domingo, 20 de setembro de 2020

IRMÃO DAVID STEINDL-RAST OCSO - DEUS NÃO É OUTRA PESSOA



                                              David Steindl Rast e Dom Bede Griffiths

INTRODUÇÃO

Imaginem um mosteiro erguido no alto de um penhasco com vista para o rio Danúbio na Áustria. Os monges beneditinos trabalharam e oraram nesse lugar durante novecentos anos ininterruptos. S.S Dalai Lama passou três dias aqui, juntando-se a nós, beneditinos, simplesmente como um monge entre outros monges. Orou conosco na capela nas horas de oração e comeu conosco no refeitório do mosteiro. Foi durante uma dessas refeições que ele se virou para mim e disse de forma abrupta: ”Temos tanto em comum, você e eu, mas uma coisa nos separa: a ideia de um Criador divino. Senti uma espécie de desafio, embora não de fato, no sentido de um confronto desafiador. A voz de Dalai Lama expressou uma verdadeira tristeza em relação a um desacordo percebido, uma dor que provocou a minha compaixão. Quatro décadas de participação dos diálogos budistas/cristãos haviam me preparado para tudo o que se tornava o foco da conversa naquele momento. Tratava-se de um desafio, tinha que reagir a ele, e reagi.

Não me perguntem como, bombeiros tomam decisões instantâneas num momento crucial, salvam uma vida e depois são incapazes de dizer como o fizeram. Numa espécie de breve discurso improvisado, tive que fazer duas coisas ao mesmo tempo: permanecer fiel à minha crença na Criação Divina da tradição cristã e mostrar que era compatível com a crença budista da Originação Interdependente. Tudo era uma questão de criar uma ponte que eliminasse a distância entre Criador e criação, uma distancia meramente especulativa e não baseada na experiencia. Afinal, o falecido Thomas Merton, monge trapista e amigo tanto do Dalai Lama quanto meu, foi capaz e cristalizara visão essencial numa fase de cinco palavras: ”Deus não é outra pessoa”. Para o místico, não há distancia entre o Criador e a criação. Todo o universo é uma expressão da vida divina. A rede cósmica de causa e efeito mutuamente interdependente na qual todas as coisas tem sua origem é o que o poeta Kabir vê como o “secreto se tornando lentamente um corpo”.

Portanto, a crença na Criação e a crença na Originação Interdependente são duas expressões diferentes de uma única e mesma fé fundamental – dois indicadores diferentes em relação à mesma experiência. A fé como experiencia se encontra num nível mais profundo do que palavras e conceitos. É um gesto interno através do qual nos confiamos total e incondicionalmente à vida – a vida percebida como nossa, embora como um poder maior do que nós. O Dalai Lama sorriu de maneira radiante: “você deve escrever a respeito disso”, encorajando-me. “Com prazer,” respondi, “se S.S escrever o prefácio”, e ele concordou. Nesse momento, fui eu que sorri.

No diálogo inter-religioso, a nossa tendência é citar a partir das nossas tradições respectivas as passagens que os outros podem aceitar mais facilmente. Mas, aos poucos, isso começou a se mostrar para mim um pouco superficial. Senti que para concordar de forma sincera teríamos que nos aprofundar, teríamos que testar se mesmo os textos menos prováveis – digamos, um credo – ajudariam a aprofundar uma compreensão inter-religiosa. Guerras foram travadas mesmo entre correligionários sobre esses resumos sucintos de crenças essenciais. Um credo seria, portanto, a pedra de toque perfeita para a possibilidade de acordo inter-religioso naquele nível profundo que nos interessa. Essa é a razão pela qual escolhi o Credo Apostólico – o mais antigo dos credos cristãos e foi assim que este livro surgiu.

O Credo expressa a fé humana básica em termos cristãos, da mesma forma que as crenças budistas são uma expressão da mesma fé humana básica comum a todos. A fé – a verdade corajosa no mistério da vida – nos torna humanos, e cada cultura, cada período da história, dá a essa fé novas expressões em crenças que são determinadas por circunstancias históricas e culturais. As crenças dividem, mas a fé da qual provêm é uma só e une. A tarefa do diálogo inter-religioso é tornar as nossas crenças divergentes transparentes para a mesma fé que dividimos.

Neste livro, tentei aplicar esse princípio no Credo Apostólico, um resumo das crenças através das quais os cristãos professam a sua fé no batismo. A partir de cada uma de suas afirmações, usei uma ferramenta constituída de três partes em cada uma delas, fazendo três perguntas decisivas. Ao perguntar “o que isso de fato significa”? tento abrir a dura concha das noções preconcebidas que ouvimos ou usamos com frequência. Quando essa concha se abre e você sabe o que quer dizer, pergunto “como você sabe?” – como você sabe que essa afirmação é verdadeira? Essa pergunta não nos permite mais fazer malabarismos com conceitos, mas nos força a uni-los à experiência – a experiência do leitor – visto que é a base para um verdadeiro conhecimento. Por fim, eu pergunto: ”por quê isso é tão importante?”, suficientemente importante para fazer parte de um documento tão sucinto quanto o Credo, importante, portanto, para aqueles que recitam o Credo. (É possível perceber que essas três perguntas ficam cada vez mais pessoais. A fé, junto com as crenças que expressam essa fé, é uma questão muito mais pessoal, ou não se trata absolutamente de fé.” As minhas perguntas/; “O quê? Como? Porquê? (ás quais adiciono breves reflexões pessoais) dão a este livro o seu formato.

Profunda paz interna, um sentimento de fazer parte e uma ancoragem firme no eterno Agora do momento presente, este são alguns dos frutos que homens que lutam através dos séculos colheram da fé expressa no Credo. Falo como um cristão que rezou o Credo por quase oitenta nos e posso garanti que esses frutos espirituais ainda estão disponíveis hoje tão frescos quanto sempre. Quer se tenha ou não as crenças especificas expressas no Credo, qualquer um que usar a minha ferramenta constituída de três partes poderá reconhece-las como expressões validas da fé que nos une como humanos. Tentei promover esse reconhecimento. Você, leitor, dirá se consegui.


Irmão David Steindl-Rast, é monge católico beneditino e empenha-se nos diálogos inter-religiosos, especialmente entre cristianismo e budismo, e entre espiritualidade e ciência. Nascido na Áustria, realizou o mestrado na Academia de Belas Artes de Viena e o Ph.D. em Psicologia Experimental na Universidade de Viena. Tornou-se monge em Nova York, logo após emigrar para os EUA. Com permissão de seu abade, começou a estudar o zen budismo, tendo como mestres Hakuun Yasutani, Soen Nakagawa, Shunryu Suzuki e Eido Tai Shimano. Fundou, com intelectuais budistas, judeus, hindus e sufis, o Centro para Estudos Espirituais. Escreveu livros em parceria com Fritjof Capra (alcançando o American Book Award de 1992), Robert Baker Aitken e Robert Ellsberg. Seus textos podem ser encontrados em The New Catholic EncyclopediaEncyclopedia Americana, entre outras publicações. É amigo pessoal de Tenzin Gyatso, o atual Dalai Lama.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.