influenciado pelo Taoísmo. O Taoísmo filosófico não é uma religião com dogmas e rituais. Assim, no caminho do Zen não há confissões, até mesmo na budista, embora o Zen tenha sido transmitido dentro do Budismo. É conduzido de forma mais coerente do que em outras tradições, indo além da mente lógica, rumo à experiência que no Zen é chamado de "iluminação". Existe uma certa estrutura básica comum a todas as tradições místicas: sentar-se silenciosamente por longos períodos, caminhar coletivamente, recitar mantras como auxílio à recordação. Os monges cristãos de Tebas e Scythe, tem por hábito sentar-se por até dez horas num banquinho ou em pacotes de papiro, também realizam tarefas físicas simples, nas quais praticam a atenção. Depois de escolher qual caminho nos identificamos, devemos focar na prática escolhida. O objetivo é comum a todas elas: nos levar à experiência da realidade original, que se chama, de acordo com a religião correspondente, ao divino, a natureza iluminada, ao absoluto, a essência. O espaço para a experiência transcendental é a base de nossos dons humanos, ainda que muitas pessoas não saibam disso.

Willigis Jäger Kyo-Un, representa a espiritualidade interconfessional. Como ex-padre Beneditino e mestre Zen Budista, sua visão é de uma espiritualidade integradora que une em si, o grande tesouro da sabedoria oriental e ocidental. Foi ordenado “Sensei” pela ordem Sanbo-Kyodan. Em 1983, Yamada Koun Roshi (1907-1989) deu a ele permissão para ensinar o Buda-Dharma. Em 1996 Kubota Roshi (sucessor de Yamada) concedeu a ele o selo “Inka Ji'un Shomei” de Roshi. Desde 2003 é diretor espiritual da Benediktushof e co-fundador do Sonnenhof, também é fundador da Linhagem “Nuvem Vazia”. Em 23 de outubro de 2009 foi certificado como sucessor 45ª da escola Linchi (Rinzai Zen).

terça-feira, 6 de março de 2018

MONJA COEN - 108 CONTOS E PARÁBOLAS ORIENTAIS (PRESENTE DE INSULTOS)

7  PRESENTE DE INSULTOS

Certa vez existiu um grande guerreiro. Embora idoso, ainda era capaz de derrotar  qualquer desafiante. Sua reputação estendeu-se longe e amplamente através do país e  muitos estudantes reuniam-se para estudar sob sua orientação.  Um dia um infame jovem guerreiro chegou à vila. Ele estava determinado a ser o  primeiro homem a derrotar o grande mestre. Junto à sua força, ele possuía uma habilidade fantástica em perceber e explorar qualquer fraqueza em seu oponente, ofendendo-o até que este perdesse a concentração. Ele esperaria então que seu oponente fizesse o  primeiro movimento, e assim revelando sua fraqueza, atacaria com força impiedosa e  velocidade de um raio. Ninguém jamais havia resistido a ele além do primeiro  movimento. 

Contra todas as advertências de seus preocupados estudantes, o velho mestre alegremente aceitou o desafio do jovem guerreiro.  Quando os dois se posicionaram para a luta, o jovem guerreiro começou a lançar insultos ao velho mestre. Ele jogava terra e cuspia em sua face. Por horas, verbalmente ofendeu o mestre com todo o tipo de insulto e maldição conhecidos pela humanidade. Mas o velho guerreiro meramente ficou parado ali, calmamente.  O jovem guerreiro ficou exausto.  Percebeu que tinha sido derrotado, e fugiu envergonhado. Um tanto desapontados por não terem visto seu mestre lutar contra o insolente, os estudantes perguntaram: 

“Como o senhor pôde suportar tantos insultos e indignidades? Como conseguiu derrotá-lo sem ao menos se mover?” 
“Se alguém vem para lhe dar um presente e você não o aceita,” o mestre replicou, “para quem retorna este presente?” 

Comentário

Não aceitar os insultos que nos fazem é uma arte. Geralmente nos ofendemos e ao ficarmos ofendidas reagimos. Toda a prática Zen é o treino de compreender nossos condicionamentos e, ao invés de reagir, agir. Escolher nossa resposta. Para tanto precisamos estar centradas, equilibradas, capazes de conhecer a nós mesmas e não nos intimidarmos com insultos e grosserias. No cristianismo talvez seja a expressão de "dar a outra face" ou seja, jamais responder a agressão com agressão.


