sábado, 15 de abril de 2017

WILLIGIS JAGER OSB - MENSAGEM DE PÁSCOA (1994)


A semana santa começou esses dias com a homilia de um pregador que recomendou vivermos a vida sob o ponto de vista de um Deus vingativo... E, também, amoroso. Não assisti as homilias anteriores, porém com certeza, ao longo da semana o pregador apresentou a figura do pecador que teria de se reconciliar com o redentor, com “Deus ofendido”, para que aquele que ressuscitou Jesus o deixasse entrar no céu. Depois desta primeira homilia, havia pais preocupados com que tipo de educação seus filhos recebiam nas aulas de religião, porque em suas infâncias o temor a esse deus vingativo lhes havia produzido profundas neuroses, eles não querem isso para seus filhos. 

Páscoa não é se reconciliar com um Deus vingativo, mas nos recordar da ressurreição de Jesus. Isso é feito por meio de representações, nos mostrando as aparições de Jesus ressuscitado dotado de características físicas, como se fosse algum encontro com alguém que você teve contato. Jesus teve fome, pediu a Tomé para que pusesse o dedo em sua ferida, falou com Maria Madalena, etc. No entanto, não tenha dúvida, essas visões foi muito da experiência interna que cada discípulo teve. "Seus olhos vão se abrir", é dito nas Escrituras. A palavra grega "ophte" (aquele que se fez ver, Cor 15:5) indica que Jesus foi visto não apenas por seus discípulos. Aos discípulos foi comunicado, revelado. O túmulo vazio, o anjo sentado, o caminho de Emaús, tudo isso são maneiras de descrever suas experiências pessoais.

Não se trata, pois, de experiências de magia, parapsicológicas, milagrosas, mas sim de uma afirmação especial. A ressurreição foi uma ciência que os discípulos viveram, que sobre esta vida ainda não sabemos nada, contudo, Jesus penetrou numa nova existência, também eles entraram numa existência nova. A vida não acaba. Segue. A base do nosso "eu" desempenha um papel menor, secundário: esse "eu" é que morre. O que continua é a essência recriada. 

A Páscoa foi um evento que ocorreu nos discípulos. Não há nenhuma prova da ressurreição. A ressurreição não descreve nenhuma experiência que aponte tempo/espaço. Transmitir a ressurreição no nível simbólico para que se situe no âmbito histórico é um erro de interpretação da mensagem. A festa da Páscoa foi comemorada por muita gente, que como muitas outras, avançaram nos limites da vidamorte. Esta é uma das muitas experiências místicas. "Ressurreição" é simplesmente uma palavra diferente usada para expressar o infinito, a vida-eterna, sunyata, o absoluto. Trata-se do conhecimento da vida-eterna, independentemente da condição em que a essência surja depois da morte. 

A religião é um modelo que através de seus significados tentamos entender o mundo e a nós mesmos, e que nos serve para comunicarmos por meio do verbo e dos ícones. Jesus é o arquétipo no qual podemos saber quem somos. Desde o primeiro período da nossa vida, criamos padrões segundo os quais interpretamos a nós e ao mundo que nos rodeia. A psicologia denomina isso de “condicionantes”. Tudo que dizemos e imaginamos são simplórias comparações. Esses padrões e modelos não são a realidade, significam que no fundo não temos o que dizer. Por isso, sua importância é relativa: o real pode ser vivido através de diferentes métodos. Porém é muito difícil se desprender das ilusões que nos foi colocada.

Quando a pessoa transcende os limites da sua consciência presa ao ego, ingressa num espaço empírico que se dá muitos nomes. E todas as designações se referem para uma mesma experiência, é como dizer: a morte não existe, extinguir-se é a grande transformação para uma nova existência. Se encontrassem hoje os restos mortais de Jesus e se pudesse ver seu corpo em decomposição no sepulcro, o que seria provável, nada iria mudar a minha fé em Jesus Cristo. A experiência da ressurreição nada tem nada a ver com seus possíveis restos mortais. É uma vivência que todos podem ter. É a experiência de que a natureza mais profunda do ser é divina e não tem fim. Na Páscoa celebramos a morte e ressurreição de Jesus, e nesse mistério celebramos nossa própria morte e ressurreição. Celebramos aqui o que somos no mais íntimo: somos ressuscitados, embora isto não nos é dito. Rosé Auslander expressa isso num poema:

“Somos os ressuscitados que vencemos a morte, que acariciamos a vida, que suplicamos ao vento. Nenhum anjo revela seus passos. Antes de nascer, Cristo já era ressuscitado. Morrer não é apropriado para os filhos de Deus. Somos ressuscitados antes de nascermos.”

O que se diz de Jesus também é dito sobre nós, nem mais nem menos. Então, quero finalizar com Eckhart: “Quem não compreende esse discurso, não deve afligir seu coração. Pois, enquanto a pessoa não se identifica a esta verdade, ele não vai entender esse discurso; porque é uma verdade não velada que surgiu subitamente do coração de Deus. (Edhasa, pág. 26)." Sinto necessidade de declarar como compreendo o cristianismo. Entendo Eckhart quando ele se exalta a dizer: “Se alguém compreendeu este sermão, o celebro. Se não houvesse ninguém aqui, eu deveria pregar à escova."(Sermão 26, p. 273, Quint).

tradução livre 

do livro: "Viagem para um novo país: experiências de uma vida espiritual"





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