David Steindl Rast e Dom Bede Griffiths
INTRODUÇÃO
Imaginem um mosteiro erguido no alto de um penhasco com vista para o rio Danúbio na Áustria. Os monges beneditinos trabalharam e oraram nesse lugar durante novecentos anos ininterruptos. S.S Dalai Lama passou três dias aqui, juntando-se a nós, beneditinos, simplesmente como um monge entre outros monges. Orou conosco na capela nas horas de oração e comeu conosco no refeitório do mosteiro. Foi durante uma dessas refeições que ele se virou para mim e disse de forma abrupta: ”Temos tanto em comum, você e eu, mas uma coisa nos separa: a ideia de um Criador divino. Senti uma espécie de desafio, embora não de fato, no sentido de um confronto desafiador. A voz de Dalai Lama expressou uma verdadeira tristeza em relação a um desacordo percebido, uma dor que provocou a minha compaixão. Quatro décadas de participação dos diálogos budistas/cristãos haviam me preparado para tudo o que se tornava o foco da conversa naquele momento. Tratava-se de um desafio, tinha que reagir a ele, e reagi.
Não me perguntem como, bombeiros tomam decisões instantâneas
num momento crucial, salvam uma vida e depois são incapazes de dizer como o
fizeram. Numa espécie de breve discurso improvisado, tive que fazer duas coisas
ao mesmo tempo: permanecer fiel à minha crença na Criação Divina da tradição
cristã e mostrar que era compatível com a crença budista da Originação
Interdependente. Tudo era uma questão de criar uma ponte que eliminasse a distância
entre Criador e criação, uma distancia meramente especulativa e não baseada na
experiencia. Afinal, o falecido Thomas Merton, monge trapista e amigo tanto do
Dalai Lama quanto meu, foi capaz e cristalizara visão essencial numa fase de
cinco palavras: ”Deus não é outra pessoa”. Para o místico, não há distancia
entre o Criador e a criação. Todo o universo é uma expressão da vida divina. A
rede cósmica de causa e efeito mutuamente interdependente na qual todas as
coisas tem sua origem é o que o poeta Kabir vê como o “secreto se tornando
lentamente um corpo”.
Portanto, a crença na Criação e a crença na Originação
Interdependente são duas expressões diferentes de uma única e mesma fé fundamental
– dois indicadores diferentes em relação à mesma experiência. A fé como experiencia
se encontra num nível mais profundo do que palavras e conceitos. É um gesto
interno através do qual nos confiamos total e incondicionalmente à vida – a vida
percebida como nossa, embora como um poder maior do que nós. O Dalai Lama
sorriu de maneira radiante: “você deve escrever a respeito disso”,
encorajando-me. “Com prazer,” respondi, “se S.S escrever o prefácio”, e ele
concordou. Nesse momento, fui eu que sorri.
No diálogo inter-religioso, a nossa tendência é citar a
partir das nossas tradições respectivas as passagens que os outros podem
aceitar mais facilmente. Mas, aos poucos, isso começou a se mostrar para mim um
pouco superficial. Senti que para concordar de forma sincera teríamos que nos
aprofundar, teríamos que testar se mesmo os textos menos prováveis – digamos,
um credo – ajudariam a aprofundar uma compreensão inter-religiosa. Guerras
foram travadas mesmo entre correligionários sobre esses resumos sucintos de
crenças essenciais. Um credo seria, portanto, a pedra de toque perfeita para a
possibilidade de acordo inter-religioso naquele nível profundo que nos
interessa. Essa é a razão pela qual escolhi o Credo Apostólico – o mais antigo
dos credos cristãos e foi assim que este livro surgiu.
O Credo expressa a fé humana básica em termos cristãos, da
mesma forma que as crenças budistas são uma expressão da mesma fé humana básica
comum a todos. A fé – a verdade corajosa no mistério da vida – nos torna humanos,
e cada cultura, cada período da história, dá a essa fé novas expressões em
crenças que são determinadas por circunstancias históricas e culturais. As
crenças dividem, mas a fé da qual provêm é uma só e une. A tarefa do diálogo
inter-religioso é tornar as nossas crenças divergentes transparentes para a
mesma fé que dividimos.
Neste livro, tentei aplicar esse princípio no Credo Apostólico,
um resumo das crenças através das quais os cristãos professam a sua fé no
batismo. A partir de cada uma de suas afirmações, usei uma ferramenta constituída
de três partes em cada uma delas, fazendo três perguntas decisivas. Ao perguntar
“o que isso de fato significa”? tento abrir a dura concha das noções preconcebidas
que ouvimos ou usamos com frequência. Quando essa concha se abre e você sabe o
que quer dizer, pergunto “como você sabe?” – como você sabe que essa afirmação
é verdadeira? Essa pergunta não nos permite mais fazer malabarismos com
conceitos, mas nos força a uni-los à experiência – a experiência do leitor –
visto que é a base para um verdadeiro conhecimento. Por fim, eu pergunto: ”por
quê isso é tão importante?”, suficientemente importante para fazer parte de um
documento tão sucinto quanto o Credo, importante, portanto, para aqueles que
recitam o Credo. (É possível perceber que essas três perguntas ficam cada vez
mais pessoais. A fé, junto com as crenças que expressam essa fé, é uma questão
muito mais pessoal, ou não se trata absolutamente de fé.” As minhas perguntas/;
“O quê? Como? Porquê? (ás quais adiciono breves reflexões pessoais) dão a este
livro o seu formato.
Profunda paz interna, um sentimento de fazer parte e uma ancoragem firme no eterno Agora do momento presente, este são alguns dos frutos que homens que lutam através dos séculos colheram da fé expressa no Credo. Falo como um cristão que rezou o Credo por quase oitenta nos e posso garanti que esses frutos espirituais ainda estão disponíveis hoje tão frescos quanto sempre. Quer se tenha ou não as crenças especificas expressas no Credo, qualquer um que usar a minha ferramenta constituída de três partes poderá reconhece-las como expressões validas da fé que nos une como humanos. Tentei promover esse reconhecimento. Você, leitor, dirá se consegui.


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