quinta-feira, 27 de abril de 2017

THOMAS HAND SJ - UM CRISTÃO MELHOR


 

"Tasukaremashita!" Se traduz como "fui salvo!" (ou ajudado, resgatado). Isto é o que sempre digo sobre minha experiência no Japão: " Tasukaremashita!". A consciência japonesa em geral e em particular meu contato com o Budismo, mudou totalmente minha vida, me transformou num ser humano melhor e restaurou meu lado cristão.  Meu contato com o Budismo começou em 1969. Fui ao zendo (sala de meditação) em Kamakura por aproximadamente três meses quando foi concedido a mim o “shoken” (cerimônia particular em que o praticante pede formalmente a um professor se ele pode se tornar seu aluno). Nesta cerimônia simples, conheci formalmente o mestre Zen Yamada Koun Roshi e fui aceito como seu discípulo. Na verdade, Yamada Roshi naquele tempo ainda era chamado de “sensei”. Ele estava aos poucos assumindo a direção do Kamakura Zendo de seu fundador Yasutani Roshi. Lembro-me de que eu e mais duas pessoas entramos todos juntos no quarto do sensei para uma simples cerimônia e depois fomos entrevistados cada um individualmente. A pergunta do sensei para mim foi: "Qual é o seu kokorozashi?" (sua intenção ao entrar no caminho do Zen.) Para mim isso ainda não estava muito claro. Minha vida ainda abundava em imprecisões. Minha ida ao zendo não foi um ato racional. Eu tinha obedecido a uma intuição, então não tinha resposta para esta pergunta. Ao fim respondi qualquer coisa. Bem, o sensei não entendeu o que eu disse e nem mesmo eu entendi o que disse. Por alguma razão, enfatizei que eu era cristão católico. E que pretendia viver e morrer como tal, mas que realmente sentia que o Zen era importante. "Oh!" respondeu Yamada Roshi. "Sim. Lembre-se de que há dois tipos de Zen. Há o Zen Budista com todos os seus ensinamentos, ícones, preces, etc, e há apenas o ZEN, que está em toda religião. Você só pratica o Zen se você se torna um cristão melhor". Yamada Roshi era um grande mestre tanto fisicamente como espiritualmente. Seu coração e sua visão eram verdadeiramente grandiosos. Com isso resolvido entrei formalmente num caminho que, exatamente como ele disse, era o de transformar a minha fé cristã. Agora olhando para trás, percebo claramente que meu problema, como cristão, era que eu era muito racional. Meu caminho espiritual era intelectual e não da experiência direta. 

tradução livre do trecho do livro Handokai – O caminho Zen-Cristão (seleção de escritos e palestras de Thomas G. Hand)


Pe. Thomas Hand SJ, foi um padre e teólogo jesuíta que viveu por quase 30 anos no Japão, onde estudou o Zen-Budismo sob orientação de Yamada Koun Roshi e Yasutani Roshi. É professor do Mercy Center em Burlingame, Califórnia, espaço onde os praticantes são orientados na prática inter-confessional cristã-budista.

sábado, 15 de abril de 2017

WILLIGIS JAGER OSB - MENSAGEM DE PÁSCOA (1994)


A semana santa começou esses dias com a homilia de um pregador que recomendou vivermos a vida sob o ponto de vista de um Deus vingativo... E, também, amoroso. Não assisti as homilias anteriores, porém com certeza, ao longo da semana o pregador apresentou a figura do pecador que teria de se reconciliar com o redentor, com “Deus ofendido”, para que aquele que ressuscitou Jesus o deixasse entrar no céu. Depois desta primeira homilia, havia pais preocupados com que tipo de educação seus filhos recebiam nas aulas de religião, porque em suas infâncias o temor a esse deus vingativo lhes havia produzido profundas neuroses, eles não querem isso para seus filhos. 

