domingo, 20 de setembro de 2020

IRMÃO DAVID STEINDL-RAST OCSO - MEDITAÇÃO PELA PAZ (ONU-1976)




Irmãs e irmãos no Espírito: Fomos testemunhas de um acontecimento importante e profundamente comovente, importante não só para nós que o testemunhamos, mas também para a história das Nações Unidas e, portanto, para toda a família humana. É justo que queiramos celebrar o encerramento deste grande evento com um gesto de gratidão do coração. Mas não seria suficiente se alguém pronunciasse uma bênção ou oração na sua frente. Devemos fazer este gesto de gratidão do coração juntos neste momento. Eu convido você a fazer isso. Uma vez que somos verdadeiramente um de coração, devemos ser capazes de encontrar uma expressão comum do Espírito que nos move neste momento. Mas a diversidade de nossas línguas tende a nos dividir. No entanto, onde a linguagem das palavras falha, a linguagem silenciosa dos gestos ajuda a expressar nossa unidade. Usando essa linguagem, então, vamos nos levantar e ficar de pé. Que nossa ascensão seja a expressão de que estamos nos levantando para esta ocasião com profunda consciência do que ela significa. Que nossa posição seja um gesto atento: atento ao terreno em que estamos pisando, o pequeno pedaço de terra nesta terra que não pertence a uma nação, mas a todas as nações unidas. É um pedaço de terra muito pequeno, na verdade, mas é um símbolo da concórdia humana, um símbolo da verdade de que esta terra pobre e maltratada pertence a todos nós juntos. Enquanto estamos de pé, então, como plantas em um bom terreno, vamos cravar nossas raízes profundamente em nossa unidade oculta. Permita-se sentir o que significa ficar em pé e estender suas raízes interiores. Enraizados no solo do coração, exponhamo-nos ao vento do Espírito, o único Espírito que move todos os que se deixam mover. Vamos respirar profundamente a respiração do único Espírito. Que nossa posição testemunhe que assumimos uma posição comum. Que nossa posição seja uma expressão de reverência por todos aqueles que antes de nós assumiram uma posição pela unidade humana. Coloquemo-nos com reverência no terreno de nosso esforço humano comum, juntando-nos a todos aqueles que se posicionaram neste terreno, desde o primeiro modelador de ferramentas até os engenheiros das máquinas e instituições mais complexas. Coloquemo-nos com reverência no terreno comum da busca humana por significado, lado a lado com todos os que já estiveram neste terreno em seu pensamento de busca, em sua celebração da beleza, em seu serviço dedicado. Fiquemos em reverência diante de todos aqueles que, em nossa base comum, se levantaram para serem contados, se levantaram - e foram eliminados Lembremo-nos de que ficar de pé como agora nos levantamos implica prontidão para dar a vida por aquilo que defendemos. Fiquemos maravilhados diante daqueles milhares e milhares - conhecidos e desconhecidos - que deram suas vidas pela causa comum de nossa família humana. Vamos inclinar nossas cabeças. Vamos inclinar nossas cabeças para eles. Vamos nos levantar e inclinar nossas cabeças, porque estamos sob julgamento. Estamos sob julgamento, pois “Um é o Espírito humano”. Se somos um com os heróis e profetas, também somos um com aqueles que os perseguiram e mataram. Um com os capangas assim como somos um com as vítimas. Todos nós compartilhamos a glória da grandeza humana e a vergonha do fracasso humano. Permita-me convidá-lo agora a focalizar sua mente no ato de destruição mais desumano que você pode encontrar em sua memória. E agora pegue isso, junto com toda violência humana, toda ganância humana, injustiça, estupidez, hipocrisia, toda miséria humana, e levante tudo, com toda a força de seu coração, para a corrente de compaixão e cura que pulsa através do coração do mundo - aquele centro no qual todos os nossos corações são um. Este não é um gesto fácil. Quase pode parecer difícil para alguns de nós. Mas até que possamos alcançar e tocar com nossas raízes mais profundas essa fonte comum de concórdia e compaixão, ainda não reivindicamos em nossos próprios corações aquela unidade que é nosso direito humano comum. Permanecendo firmes, então, nesta unidade, vamos fechar nossos olhos. Vamos fechar nossos olhos para trazer à tona nossa cegueira ao enfrentar o futuro.Vamos fechar nossos olhos para focalizar nossas mentes na luz interior, nossa única luz comum, em cujo brilho poderemos caminhar juntos mesmo no escuro. Fechamos os olhos em gesto de confiança na orientação do único Espírito que nos moverá se abrirmos o coração. “Uno é o Espírito humano”, mas o Espírito humano é mais do que humano, porque o coração humano é insondável. Nessa profundidade, vamos enterrar silenciosamente nossas raízes. Aí está nossa única fonte de paz. Daqui a pouco, quando te convido a abrir novamente os olhos, te convido também a dirigir-se neste Espírito à pessoa que está ao seu lado com uma saudação de paz. Que a nossa celebração culmine e conclua com este gesto, pelo qual nos enviaremos uns aos outros como mensageiros da paz. Vamos fazer isso agora.

A paz esteja com todos vós!

Esta meditação foi conduzida pelo irmão David Steindl-Rast em uma reunião de líderes espirituais no 30º aniversário das Nações Unidas, 24 de outubro de 1975. 

