domingo, 2 de abril de 2017

HUGO ENOMIYA LASSALLE SJ - A PRÁTICA DO ZEN TRANSFORMA A CONSCIÊNCIA RELIGIOSA?


Os cristãos que praticam já a algum tempo zazen, encontram a oportunidade de um novo acesso às Sagradas Escrituras. Este novo modo de compreendê-las não é meramente racional; tampouco se fundamenta em leituras ou reflexões sobre algum documento, ou a um insight de determinada ciência religiosa, pois com isso se manteriam no mesmo nível que começaram. Ocorre que leem os textos de forma muito cerebral, até se depararem com a própria realidade escondida por trás dos conceitos das palavras. Como acontece neste caso com o pensamento autônomo da maioria das pessoas, como aludimos acima. O resultado não é um conhecimento que se pode comunicar com palavras, aliás, é um conhecimento da experiência, que está ligado a um puro e profundo prazer.  No âmbito das palavras, inicialmente poderia ser lido um texto qualquer que dificultasse a experiência, por fim se diluindo e não compreendido como é, uma vez captada a realidade a sua maneira, isso deixa de ser importante. Aqui o cristão se encontra com Cristo de um modo direto, que no fundo é onde a igreja e a teologia pretende conduzir. Não se trata de um conhecimento melhor, mas de um profundo entendimento da fé, que de certa maneira a pessoa já tinha antes. Pode-se dizer que a fé passa a ser discernida. Esse discernimento é um dos objetivos fundamentais da nova consciência, pois elimina todas as dúvidas, e neste momento a alma contempla o profundo da unidade absoluta e envolvente do ser. Sem dúvida que existem outros meios de meditação que podem ter efeitos parecidos e que transformam a consciência religiosa. Mas isso só é possível no caso dos processos não objetivos, porque os pensamentos e as especulações são obstáculos ao acesso a esta realidade. Bem é verdade que outras formas de meditação trazem ainda determinados elementos “transracionais”, podendo auxiliar indiretamente se souberem o período de parar, dando lugar a meditação não objetiva. São João da Cruz postula: De todas estas inquietações, visões e quaisquer outros tipos de formações mentais, como são assentados sob a forma de imagens ou de certa inteligência particular, não são para perturbar ou alimentar o intelecto.”

A prática Zen transforma a consciência religiosa? 1983. do livro: Viver em nova consciência, pág. 67-68

tradução livre

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