Páscoa não é se reconciliar com um Deus vingativo, mas nos recordar da ressurreição de Jesus. Isso é feito por meio de representações, nos mostrando as aparições de Jesus ressuscitado dotado de características físicas, como se fosse algum encontro com alguém que você teve contato. Jesus teve fome, pediu a Tomé para que pusesse o dedo em sua ferida, falou com Maria Madalena, etc. No entanto, não tenha dúvida, essas visões foi muito da experiência interna que cada discípulo teve. "Seus olhos vão se abrir", é dito nas Escrituras. A palavra grega "ophte" (aquele que se fez ver, Cor 15:5) indica que Jesus foi visto não apenas por seus discípulos. Aos discípulos foi comunicado, revelado. O túmulo vazio, o anjo sentado, o caminho de Emaús, tudo isso são maneiras de descrever suas experiências pessoais.

Não se trata, pois, de experiências de magia, parapsicológicas, milagrosas, mas sim de uma afirmação especial. A ressurreição foi uma ciência que os discípulos viveram, que sobre esta vida ainda não sabemos nada, contudo, Jesus penetrou numa nova existência, também eles entraram numa existência nova. A vida não acaba. Segue. A base do nosso "eu" desempenha um papel menor, secundário: esse "eu" é que morre. O que continua é a essência recriada. 

A Páscoa foi um evento que ocorreu nos discípulos. Não há nenhuma prova da ressurreição. A ressurreição não descreve nenhuma experiência que aponte tempo/espaço. Transmitir a ressurreição no nível simbólico para que se situe no âmbito histórico é um erro de interpretação da mensagem. A festa da Páscoa foi comemorada por muita gente, que como muitas outras, avançaram nos limites da vidamorte. Esta é uma das muitas experiências místicas. "Ressurreição" é simplesmente uma palavra diferente usada para expressar o infinito, a vida-eterna, sunyata, o absoluto. Trata-se do conhecimento da vida-eterna, independentemente da condição em que a essência surja depois da morte. 

A religião é um modelo que através de seus significados tentamos entender o mundo e a nós mesmos, e que nos serve para comunicarmos por meio do verbo e dos ícones. Jesus é o arquétipo no qual podemos saber quem somos. Desde o primeiro período da nossa vida, criamos padrões segundo os quais interpretamos a nós e ao mundo que nos rodeia. A psicologia denomina isso de “condicionantes”. Tudo que dizemos e imaginamos são simplórias comparações. Esses padrões e modelos não são a realidade, significam que no fundo não temos o que dizer. Por isso, sua importância é relativa: o real pode ser vivido através de diferentes métodos. Porém é muito difícil se desprender das ilusões que nos foi colocada.

Quando a pessoa transcende os limites da sua consciência presa ao ego, ingressa num espaço empírico que se dá muitos nomes. E todas as designações se referem para uma mesma experiência, é como dizer: a morte não existe, extinguir-se é a grande transformação para uma nova existência. Se encontrassem hoje os restos mortais de Jesus e se pudesse ver seu corpo em decomposição no sepulcro, o que seria provável, nada iria mudar a minha fé em Jesus Cristo. A experiência da ressurreição nada tem nada a ver com seus possíveis restos mortais. É uma vivência que todos podem ter. É a experiência de que a natureza mais profunda do ser é divina e não tem fim. Na Páscoa celebramos a morte e ressurreição de Jesus, e nesse mistério celebramos nossa própria morte e ressurreição. Celebramos aqui o que somos no mais íntimo: somos ressuscitados, embora isto não nos é dito. Rosé Auslander expressa isso num poema:

“Somos os ressuscitados que vencemos a morte, que acariciamos a vida, que suplicamos ao vento. Nenhum anjo revela seus passos. Antes de nascer, Cristo já era ressuscitado. Morrer não é apropriado para os filhos de Deus. Somos ressuscitados antes de nascermos.”