IRMÃO DAVID STEINDL-RAST OCSO - DEUS NÃO É OUTRA PESSOA



                                              David Steindl Rast e Dom Bede Griffiths

INTRODUÇÃO

Imaginem um mosteiro erguido no alto de um penhasco com vista para o rio Danúbio na Áustria. Os monges beneditinos trabalharam e oraram nesse lugar durante novecentos anos ininterruptos. S.S Dalai Lama passou três dias aqui, juntando-se a nós, beneditinos, simplesmente como um monge entre outros monges. Orou conosco na capela nas horas de oração e comeu conosco no refeitório do mosteiro. Foi durante uma dessas refeições que ele se virou para mim e disse de forma abrupta: ”Temos tanto em comum, você e eu, mas uma coisa nos separa: a ideia de um Criador divino. Senti uma espécie de desafio, embora não de fato, no sentido de um confronto desafiador. A voz de Dalai Lama expressou uma verdadeira tristeza em relação a um desacordo percebido, uma dor que provocou a minha compaixão. Quatro décadas de participação dos diálogos budistas/cristãos haviam me preparado para tudo o que se tornava o foco da conversa naquele momento. Tratava-se de um desafio, tinha que reagir a ele, e reagi.

Não me perguntem como, bombeiros tomam decisões instantâneas num momento crucial, salvam uma vida e depois são incapazes de dizer como o fizeram. Numa espécie de breve discurso improvisado, tive que fazer duas coisas ao mesmo tempo: permanecer fiel à minha crença na Criação Divina da tradição cristã e mostrar que era compatível com a crença budista da Originação Interdependente. Tudo era uma questão de criar uma ponte que eliminasse a distância entre Criador e criação, uma distancia meramente especulativa e não baseada na experiencia. Afinal, o falecido Thomas Merton, monge trapista e amigo tanto do Dalai Lama quanto meu, foi capaz e cristalizara visão essencial numa fase de cinco palavras: ”Deus não é outra pessoa”. Para o místico, não há distancia entre o Criador e a criação. Todo o universo é uma expressão da vida divina. A rede cósmica de causa e efeito mutuamente interdependente na qual todas as coisas tem sua origem é o que o poeta Kabir vê como o “secreto se tornando lentamente um corpo”.

Portanto, a crença na Criação e a crença na Originação Interdependente são duas expressões diferentes de uma única e mesma fé fundamental – dois indicadores diferentes em relação à mesma experiência. A fé como experiencia se encontra num nível mais profundo do que palavras e conceitos. É um gesto interno através do qual nos confiamos total e incondicionalmente à vida – a vida percebida como nossa, embora como um poder maior do que nós. O Dalai Lama sorriu de maneira radiante: “você deve escrever a respeito disso”, encorajando-me. “Com prazer,” respondi, “se S.S escrever o prefácio”, e ele concordou. Nesse momento, fui eu que sorri.

No diálogo inter-religioso, a nossa tendência é citar a partir das nossas tradições respectivas as passagens que os outros podem aceitar mais facilmente. Mas, aos poucos, isso começou a se mostrar para mim um pouco superficial. Senti que para concordar de forma sincera teríamos que nos aprofundar, teríamos que testar se mesmo os textos menos prováveis – digamos, um credo – ajudariam a aprofundar uma compreensão inter-religiosa. Guerras foram travadas mesmo entre correligionários sobre esses resumos sucintos de crenças essenciais. Um credo seria, portanto, a pedra de toque perfeita para a possibilidade de acordo inter-religioso naquele nível profundo que nos interessa. Essa é a razão pela qual escolhi o Credo Apostólico – o mais antigo dos credos cristãos e foi assim que este livro surgiu.

O Credo expressa a fé humana básica em termos cristãos, da mesma forma que as crenças budistas são uma expressão da mesma fé humana básica comum a todos. A fé – a verdade corajosa no mistério da vida – nos torna humanos, e cada cultura, cada período da história, dá a essa fé novas expressões em crenças que são determinadas por circunstancias históricas e culturais. As crenças dividem, mas a fé da qual provêm é uma só e une. A tarefa do diálogo inter-religioso é tornar as nossas crenças divergentes transparentes para a mesma fé que dividimos.

Neste livro, tentei aplicar esse princípio no Credo Apostólico, um resumo das crenças através das quais os cristãos professam a sua fé no batismo. A partir de cada uma de suas afirmações, usei uma ferramenta constituída de três partes em cada uma delas, fazendo três perguntas decisivas. Ao perguntar “o que isso de fato significa”? tento abrir a dura concha das noções preconcebidas que ouvimos ou usamos com frequência. Quando essa concha se abre e você sabe o que quer dizer, pergunto “como você sabe?” – como você sabe que essa afirmação é verdadeira? Essa pergunta não nos permite mais fazer malabarismos com conceitos, mas nos força a uni-los à experiência – a experiência do leitor – visto que é a base para um verdadeiro conhecimento. Por fim, eu pergunto: ”por quê isso é tão importante?”, suficientemente importante para fazer parte de um documento tão sucinto quanto o Credo, importante, portanto, para aqueles que recitam o Credo. (É possível perceber que essas três perguntas ficam cada vez mais pessoais. A fé, junto com as crenças que expressam essa fé, é uma questão muito mais pessoal, ou não se trata absolutamente de fé.” As minhas perguntas/; “O quê? Como? Porquê? (ás quais adiciono breves reflexões pessoais) dão a este livro o seu formato.

Profunda paz interna, um sentimento de fazer parte e uma ancoragem firme no eterno Agora do momento presente, este são alguns dos frutos que homens que lutam através dos séculos colheram da fé expressa no Credo. Falo como um cristão que rezou o Credo por quase oitenta nos e posso garanti que esses frutos espirituais ainda estão disponíveis hoje tão frescos quanto sempre. Quer se tenha ou não as crenças especificas expressas no Credo, qualquer um que usar a minha ferramenta constituída de três partes poderá reconhece-las como expressões validas da fé que nos une como humanos. Tentei promover esse reconhecimento. Você, leitor, dirá se consegui.