Monja Coen Roshi, 108 Contos e Parábolas Orientais.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

PE. RICHARD ROHR OFM - JESUS E BUDA


Em seu livro, Jesus e Buda, o teólogo Marcus Borg (1942-2015) destaca numerosos ensinamentos de Jesus que são surpreendentemente semelhantes, aos ensinamentos do Buda, que viveu cerca de seis séculos antes de Cristo. Houve algumas tentativas de explicar essas semelhanças através do processo histórico, que é uma possibilidade distante. Borg sugere uma observação mais significativa: que Jesus e Buda trilharam a mesma meta e caminho espiritual, eu diria que o Espírito Santo que guiou toda a história. A Cabala judaica, o Sufismo muçulmano e os ensinamentos do Tao também revelam um mapa para a consciência de não dualismo.

Deixe-me apenas compartilhar apenas alguns dos ensinamentos comparativos que Borg recolheu em seu livro, e você verá como eles vem de uma mesma perspectiva não-dual:

Jesus diz: "E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também" (Lucas 6:31). Buda diz: "Considere os outros como você mesmo". (Dhammapada 10.1).

Jesus diz:"Se alguém lhe bater numa face, ofereça-lhe também a outra. Se alguém lhe tirar a capa, não o impeça de tirar-lhe a túnica", (Lucas 6:29). O Buda diz: "Se alguém golpeá-lo com a mão, com pedras, com um pau ou com uma faca, você deve abandonar todos os desejos e pensamentos que tomem por base a vida em família. E assim é como você deveria treinar: ‘Minha mente não será afetada e eu não direi palavras ruins; eu permanecerei compassivo pelo bem-estar dele, com a mente plena de amor bondade, sem raiva", (Majjhima Nikaya 21.6).

Jesus diz: "Ele responderá: Digo-lhes a verdade: o que vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim deixaram de fazê-lo", (Mateus 25:45). Buda diz: ""Se você não se cuida, então quem cuidará de você? Quem quer que me cuide, deveria cuidar dos doentes", (Vinaya, Mahavagga 8.26.3).

Jesus e Buda diagnosticaram o dilema humano da mesma maneira. Nosso sofrimento baseia-se principalmente na ignorância. A grande maioria da humanidade está cega sobre quem somos e para onde vamos. Jesus e Buda falaram sobre ansiedade, apego e autocentramento.

Infelizmente, o cristianismo se preocupou tanto com a certeza de que todos deveriam acreditar que Jesus era Deus, que ignorou em grande parte seus ensinamentos sobre desapego, simplicidade, não-violência e ansiedade. Nossos irmãos e irmãs budistas podem nos ajudar a lembrar estes ensinamentos no centro da nossa fé. Eles podem nos ajudar a ser cristãos melhores e mais verdadeiros. E podemos ajudá-los, ou pelo menos dar-lhes muito poucos motivos para não gostar de nós! Por que não tentar esse novo plano?

Em muitos níveis, Jesus e Buda falaram sobre a mesma experiência, a de transformação. A finalidade de toda espiritualidade é se  transformar, morrer antes de morrer e renascer como verdadeiros seres compassivos.

Caminho da porta para o silêncio: Nós já somos um.

Sexta-feira, 8 de dezembro de 2017 (dia de iluminação de Buda)


Richard Rohr OFM, (1943) é um frade franciscano americano. Ele entrou na Ordem Franciscana em 1961 e foi ordenado sacerdote em 1970. Fez o mestrado em Teologia na Universidade de Dayton em 1970. Fundou a "Comunidade Nova Jerusalém" em Cincinnati, Ohio. Em 1971 fundou o "Centro de Ação e Contemplação" (CAC) em Albuquerque, no Novo México. Atualmente atua como Diretor Fundador e Decano Acadêmico da "Living School for Action and Contemplation". Pe. Richard é autor de numerosos livros, incluindo Everything Belongs, Adam's Return, The Naked Now, Immortal Diamond e Ansioso para amar: o Caminho alternativo de Francisco de Assis. 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

PE. RICHARD ROHR OFM - UM PONTO NO VAZIO



Hoje, continuamos com o relato de Thomas Merton sobre o "Verdadeiro Eu" que resultou na sua "conversão" em Fourth e Walnut. Isto é tão inspirador, que quero citar todo o texto: "No centro do nosso ser tem um ponto vazio que é intocado pelos pecados e pelas ilusões, um ponto de pura realidade, uma centelha que pertence integralmente a Deus, e que não está ao nosso alcance, que é inacessível às fantasias de nossa própria mente ou às brutalidades dos nossos próprios desejos." 

Este pequeno ponto no vazio é o absoluto, a simplicidade, a pura glória de Deus em nós. Seria como o nome de [Deus] pincelado em nós, com nossa humildade, nossa pobreza, nossa segurança, com nossos filhos.