O que se diz de Jesus também é dito sobre nós, nem mais nem menos. Então, quero finalizar com Eckhart: “Quem não compreende esse discurso, não deve afligir seu coração. Pois, enquanto a pessoa não se identifica a esta verdade, ele não vai entender esse discurso; porque é uma verdade não velada que surgiu subitamente do coração de Deus. (Edhasa, pág. 26)." Sinto necessidade de declarar como compreendo o cristianismo. Entendo Eckhart quando ele se exalta a dizer: “Se alguém compreendeu este sermão, o celebro. Se não houvesse ninguém aqui, eu deveria pregar à escova."(Sermão 26, p. 273, Quint).

tradução livre 

do livro: "Viagem para um novo país: experiências de uma vida espiritual"

Willigis Jäger Kyo-Un representa uma espiritualidade moderna e interconfessional. Como um mestre Cristão Beneditino e Zen Budista, sua visão é de uma espiritualidade integradora que une em si o grande tesouro da experiência da sabedoria oriental e ocidental. Foi ordenado “Sensei” pela  ordem Zen Sanbo-Kyodan. Em 1983 Yamada Koun Roshi (1907-1989) deu permissão para ele ensinar o Buda Dharma. Em 1996 Kubota Roshi (sucessor de Yamada) concedeu a ele o selo “Inka Ji'un Shomei” de Roshi. Desde 2003 é diretor espiritual da Benediktushof e co-fundador do Sonnenhof, e é fundador da Linhagem “Nuvem Vazia”. Em 23 de outubro de 2009 foi certificado como sucessor 45ª da escola Lin chi (Rinzai) linhagem (Zen).




terça-feira, 11 de abril de 2017

THOMAS MERTON OCSO - ILUMINAÇÃO INTERIOR É EXPERIÊNCIA PSICOLÓGICA?



"Embora este livro se ocupe principalmente da mística cristã, podemos fazer uma proveitosa pausa e considerar um exemplo de despertar interior tirado de um texto oriental. Trata-se de um exemplo notável, embora difícil de entender, de realização do eu interior, no qual os elementos da experiência estão tão claramente ordenados que servem como um caso ou exemplo natural quase 'clinicamente perfeito'. É um relato de 'satori', de iluminação espiritual, uma abertura repentina do centro do espírito para revelar o eu mais interior. Nesse caso, isso acontece em meio à paz que podemos chamar de contemplação, mas irrompe subitamente e de surpresa, de um modo que vai além da pacífica absorção contemplativa, revelando que a simples paz interior não é suficiente para nos por em contato com nossa liberdade mais profunda. O que é mais proveitoso nesse exemplo é que ele não se arroga a qualidade de sobrenatural ou místico. O Zen é, em certo sentido, antimístico e, portanto, permite-nos observar a operação natural do eu interior. De fato, o maior expositor do Zen nos dias de hoje, D. T. Suzuki, esforça-se para contrastar o 'satori' com a experiência mística cristã, enfatizando seu caráter natural de fenômeno 'puramente psicológico'. Por isso, ninguém deve ficar ofendido se pretendemos examinar isso como um caso psicológico, tratando da operação do eu interior como se ela não envolvesse nenhuma influência da graça mística. [Se uma tal experiência é possível ou não sem a graça, de modo puramente natural, e se é possível contradizer Suzuki e chamar de mística essa experiência, essa seria matéria para um estudo polêmico e provocativo. Por hora, em razão da conveniência, estou acatando a palavra de Suzuki e aceitando o exemplo exatamente como ele o apresenta e em seus próprios termos, isto é, como um fato puramente natural e empírico.]"

"A Experiência Interior", Martins Fontes 2007, pág. 13 (Texto datado de 1959, publicado postumamente).