Irmão David Steindl-Rast, é monge católico beneditino e empenha-se nos diálogos inter-religiosos, especialmente entre cristianismo e budismo, e entre espiritualidade e ciência. Nascido na Áustria, realizou o mestrado na Academia de Belas Artes de Viena e o Ph.D. em Psicologia Experimental na Universidade de Viena. Tornou-se monge em Nova York, logo após emigrar para os EUA. Com permissão de seu abade, começou a estudar o zen budismo, tendo como mestres Hakuun Yasutani, Soen Nakagawa, Shunryu Suzuki e Eido Tai Shimano. Fundou, com intelectuais budistas, judeus, hindus e sufis, o Centro para Estudos Espirituais. Escreveu livros em parceria com Fritjof Capra (alcançando o American Book Award de 1992), Robert Baker Aitken e Robert Ellsberg. Seus textos podem ser encontrados em The New Catholic EncyclopediaEncyclopedia Americana, entre outras publicações. É amigo pessoal de Tenzin Gyatso, o atual Dalai Lama.

PADRE ISMAEL QUILES SJ - FILOSOFIA BUDISTA



 Ismael Quiles Sánchez (Pedralba , Valencia, 1906 - Buenos Aires, 1993) foi um filósofo e sacerdote da Companhia de Jesus que desenvolveu sua atividade na Argentina. Já considerado uma autoridade mundial em assuntos orientais e pensamento budista, participou do Congresso Internacional de Orientalistas em Tóquio (1983), na Conferência da Associação Internacional para Estudos Budistas em Berkeley, Califórnia (1987), na IX Conferência da Associação Internacional de Estudos Budistas em Taipei, Taiwan (1990). Em 1988 foi condecorado pelo Imperador do Japão com a Ordem do Sol Nascente. 


sexta-feira, 18 de setembro de 2020

KEVIN JIUN HUNT OCSO - PALESTRA DE UM RETIRO CRISTÃO BUDISTA


O Buda saiu de casa e praticou durante seis anos, passando seu tempo em meditação, ele então, passou quarenta anos pregando. A questão que o afastou de sua casa e família foi a mesma que confronta todos e cada um de nós, não importa a tradição religiosa que possamos seguir: cristão, budista, hindu, judeu, muçulmano ou, até mesmo um ateu. É: quem sou eu? É esta questão que nos traz aqui hoje. Podemos nem mesmo ser capazes de articular essa questão para nós mesmos, mas isso não importa. Se refletirmos profundamente e por tempo suficiente, é o impulso de realmente saber quem eu sou que está na base de cada busca, quer eu perceba ou não. Tanto o Cristianismo quanto o Budismo tentam responder a essa pergunta. Digo tentativa porque qualquer resposta que articulamos é limitada e muito inadequada. Não podemos limitar a questão de “quem sou eu” a essas duas tradições. Menciono-os porque estamos no contexto de um retiro cristão / budista. É uma questão que se encontra onde quer que existam seres pensantes. Lembre-se de que os primeiros filósofos gregos tentaram encontrar uma resposta, assim como os chineses e todos os outros povos do mundo. Não é necessário formular a pergunta exatamente como eu o fiz. Na minha própria tradição monástica, dizia-se que um dos nossos grandes mestres, Bernardo de Claraval, se perguntava todos os dias: “Quid vinisti, Bernardus, quid vinisti?” "Por que você está aqui, Bernardo, por que você está aqui (no mosteiro)?" Pode ser que a questão seja, a princípio, formulada em relação à dor e ao sofrimento de alguma forma. Ou podem ser dúvidas sobre si mesmo, seu país, classe ou cultura. Nem essa pergunta precisa ser articulada em sentimentos profundos. O Buda começou seu questionamento quando encontrou o sofrimento e a dor comum de sua época. Pode ser que você primeiro levante a questão ao ver alguns no jornal ou na TV. Nem é necessário usar palavras especiais ou grandes ideias. Pode surgir de eventualidades mais comuns, como uma topada no dedão do pé. Na verdade, qualquer filósofo que se preze dirá que esta questão de "quem sou eu?" está na raiz de todas as questões. E muitas respostas foram propostas. Karl Marx achava que a resposta estava na economia, outros na psicologia e outros nas riquezas. Muito do que fazemos em nossa vida diária decorre de uma tentativa desarticulada de descobrir quem realmente somos. A resposta está em consumir o máximo possível da produção mundial, ganhar mais, comprar mais? Posso descobrir quem eu realmente sou, tornando-me o homem mais desejável para as mulheres? Tendo grandes posses? O Buda fugiu de um grande palácio; e algumas das parábolas de Jesus mostram que posses e riquezas não são a resposta. Mas é esta questão de "quem sou eu?" que traz cada um de nós aqui hoje. Cada um de nós terá uma resposta diferente se observarmos por que estamos aqui. Para obter uma grande iluminação? Para resolver todos os seus problemas? (Nós, americanos, somos ótimos solucionadores de problemas; na verdade tentamos resolver os problemas do mundo.) Oh! Vou fazer um retiro e me iluminar, e nunca mais terei outro problema na minha vida! Foi curiosidade? Eu me pergunto o que um professor budista e um monge cristão podem ter em comum? Ou é apenas um passeio, ficar longe das crianças. Não importa porque a verdadeira questão no fundo é a da vida ou da morte, de “quem sou eu”. A descoberta dessa questão subjacente à nossa existência pode, às vezes, ser assustadora por causa do nosso ego grosseiro. A convicção que todos nós temos que nos identifica com coisas que não duram e que usamos para nos esconder de enfrentar as questões mais profundas da existência. Esse ego superficial é, para a maioria de nós, nosso escudo que nos protege de enfrentar a vida e a morte. É assustador quando começamos a perceber como esse ego é superficial e irreal. No entanto, o surpreendente é que tanto as tradições budistas quanto as cristãs nos dizem que já temos a resposta. O próprio fato de você já poder perguntar significa que, em algum nível, a resposta está lá. O Buda quando deixou seu palácio, ele já tinha a resposta. Ele aprendia devagar - levou seis anos de trabalho duro para perceber que já sabia a resposta. Jesus viajou da Galiléia para onde João Batista estava, pregando no Jordão, e foi batizado. Ele já sabia a resposta. Mas se Buda e Jesus parecem aprender devagar, bem, e quanto a nós?. Aprendemos ainda mais devagar. Mas, nesta época, realmente não importa Jesus ensinou por três anos, o Buda por quarenta. Melquisedeque provavelmente ensinou por milhares de anos. Tanto o budismo quanto o cristianismo dizem que devemos ter grande fé. E essa grande fé é acreditar que a resposta já está presente. Sim! A resposta está bem aqui, agora. Uma advertência: quando falo de uma resposta, não quero dizer o que normalmente pensamos ao falar da palavra 'resposta'. Imediatamente pensamos em um conceito ou ideia, mas a resposta que estou verbalizando é antes do pensamento, antes das idéias, antes das palavras. Apenas isso. Portanto, dizemos apenas ser, apenas ser. Você notará que a maior parte deste dia é dedicada a fazer, a ser. A ênfase está na prática. Não há muito no que lhe dar muito em que pensar ... muito pelo contrário. O que eu quero que você faça, e fazer com grande confiança é focar na resposta a 'Quem sou eu?' Está bem diante de nossos olhos. Está bem aí. Não há necessidade de se estressar. Exatamente o oposto. Esta não é uma prática egocêntrica. Devemos também ter confiança na realidade de que essa prática está transformando o mundo. Nossa prática não é uma prática solitária no sentido de que é para mim, e apenas para mim. Quando nos sentamos, o mundo inteiro está sentado conosco em nossa almofada, em nossa cadeira. Essa prática é a resposta ao sofrimento do mundo. À nossa frente, neste corredor, está uma imagem de Jesus na cruz e uma imagem de Buda em meditação. Ambas as fotos contêm todo o sofrimento do mundo. Às vezes, esse sofrimento vai pesar muito sobre você enquanto pratica. Pode estar centrado nas dificuldades de se sentar quieto, na dor nas pernas, na sensação de não fazer nada, no tédio. (um conhecido professor coreano diria a seus alunos: o tédio é bom, muito bom.) A tentação é fugir desses sentimentos, tentar evitá-los, permitindo que fantasias diferentes passem por nossas cabeças, para pensar as coisas. Na realidade, a única maneira real de chegar ao insight de 'quem sou eu?' é apenas estar completamente presente aqui, agora. Ao iniciarmos esta prática, temos que ter grande fé e confiança de que a resposta para a pergunta "Quem sou eu?" já está presente. Está bem aqui diante de nós a cada momento. E nosso trabalho é transformar o mundo. O budismo fala de compaixão; o cristianismo fala de caridade. O mundo inteiro está presente nesta mesma sala. Diante de nós, temos duas imagens: uma de Jesus na cruz, a outra retrata o Buda em meditação. Cada imagem mostra o mundo sendo trazido à sua realização final. Essa compreensão está ocorrendo em cada um de nós. São Paulo, em uma de suas epístolas diz que toda a criação geme em antecipação da revelação dos filhos de Deus. Na mediação, cada um leva aquele gemido para o fundo do seu ser. Como o livro da Sabedoria nos diz: “Fique quieto e saiba que eu sou Deus”. O caminho da meditação é o trabalho. É preciso esforço, resistência, confiança (esperança). Assim é como numa gravidez. Todos nós sabemos que uma gravidez leva tempo. Não pode ser apressada. Portanto, o caminho da meditação é dar à luz a realidade de “quem sou eu?”. Esse “eu” não é egocêntrico. Não é um “eu”. A compreensão desta questão é a salvação do mundo egocêntrico. Não é um “eu”. A compreensão desta questão é a salvação do mundo.



