terça-feira, 11 de abril de 2017

THOMAS MERTON OCSO - ILUMINAÇÃO INTERIOR É EXPERIÊNCIA PSICOLÓGICA?



"Embora este livro se ocupe principalmente da mística cristã, podemos fazer uma proveitosa pausa e considerar um exemplo de despertar interior tirado de um texto oriental. Trata-se de um exemplo notável, embora difícil de entender, de realização do eu interior, no qual os elementos da experiência estão tão claramente ordenados que servem como um caso ou exemplo natural quase 'clinicamente perfeito'. É um relato de 'satori', de iluminação espiritual, uma abertura repentina do centro do espírito para revelar o eu mais interior. Nesse caso, isso acontece em meio à paz que podemos chamar de contemplação, mas irrompe subitamente e de surpresa, de um modo que vai além da pacífica absorção contemplativa, revelando que a simples paz interior não é suficiente para nos por em contato com nossa liberdade mais profunda. O que é mais proveitoso nesse exemplo é que ele não se arroga a qualidade de sobrenatural ou místico. O Zen é, em certo sentido, antimístico e, portanto, permite-nos observar a operação natural do eu interior. De fato, o maior expositor do Zen nos dias de hoje, D. T. Suzuki, esforça-se para contrastar o 'satori' com a experiência mística cristã, enfatizando seu caráter natural de fenômeno 'puramente psicológico'. Por isso, ninguém deve ficar ofendido se pretendemos examinar isso como um caso psicológico, tratando da operação do eu interior como se ela não envolvesse nenhuma influência da graça mística. [Se uma tal experiência é possível ou não sem a graça, de modo puramente natural, e se é possível contradizer Suzuki e chamar de mística essa experiência, essa seria matéria para um estudo polêmico e provocativo. Por hora, em razão da conveniência, estou acatando a palavra de Suzuki e aceitando o exemplo exatamente como ele o apresenta e em seus próprios termos, isto é, como um fato puramente natural e empírico.]"

"A Experiência Interior", Martins Fontes 2007, pág. 13 (Texto datado de 1959, publicado postumamente).

Thomas Merton


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