Thomas Merton


quinta-feira, 6 de abril de 2017

WILLIGIS JAGER OSB - MORTE E RESSURREIÇÃO, PÁSCOA 1997




Hoje é Domingo de Ramos. Dificilmente passa uma semana sem que alguém me fale do sofrimento ou da morte de algum amigo e conhecido. O sofrimento desempenha papel importante na vida humana. Buda Shakyamuni disse em suas primeiras declarações “o sofrimento existe”. Com a impermanência ele experimentou a iluminação e percebeu que o caminho que as pessoas deveriam seguir é de se libertarem do sofrimento. Um de seus grandes sucessores, Milarepa, converteu em palavras a seguinte fórmula: “o medo da morte me levou para a solidão das montanhas”. De vez em quando eu meditava sobre a incerteza do momento da morte, e desta maneira, conquistei a força da natureza imortal e infinita do espírito. Agora acabou todo o temor diante da morte. A vida é cheia de dor. De novo e de novo nós enfrentamos situações dolorosas. Podemos nos queixar ou tentar usá-las para nos amadurecer. O primeiro requisito para isso é a aceitação: aceitar a situação do momento presente que não pode ser alterada. Aceitar a dor, aceitar as condições externas. Isso não tem nada a ver com fatalismo. Não significa que você não deve ir ao dentista ou passar por uma cirurgia quando ficar enfermo. Muito pelo contrário: é fazer todo o possível para aliviar essa dor. Mas há situações em que você não pode mudar nada, mas só aceitar. A única coisa que vai nos ajudar é transformar esse cenário. O que chamamos de doloroso não é diferente do que chamamos de prazeroso. Nossa razão tem dificuldades de compreender isso. Mas nossa natureza mais profunda que se expressa em nosso indivíduo tão dolorido, desconhece bem e mal, sofrimento e alegria. Realiza-se como em cada átimo. Essa dor não vai embora, isso se revela quanto a própria dor. Nos esforçamos para escapar da dor. Mas se nós não aceitarmos, interrompemos nosso crescimento. Também a dor mais profunda é suportada por esse “fundo original” que chamamos de “essência” ou Deus. Essa experiência nos transformará. Nossas crises da vida são momentos de crescimento. Estamos sendo expelidos do útero materno para nos tornar seres humanos, e isso é doí. Estamos sendo desmamados, e é doloroso. Nós temos que ir para a escola para nos formar, e isso é doloroso. Devemos abandonar a casa dos nossos pais, e isso é doloroso. Temos que aceitar a doença e o envelhecimento, e isso também é doloroso. E então já não nos resta também aceitar a morte. Scott Peck, psicólogo americano, enumerou as coisas mais importantes que devemos nos desapegar ao longo da vida, apesar da dor que nos dá se desprender de um livro de infância que não precisamos mais, ideologias deformadas que recebemos de nossos pais, a vivacidade da juventude, atratividade e poder da maturidade, autoridade sobre nossos filhos, diferentes formas de poder sobre os outros, estar livre de doenças e, finalmente, a vida em si. A maioria das pessoas não está disposta a aceitar a dor do desapego, desperdiçando assim a oportunidade de crescer e amadurecer. Elas preferem ficar com os seus velhos padrões e perder a oportunidade e a alegria de renascer para a realização humana. A verdadeira alegria da vida se dá mediante a renúncia e ao desprendimento de situações insustentáveis. Quem é capaz de desprender-se de algo ganhará na mudança. Lançar o preço da maturidade e sabedoria. O tormento de morrer é o tormento do novo nascimento. Tem de morrer os velhos conceitos, antigas teorias, um modo de vida e visões ultrapassadas. Vidamorte não é outra coisa que os dois lados da mesma moeda. Buscar um desenvolvimento espiritual significa amadurecer até que sejamos capazes de aceitar que a nossa vida é uma série de mortes e ressurreições simultâneas. Quando a dor é realmente aceita deixa de ser dor em sentido comum. Junto com a aceitação da dor cresce uma profunda alegria. Em algumas pessoas que sofreram provações, note como demonstram alegria e grande amor por seus semelhantes. Uma pessoa madura e sábia não pode guardar seu amor para si. Ele sabe que é convocado para servir o mundo e ao próximo. Mas isso não é fácil. Ajudar as pessoas significa dizer a verdade e pedir-lhes para que tomem decisões. Os discípulos de Jesus não quiseram saber de nada disso. Não quiseram saber do caminho dos profetas, que consequentemente levariam a dor e a morte. “Vá de retrô, Satanás” disse Jesus a Pedro quando esse quis impedir seu sofrimento. Na mística existe uma postura frente a dor que à primeira vista pode parecer narcisista. Em alguns casos os sábios e santos oraram pedindo por sofrimento. O crescimento, e em especial o crescimento espiritual, que é comparável a maturidade, ocorre em decorrência do sofrimento. Pelo visto, quem quiser amadurecer não poderá evitá-lo. É difícil ajudar uma pessoa a aceitar sua dor. Existe decisão que muitas vezes é dolorosa para pessoa que tem que tomá-las. Ele não sofre por uma decisão ou conselho que não-conscienteOs que acompanham o caminho espiritual do outro, buscam níveis mais elevados de consciência, e sabem que não vão alcançar sem dor. Esta é uma vocação especial para o sofrimento. Muitas pessoas vão por um caminho espiritual que pensam que vão escapar da dor. Mas todos os caminhos que levam à salvação através do sofrimento e da escuridão, só levam a luz, diminuindo o reino das sombras. A ressurreição é o inverso do sofrimento. Considero uma tarefa importante da nossa sociedade ajudar uns aos outros no sofrimento. O sofrimento une. De modo que o dom do desejo pela paz e a alegria que surge da experiência do sofrimento, possa ser compartilhado no luto e na certeza de que finamente exclamaremos triunfantes junto ao apóstolo Paulo: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" 