Kevin "Jiun" Hunt OCSO, é um monge Trapista da Abadia de Spencer, em 2004, após trinta anos de meditação e treinamento Zen, foi transmitido como sensei, tornando-se o primeiro monge trapista norte-americano a ser um mestre Zen certificado por Roshi Robert Jinsen Kennedy, aluno de Bernard Tetsugen Glassman e Maezumi Roshi (White Plum Sangha).

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

KEVIN JIUN HUNT OCSO - UM CRISTÃO SE TORNANDO UM MESTRE ZEN



Eu cheguei à prática do Zen bem antes de me interessar pelo diálogo inter-religioso. Sendo um monge católico, eu meditava todos os dias e lia muito sobre a teoria e prática da meditação. Eu tinha acabado de entrar no mosteiro quando comecei a perceber que nenhuma das formas tradicionais de meditação ensinada aos noviços parecia funcionar para mim. Eu me sentia mais atraído por simples práticas não discursivas. Então, meu mestre de noviços me encorajou a usar estas formas mais simples de meditação, me dizendo que a constância nesta prática faz com que a oração se torne cada vez mais simples. Durante estes anos eu estava basicamente tentando encontrar meu lugar em uma forma de meditação na qual eu me sentisse mais confortável ao realizá-la. Como alguém que estava dedicando sua vida à oração e à meditação, tive uma certa curiosidade sobre a forma como outras tradições exercitam a meditação. Descobri a “Oração de Jesus “praticada na tradição cristã oriental, e me apaixonei por esta prática. Embora eu tivesse, naquela época, ouvido falar da meditação Zen, não estava suficientemente impressionado para tentar realizá-la. Vários anos mais tarde, fui enviado pra América do Sul. Enquanto eu estava lá, como eu ainda estava procurando meu caminho de oração, um amigo me emprestou um livro sobre o Zen. Dessa vez, me interessei a ponto de tentar praticá-lo sozinho. Eu dobrei alguns cobertores e tentei sentar de pernas cruzadas na postura Zen. Eu não sabia o que era “Koan”. Achei que era apenas uma repetição mencionada no livro que li. Este “Koan” o famoso: “Qual era a tua face antes de você nascer?” Eu apenas sentei e repetia para mim mesmo: “Qual era a minha face antes de eu nascer? “. Isso continuou por vários meses. Eu enfrentei fadiga e a costumeira dor, e parecia não estar chegando a resultado nenhum. Comecei então a chegar à conclusão de que o Zen não tinha nada para me oferecer. O que eu, um monge cristão, estava fazendo praticando meditação budista?