É como um puro diamante, ardendo na luz translúcida do céu. Está em todos, e se pudéssemos vê-lo, veríamos isso: bilhões de pontos luminosos se misturando diante da face escaldante do sol, e isso faria desaparecer por completo a escuridão e a crueldade do mundo.

Não tem nenhum programa de computador para visualizar isto. É apenas a realização. Mas o portão do paraíso está em todo lugar. A maioria das pessoas passa a vida toda alimentando seus falsos "eus", suas auto-imagens, acreditam serem isto, ao invés de acessarem o "eu" original, que seria ótimo aos olhos de Deus. 

Mas tudo o que podemos "retribuir" à Deus, para os outros e também para mim é ser quem realmente somos. Isto é o que Merton descreve acima. É um espaço de simplicidade absoluta. Talvez não queremos retornar porque é demasiado simples e espontâneo. Nos sentiríamos perdidos. Sem motivos para festejar. Sem nada para demonstrar, muito menos superioridade. Ali estou nu e pobre. Depois de anos de postura e prática, se sentindo vazio.

Mas quando não somos especiais, estamos em uma boa posição para receber tudo de Deus. Como Merton diz acima, nosso ponto vazio é "a pura glória de Deus em nós". Se olharmos para as grandes tradições religiosas, vemos que todos usam palavras diferentes para apontar na mesma direção. A palavra franciscana é "pobreza". A palavra carmelita é "não-existência". Os budistas falam do "vazio".

Em sua bem-aventurança, Jesus fala de ser "pobre em espírito". A Bíblia como um todo, prefere falar em imagens, e o deserto é fundamento. O deserto é onde somos voluntariamente testados; Jesus diz para entrar no "quarto interior". 

Eu devo estar "vazio" para se abrir a toda e nova realidade. O reservatório de solitude e contemplação de Merton permitiu que ele visse o portão do paraíso em todos os lugares, mesmo numa esquina comum. Um mestre Zen chamaria o "Eu Verdadeiro" de "o rosto que tínhamos antes de nascermos". Paulo chama isso de "a vossa vida escondida com Cristo em Deus." (Colossenses 3:3) 

Isto é, quem você era antes de ter feito tudo certinho ou algo errado, quem você era antes de pensar sobre quem você é. Os pensamentos criam o falso-eu, o ego, o eu-inseguro. A mente contemplativa concebida por Deus, por outro lado, reconhece o eu-Deus, o eu-Cristo, o verdadeiro eu de abundância e de profunda estabilidade interior. Começamos com uma mera observação, nos identificando.

Caminho da porta para o silêncio:
Você mora em mim; Eu vivo em você.

Sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Richard Rohr OFM, (1943) é um frade franciscano americano. Ele entrou na Ordem Franciscana em 1961 e foi ordenado sacerdote em 1970. Fez o mestrado em Teologia na Universidade de Dayton em 1970. Fundou a "Comunidade Nova Jerusalém" em Cincinnati, Ohio. Em 1971 fundou o "Centro de Ação e Contemplação" (CAC) em Albuquerque, no Novo México. Atualmente atua como Diretor Fundador e Decano Acadêmico da "Living School for Action and Contemplation". Pe. Richard é autor de numerosos livros, incluindo Everything Belongs, Adam's Return, The Naked Now, Immortal Diamond e Ansioso para amar: o Caminho alternativo de Francisco de Assis. 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

EIDO SHIMANO ROSHI - GRATIDÃO

                        David Steindl-Rast e Eido Shimano

"As pessoas geralmente me perguntam como os budistas respondem a pergunta sobre a existência de "Deus". Outro dia eu estava andando pela margem de um rio. O vento soprava. De repente, pensei, Oh! O ar existe. Sabemos que o ar está lá, mas, a menos que o vento não sopre contra o nosso rosto, não ficamos cientes disso. O vento está aqui. E o sol também. De repente, percebi o sol, brilhando entre as árvores. O seu calor, o seu brilho e tudo isso de forma gratuita, completamente grátis. Simplesmente para nós desfrutarmos. E sem me dar conta, espontaneamente, uni minhas duas mãos palma com palma e percebi que estava fazendo gasshô. E ocorreu-me que isso é tudo o que importa: que podemos nos curvar, tornar-se um arco largo. Apenas isso. Só isso."


Eido Tai Shimano (1932 - 2018) foi um roshi da tradição Rinzai. Foi o abade fundador do New York Zendo Shobo-Ji em Manhattan e o mosteiro Dai Bosatsu Zendo Kongo-Ji nas montanhas Catskill de Nova York.