tradução livre do livro "Viagem para um novo país: experiências de uma vida espiritual"

                                         


Willigis Jäger Kyo-Un representa uma espiritualidade moderna e interconfessional. Como um mestre Cristão Beneditino e Zen Budista, sua visão é de uma espiritualidade integradora que une em si o grande tesouro da experiência da sabedoria oriental e ocidental. Foi ordenado “Sensei” pela  ordem Zen Sanbo-Kyodan. Em 1983 Yamada Koun Roshi (1907-1989) deu permissão para ele ensinar o Buda Dharma. Em 1996 Kubota Roshi (sucessor de Yamada) concedeu a ele o selo “Inka Ji'un Shomei” de Roshi. Desde 2003 é diretor espiritual da Benediktushof e co-fundador do Sonnenhof, e é fundador da Linhagem “Nuvem Vazia”. Em 23 de outubro de 2009 foi certificado como sucessor 45ª da escola Lin chi (Rinzai) linhagem (Zen).





domingo, 2 de abril de 2017

HUGO ENOMIYA LASSALLE SJ - A PRÁTICA DO ZEN TRANSFORMA A CONSCIÊNCIA RELIGIOSA?


Os cristãos que praticam já a algum tempo zazen, encontram a oportunidade de um novo acesso às Sagradas Escrituras. Este novo modo de compreendê-las não é meramente racional; tampouco se fundamenta em leituras ou reflexões sobre algum documento, ou a um insight de determinada ciência religiosa, pois com isso se manteriam no mesmo nível que começaram. Ocorre que leem os textos de forma muito cerebral, até se depararem com a própria realidade escondida por trás dos conceitos das palavras. Como acontece neste caso com o pensamento autônomo da maioria das pessoas, como aludimos acima. O resultado não é um conhecimento que se pode comunicar com palavras, aliás, é um conhecimento da experiência, que está ligado a um puro e profundo prazer.  No âmbito das palavras, inicialmente poderia ser lido um texto qualquer que dificultasse a experiência, por fim se diluindo e não compreendido como é, uma vez captada a realidade a sua maneira, isso deixa de ser importante. Aqui o cristão se encontra com Cristo de um modo direto, que no fundo é onde a igreja e a teologia pretende conduzir. Não se trata de um conhecimento melhor, mas de um profundo entendimento da fé, que de certa maneira a pessoa já tinha antes. Pode-se dizer que a fé passa a ser discernida. Esse discernimento é um dos objetivos fundamentais da nova consciência, pois elimina todas as dúvidas, e neste momento a alma contempla o profundo da unidade absoluta e envolvente do ser. Sem dúvida que existem outros meios de meditação que podem ter efeitos parecidos e que transformam a consciência religiosa. Mas isso só é possível no caso dos processos não objetivos, porque os pensamentos e as especulações são obstáculos ao acesso a esta realidade. Bem é verdade que outras formas de meditação trazem ainda determinados elementos “transracionais”, podendo auxiliar indiretamente se souberem o período de parar, dando lugar a meditação não objetiva. São João da Cruz postula: De todas estas inquietações, visões e quaisquer outros tipos de formações mentais, como são assentados sob a forma de imagens ou de certa inteligência particular, não são para perturbar ou alimentar o intelecto.”