Um dia, enquanto estava sentado de pernas cruzadas, subitamente ao me levantar, de repente percebi qual era meu rosto antes de nascer. Isso aconteceu muito rapidamente e com certeza não foi uma experiência extática, porque eu sabia quem eu era e onde estava. Não havia nenhuma forma ou cor. Olhando para trás, eu diria que era uma intuição do vazio. Fiquei assustado e sem entender, mas não com medo. Na época, eu não tinha um professor, e nem alguém, mesmo na minha comunidade, com quem eu pudesse falar (e mesmo se houvesse tal pessoa, mesmo as minhas palavras não conseguiriam explicar tudo), então coloquei a experiência de lado. Mas a repetição da mesma experiência me convenceu de que eu deveria continuar a minha prática do Zen, por perceber que ela estava me transformando. Vários anos depois, voltei para os EUA. Pouco tempo depois de voltar, eu consegui ir ao meu primeiro “Sesshin“ (retiro Zen), em um final de semana na cidade de Nova York. Este final de semana foi um desastre. Sofri fisicamente a um grau que eu nunca havia experimentado antes. Para piorar as coisas, eu nunca tive a chance de marcar uma entrevista com o sensei. Saí de Nova York pensando mais uma vez que talvez eu estivesse enganado sobre essas coisas sobre o Zen. Alguns meses mais tarde, eu e um outro monge estávamos dirigindo em Nova Jersey. Ele então mencionou que tinha uma amiga freira que lecionava em um colégio próximo, de tal maneira que nós decidimos parar e dizer um “olá “ a ela. Enquanto estávamos conversando com a irmã, ela mencionou que a escola estava sendo usada esta semana por um grupo de estudantes Zen, e que um “ Roshi “ (Mestre Zen) japonês estava guiando-os. Nós perguntamos se seria possível encontrá-lo. Pouco depois, o idoso monge japonês apareceu para nos cumprimentar. Ele não sabia falar bem o inglês e por isso estava acompanhado por um intérprete. Seu nome era Joshu Sasaki. Enquanto conversávamos, descobriu-se que ele ficou surpreso ao saber que éramos monges cristãos. Ele achava que não houvessem monges cristãos nos EUA, achando que só existiam na Europa. Quando eu lhe perguntei se ele gostaria de visitar nosso mosteiro, sua reação imediata foi: “Quando? ” Nós então combinamos que ele iria ao Mosteiro de Spencer em mais ou menos um mês. (Joshu Sasaki está agora com seus noventa anos, ainda vivo na época em que escrevi este artigo).

Agora eu tinha que voltar para casa e dizer ao meu Abade que iríamos receber a visita de um Roshi. O Abade, Thomas Keating, gentilmente concordou com a visita. Sasaki Roshi foi em um final de semana, e falou à nossa comunidade sobre o Zen. Essa visita foi logo após a Páscoa desse ano e Sasaki Roshi falou sobre a experiência cristã da Páscoa, sobre a ressurreição de Cristo, e sobre como a vivência primária de qualquer monge cristão pode alcançar a introspecção na prática do Zen. Os irmãos do Mosteiro Spencer ficaram impressionados com a visão e o entendimento desse monge budista em um núcleo da experiência cristã contemplativa. Muitos pensaram que poderia ser uma boa ideia experimentar um Sesshin e por isso convidaram o Roshi para retornar e realizar um no mosteiro. Ele fez isso por vários meses. Esse foi o inicio de uma associação durante dez anos, nos quais Sasaki Roshi veio à Spencer regularmente. Durante este mesmo período, eu fui capaz de participar do zazen com o Roshi em dois longos retiros de noventa dias cada, em um centro Zen da Califórnia. Após o Roshi ter deixado de vir à Spencer, eu prossegui com minha própria prática, tanto que nos próximos quinze a vinte anos seguintes, praticava em meu quarto ou na parte dos fundos da igreja. Mesmo já não tendo mais Sesshins em Spencer, eu, de vez em quando, recebia autorização para ir a um Sesshin e também pude participar de um longo retiro. Alguns destes retiros eu fiz no Providence Zen Center, em Cumberland, Rhode Island. Este centro fica a apenas um par de quilômetros do antigo local de nosso mosteiro, quando estava localizado em um local conhecido como Nossa Senhora do Vale. Eu ainda desfruto de um bom relacionamento com o Providence Zen Center, que pertence à tradição Seon (Zen Coreana). A prática da tradição coreana difere um pouco da japonesa, e experimentar estas diferenças tem me ajudado em minha pratica contínua. Ao longo dos anos descobri que o Zen tem me ajudado a apreciar muitas das práticas físicas tradicionais que caíram em desuso no monaquismo ocidental, tais como jejuns prolongados, cantar os salmos, prostrações e outras prática. Eu ainda faço algumas destas praticas, especialmente se sou capaz de conseguir alguns dias em um de nossos eremitérios, pois é difícil realizá-las no contexto de nosso mosteiro, porque podem perturbar outros. Afinal, cantar os salmos em alto e bom som batendo em um tambor pode incomodar os outros. Cerca de cinco ou seis anos atrás, o Padre Robert Kennedy, SJ, fez uma palestra no Centro para Estudos Budistas. Eu e outro monge fomos ouvir o Padre Robert. Nós apreciamos a sua fala e conversamos com ele após a conferência. Padre Kennedy mencionou que em breve estará dando um retiro no mosteiro Zen em Snowmass, Colorado. Então nós decidimos que iríamos participar do Sesshin. Durante o Sesshin, eu senti que gostaria de me tornar um aluno do Padre Kennedy. Já haviam se passado muitos anos desde que eu desejasse pedir formalmente a alguém para ser meu professor, principalmente por causa da dificuldade em obter permissão para visitar um professor. Senti que, tendo como professor um padre que vivia relativamente perto (da área de Nova York) seria útil. Descobri que eu seria capaz de assistir vários retiros do Padre Kennedy. Durante um destes retiros, eu lhe perguntei se ele me aceitaria formalmente como seu aluno, e ele concordou. Por volta dessa época eu também percebi que estava pronto para fazer algum treinamento intensivo de Koan. Existem várias coleções tradicionais de Koans utilizados em várias escolas de prática Zen. Um aluno geralmente tem que trabalhar o seu caminho através destas coleções de Koans enquanto ele avança em sua prática Zen, e é quase impossível realizar este trabalho sem acesso a um mestre Zen. Isso significava que eu tinha que ter um maior pronto acesso ao Padre Kennedy, do que somente um retiro de dois em dois meses. Falei então deste problema para ambos: o Padre Kennedy e o meu Abade, Padre Damian. Padre Kennedy levantou a possibilidade de eu ir para a cidade de Jersey e viver na comunidade jesuíta de St. Peters College. Perguntei ao meu Abade se me concederia uma licença de estudo em outra comunidade, e ele concordou. Também sou muito grato à comunidade jesuíta do St. Peters College pela graciosa, maravilhosa e calorosa forma com a qual me acolheu em seu meio.

Logo após minha adesão à ele, na cidade de Jersey, o Padre Kennedy me tornou seu herdeiro do Dharma. Nos próximos 18 meses nós dois trabalhamos intensamente nossa maneira de como aplicar as coleções tradicionais de Koans. Em um dado momento, Padre Kennedy me perguntou se eu gostaria de me tornar um mestre Zen. Após consultar meu Abade e um par de outros, eu decidi que deveria assumir esta função. Pouco tempo depois voltei para o meu mosteiro, embora muitas vezes eu retornasse à área de Nova York para ajudar o Padre Kennedy a realizar sesshins. Acho que eu poderia chamar este período de “formação“. Durante estes retiros eu falaria às pessoas sobre a prática do Zen, sobretudo a respeito da relação entre a prática do Zen para a tradição cristã, um assunto que, frequentemente, era de grande interesse nos grupos. Havia sempre uma oportunidade para os alunos terem comigo uma entrevista privada. Tais entrevistas eram curtas, com duração de dez a quinze minutos. Gostávamos de falar sobre a experiência do retiro, dificuldades com a postura, como a mente estava trabalhando durante o silêncio, e outras coisas que surgem no decorrer do retiro. Retiros Zen implicam em esforço mental e físico. A maior parte nasce do esforço para se sentar calmamente com as pernas cruzadas em frente a uma parede. Houve também dificuldades com os horários, tal como levantar-se cedo e conseguir ficar sentado por longos períodos sem se mover. Mentalmente, não existem dúvidas que sejam tão comuns em qualquer forma de praticar a oração e a meditação. Uma das virtudes citadas pelos professores Zen é a coragem. Nós, cristãos, não costumamos pensar em coragem como uma virtude necessária para a prática da meditação. É fácil esquecer que a coragem é uma necessidade em qualquer vida de oração. No final da minha “formação de “professor“ fui entronizado como um sensei na Sangha da Ameixa Branca da tradição Soto. A entronização aconteceu em meu mosteiro. Pelo que sei, esta foi a primeira vez que tal cerimônia aconteceu em um mosteiro de nossa ordem. A minha esperança é que este passo ajudará a trazer esta forma de meditação para a tradição cristã ocidental“.


(Este texto é de autoria do Padre Kevin Jiun Hunt, o qual é um monge da Abadia de São José, em Spencer, Massachusetts (EUA), ex-membro do Conselho Monástico de Diálogo Inter – Religioso, e Mestre Zen Budista)



Kevin "Jiun" Hunt OCSO, é um monge Trapista da Abadia de Spencer, em 2004, após trinta anos de meditação e treinamento Zen, foi transmitido como sensei, tornando-se o primeiro monge trapista norte-americano a ser um mestre Zen certificado por Roshi Robert Jinsen Kennedy, aluno de Bernard Tetsugen Glassman e Maezumi Roshi (White Plum Sangha).