A prática Zen transforma a consciência religiosa? 1983. do livro: Viver em nova consciência, pág. 67-68

tradução livre

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

AJAHN BUDDHASA - ENSINAMENTOS DE CRISTO, ENSINAMENTOS DE BUDDHA


 

Ensinamentos de Cristo, Ensinamentos de Buddha




“Em 1967, Buddhadasa Bhikkhu, um dos maiores nomes do mundo buddhista na Tailândia, foi convidado para dar três palestras no Seminário Teológico Tailandês a convite do Sinclaire Thompson Memorial Lectures, uma iniciativa criada por amigos e associados de Sinclaire Thompson a fim de homenageá-lo. Thompson, ele mesmo um cristão, tinha um grande interesse no entendimento e no diálogo entre as religiões, tanto quanto tal diálogo fosse feito de maneira profunda, respeitosa e almejando a paz e a felicidade das pessoas e da sociedade. Com a morte de Thompson em 1963, a série anual de palestras foi iniciada, e Buddhadasa Bhikkhu foi a personagem central do quinto ano. Tendo três dias para explorar o tema do diálogo inter-religioso da maneira que desejasse, Ajahn Buddhadasa escolheu uma abordagem ousada e desafiadora. Ao invés de falar amenidades e comparar pontos óbvios de semelhanças, como a presença de uma doutrina de sabedoria ou da prática do amor e da compaixão, o grande mestre tailandês resolveu aplicar ao diálogo ‘Cristianismo e Buddhismo’ uma ferramenta interpretativa que ele já empregava, de modo igualmente revolucionário, às suas interpretações das doutrinas buddhistas. Segundo ele, o texto religioso contém em si dois tipos de linguagem, uma primeira linguagem popular que todas as pessoas conseguem facilmente entender, e uma segunda linguagem que se revela apenas a quem busca entender mais profundamente a verdade das coisas. A essa segunda linguagem ele chamou de linguagem do Dhamma. Dhamma, ou em sua forma sânscrita mais conhecida no Ocidente, Dharma, é uma palavra difícil de ser traduzida. Num sentido restrito se refere aos ensinamentos do Buddha, mas num sentido amplo, aquele utilizado pelo autor aqui, significa a verdade profunda de todas as coisas. Para Ajahn Buddhadasa, tanto quanto ficarmos limitados à linguagem popular, não teremos chance de realmente empreender um diálogo inter-religioso profundo; não haverá chance de paz e mútuo entendimento. Utilizando da chave interpretativa da linguagem do Dhamma, que está presente de forma velada em todos os textos religiosos, é possível alcançar uma harmonia de visão. Buddhadasa resolve aplicar isso ao próprio texto cristão. De maneira inovadora e ousada, ele toma passagens bíblicas, tanto do Velho quanto do Novo Testamento, e revela como tais passagens, frequentemente difíceis de serem entendidas mesmo pelos cristãos, podem ser traduzidas para um ensinamento profundo e, ao mesmo tempo, claro, quando utilizamos a chave da linguagem do Dhamma.(...)”

(do Prefácio do tradutor)

Ensinamentos de Cristo, Ensinamentos de Buddha​ de Buddhadasa Bhikkhu

Tradução: Ricardo Sasaki
Edições Nalanda 


 http://nalanda.org.br/edicoes-nalanda/ensinamentos-de-cristo-ensinamentos-de-buddha