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

MAHANAMBRATA BRAHMACHARI E THOMAS MERTON


Mahanambrata Brahmachari foi um monge e intelectual de fala mansa que deu importante incentivo intelectual ao monge e escritor católico romano Thomas Merton, Mahanambrata morreu em Calcutá em 18 de outubro. Ele tinha 95 anos. Embora o Dr. Mahanambrata Brahmachari tenha vivido a maior parte de sua vida em sua cidade natal, Bengala, teve uma estadia notável nos Estados Unidos da era da Depressão - principalmente em Chicago entre 1933 e 1939. Ele chegou lá sem um tostão, enviado da Índia para participar de uma conferência na Sociedade Mundial de Fé. Mas com os  seus dons intelectuais, e seu senso de segurança espiritual (que o céu teria que cuidar dele, escreveu Merton mais tarde) e o interesse que estudiosos e figuras religiosas americanas tiveram, viram nele o escopo de impacto incomum durante sua estadia de seis anos neste país. Ele não apenas foi à conferência de Chicago, mas também se tornou secretário internacional da irmandade e viajou para Londres em 1936 para sua assembléia lá. Ele também proferiu centenas de palestras, geralmente em campus universitários, sobre a religião hindu e outras religiões, aspectos da sociedade indiana e o trabalho de Gandhi no movimento pela independência da Índia. Ele já possuía mestrado em filosofia sânscrita e ocidental pela Universidade de Calcutá e depois ingressou na Universidade de Chicago, e obteve o doutorado em filosofia em 1937. Naquele ano, Charles W. Gilkey, reitor da universidade, descreveu o Dr. Brahmachari, em uma carta como uma "figura amada em nossos quadriláteros", que impressionara as pessoas "através das vitórias de sua personalidade, da agudeza de sua mente, da catolicidade de seu ponto de vista e, principalmente, de sua profunda espiritualidade.'' O Dr. Brahmachari veio de uma tradição religiosa chamada neo-vaisnavismo, focada na adoração ao deus Vishnu e suas encarnações. O vaisnavismo enfatiza a devoção religiosa. Em uma série de memórias do dr. Brahmachari, reunidas por William Buchanan e publicadas pelo monastério de Vivekananda em Minnesota, o poeta Robert Lax escreveu que o dr. Brahmachari possuía um silêncio e uma calma que atraíam as pessoas. Ele passava despercebido em uma sala lotada, escreveu Lax, e logo as pessoas estavam sentadas ao seu redor, perguntando-lhe silenciosamente ou ouvindo-o, "porque era a coisa natural a se fazer na presença de alguém que tivesse aquelas qualidades.'' Em vez de tentar converter os americanos à sua própria fé, o Dr. Brahmachari disse àqueles que conheceu que eles deveriam examinar suas próprias tradições religiosas. Merton conheceu o Dr. Brahmachari em 1938, quando Merton tinha 23 anos e estudava na Universidade de Columbia. Ele foi levado por um amigo para conhecer o Dr. Brahmachari que estava chegando ao terminal. A princípio, os dois não conseguiram achar o dr. Brahmachari, nem encontraram alguém que o tivesse visto. No entanto, alguém poderia ter pensado, Merton escreveu mais tarde em "A Montanha os sete patamares", que um homem "em um turbante e uma túnica branca calçando um par de Keds seria uma visão memorável". Eventualmente, esses três homens se ligariam. Merton tornou-se amigo do Dr. Brahmachari e mais tarde o creditou por ajudar a inspirar o caminho espiritual que Merton seguiria como monge trapista. Em "A Montanha dos sete patamares", Merton relata como o Dr. Brahmachari, que raramente dava conselhos diretos, disse-lhe para ler dois clássicos da espiritualidade cristã, as "Confissões" de Santo Agostinho e o livro místico medieval tardio "A imitação de Cristo''. "Agora que olho para esses dias", escreveu Merton em seu livro, "parece-me muito provável que uma das razões pelas quais Deus o trouxesse da Índia fosse que ele poderia dizer exatamente isso.'' Mahanambrata Brahmachari nasceu em 25 de dezembro de 1904, em uma família religiosa de classe média em uma vila no que é hoje Bangladesh. Depois que ele retornou à Índia, governada pelos britânicos, no início de 1939, continuou a viver como monge, e também escreveu e lecionou sobre assuntos religiosos. A área de Bengala em que ele viveu tornou-se parte do Paquistão Oriental após a independência indiana da Grã-Bretanha em 1948. Ele permaneceu lá, fornecendo apoio espiritual à minoria hindu e trabalhando pela paz, mesmo durante a tentativa do Paquistão de suprimir o desejo de independência no que se tornou Bangladesh em 1971. Em um tributo incluído nas memórias publicadas pelo Mosteiro de Vivekananda, Merton escreveu sobre o Dr. Brahmachari, que este ensinou uma lição para sua vida, ''que alguém pode e deve confiar-se a uma Sabedoria superior e invisível, e que, se puder relaxar seu domínio frenético sobre os valores ilusórios da existência material cotidiana e se abandonar pacificamente a uma Vontade Suprema, ele próprio encontrará liberdade e paz nessa Vontade.''



terça-feira, 10 de dezembro de 2019

RAFAELLO MARTINELLI - O QUE É MEDITAÇÃO CRISTÃ



O que é meditação cristã?

É a escuta silenciosa, respeitosa e a humilde acolhida da Palavra de Deus, para conformar-se a ela toda a vida; ser e viver com Deus: “Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim."( Jo 15: 4); abordar o mistério da união com Deus, que os padres gregos chamavam de divinização do homem: "Deus se tornou homem para o homem se tornar Deus" (Santo Atanásio); "Vá para a obtenção da virtude e do amor de Deus, e não para a aquisição de conhecimentos em geral ou de uma disposição psicológica específica" (São Francisco de Sales, Introdução à vida devota, Filotea, II, V);

"Reflita sobre alguma verdade da fé para acreditar com mais convicção, amá-la como um valor atraente e concreto, praticá-la com a ajuda do Espírito Santo. Este é um conhecimento de amor. Supõe reflexão, amor e intenção prática. Seu valor não está em pensar muito, mas em amar muito "(IEC, 996); não apenas para se concentrar em si mesmo, mas também para transcender o próprio eu que não é Deus, mas apenas o da criatura. Deus é: "interior íntimo meo e superior summo meo : interior íntimo meo e superior summo meo: Deus é mais íntimo que meu íntimo e maior que minha grandeza" (Santo Agostinho , Confissões 3, 6, 11). De fato, Deus está em nós e conosco, mas Ele nos transcende em seu mistério.
 A meditação cristã não provoca a anulação e o desaparecimento do eu pessoal e seu status de criatura no mar do Absoluto. De fato, "o homem é essencialmente uma criatura, de modo que uma absorção do eu humano no eu divino nunca será possível, nem mesmo nos mais estados de graça" ( MC , 14).

Em que se baseia a meditação cristã?

É baseado na própria realidade do Deus Uno e Trino, que "é o Amor" (1 Jo 4, 8), que nos tornou "filhos adotivos", para que possamos chorar com o Filho no Espírito Santo: " Abbà , Pai" ; na meditação das obras de salvação que o Deus da antiga e da nova aliança fez na história, segundo a qual Deus "se revela, falando aos homens, bem como aos amigos, e conversando com eles para convidar e admitir a comunhão com Ele "(Concílio Vaticano II , Dei verbum , 2); na Pessoa de Cristo, o Senhor, "em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento" (Cl 2: 3). Devemos sempre ter o olhar fixo em Jesus Cristo, em quem o amor divino se manifestou e nos deu sobretudo na cruz. "Por meio das palavras, obras, paixão e ressurreição de Jesus Cristo, no Novo Testamento, a fé reconhece Nele a auto-revelação definitiva de Deus, a Palavra encarnada que revela as profundezas mais profundas de Seu amor" (MC5) Portanto, a meditação cristã requer um aprofundamento permanente do conhecimento de Cristo, para "entender com todos os santos a largura, o comprimento, a altura e a profundidade [do mistério de Cristo], e conhecê-lo, o amor de Cristo que vai além de todo conhecimento, para ser preenchido com toda a plenitude de Deus "(Ef  3, 18s); na disposição de realizar constantemente a vontade de Deus, no exemplo de Cristo cujo "alimento é fazer a vontade daquele que o enviou para realizar sua obra" ( Jo 4,34); na estreita relação entre lex orandi e lex credendi , entre o modo de orar e o conteúdo da fé cristã que é professada. A oração cristã é sempre determinada pela estrutura da fé cristã, onde brilha a própria verdade de Deus e da criatura. "A oração é fé em ação: a oração sem fé se torna cega, a fé sem oração se desintegra" (Card Joseph Ratzinger , MC Presentation Conference ). Quanto mais se dá a uma criatura se aproximar de Deus, mais reverência em face dos três vezes que Deus santo cresce nela. Entendemos então a palavra de Celle, que foi recompensada com a mais alta intimidade com Deus, a Bem-Aventurada Virgem Maria: "Ele olhou para seu humilde servo" ( Lc 1, 48), e também a de Santo Agostinho: "Você pode me chamar de amigo, eu me reconheço um servo" (Santo Agostinho , Enarrationes in PsalmosCXLU). "De certa forma, nunca podemos procurar nos colocar no mesmo nível que o objeto contemplado, o livre amor de Deus; mesmo quando, pela misericórdia de Deus Pai, através do Espírito Santo enviado aos nossos corações, recebemos livremente em Jesus Cristo um reflexo sensível desse amor divino e nos sentimos atraídos pela verdade pela bondade e pela beleza do Senhor "( MC , 31); no silêncio: devemos redescobrir o valor do silêncio, que cria uma atmosfera favorável à reflexão, à contemplação, à escuta integral (de si mesmo, de Deus, dos outros), da purificação e da unificação da pessoa no amor ao próximo. A meditação autêntica se refere continuamente ao amor ao próximo, à ação e à paixão, e assim a aproxima de Deus. Desperta nas orações uma caridade ardente que os leva a participar da missão da Igreja e dos serviços dos irmãos para a maior glória de Deus.

Que dimensões da pessoa a meditação envolve?

A meditação aciona todas as faculdades do ser humano: inteligência, memória, desejo, vontade, atenção, intuição, imaginação, sentimento, coração, comportamento. "Essa mobilização é necessária para aprofundar as crenças da fé, provocar a conversão do coração e reforçar a vontade de seguir a Cristo. De preferência, na oração cristã, os mistérios de Cristo são meditados como na lectio divina ou no Rosário. Essa forma de reflexão orante é de grande valor, mas a oração cristã deve ir além: ao conhecimento do amor do Senhor Jesus, para se unir a Ele "(CCC , 2708).

Quão importante é o corpo na meditação cristã?

A experiência humana demonstra que a posição e a atitude do corpo não têm influência na lembrança e disposição da mente, envolvendo também funções vitais fundamentais, como respiração e batimentos cardíacos. É para a unidade da pessoa que é uni-dual: corpo e alma. Na oração, é todo o homem que deve entrar em relacionamento com Deus e, portanto, seu corpo também deve assumir a posição mais apropriada para se lembrar. A importância do corpo varia de acordo com a cultura e a sensibilidade pessoal. De qualquer forma, você deve reconhecer o valor relativo dessas atitudes corporais: elas são úteis apenas se forem vividas com a finalidade orante; preste atenção ao fato de que essas atitudes corporais podem degenerar em um culto ao corpo e podem identificar erroneamente todas as sensações com experiências espirituais. "Alguns exercícios físicos produzem automaticamente sensações de calma e relaxamento, sentimentos gratificantes, talvez até fenômenos de luz e calor que se assemelham ao bem-estar espiritual. Confundi-los com consolações autênticas do Espírito Santo seria uma maneira totalmente errada de conceber a jornada espiritual. Atribuir a eles significados simbólicos típicos da experiência mística, quando a atitude é moral (MC , 28).


Monsenhor Raffaello Martinelli, é um prelado italiano. Nasceu em Villa d'Almè e foi ordenado sacerdote para a diocese de Bérgamo em 8 de abril de 1972. Serviu como chefe de departamento na Congregação para a Doutrina da Fé. Em 2 de julho de 2009, foi nomeado bispo de Frascati pelo papa Bento XVI.