Hoje é Domingo de Ramos.
Dificilmente passa uma semana sem que alguém me fale do sofrimento ou da morte
de algum amigo e conhecido. O sofrimento desempenha papel importante na vida
humana. Buda Shakyamuni disse em suas primeiras declarações “o sofrimento existe”. Com a impermanência ele experimentou a iluminação e percebeu que o caminho
que as pessoas deveriam seguir é de se libertarem do sofrimento. Um de seus
grandes sucessores, Milarepa, converteu em palavras a seguinte fórmula: “o medo da morte me levou para a solidão das
montanhas”. De vez em quando eu meditava sobre a incerteza do momento da morte,
e desta maneira, conquistei a força da natureza imortal e infinita do espírito.
Agora acabou todo o temor diante da morte. A vida é cheia de dor. De novo e de
novo nós enfrentamos situações dolorosas. Podemos nos queixar ou tentar usá-las para nos amadurecer. O
primeiro requisito para isso é a aceitação: aceitar a situação do momento
presente que não pode ser alterada. Aceitar a dor, aceitar as condições
externas. Isso não tem nada a ver com fatalismo. Não significa que você não
deve ir ao dentista ou passar por uma cirurgia quando ficar enfermo. Muito pelo
contrário: é fazer todo o possível para aliviar essa dor. Mas há situações em
que você não pode mudar nada, mas só aceitar. A única coisa que vai nos ajudar é transformar esse cenário. O que chamamos de
doloroso não é diferente do que chamamos de prazeroso. Nossa razão tem
dificuldades de compreender isso. Mas nossa natureza mais profunda que se
expressa em nosso indivíduo tão dolorido, desconhece bem e mal, sofrimento e
alegria. Realiza-se como em cada átimo. Essa dor não vai embora, isso se revela
quanto a própria dor. Nos esforçamos para escapar da dor. Mas se nós não
aceitarmos, interrompemos nosso crescimento. Também a dor mais profunda é
suportada por esse “fundo original” que chamamos de “essência” ou Deus. Essa
experiência nos transformará. Nossas crises da vida são momentos de crescimento. Estamos sendo expelidos do
útero materno para nos tornar seres humanos, e isso é doí. Estamos sendo
desmamados, e é doloroso. Nós temos que ir para a escola para nos formar, e
isso é doloroso. Devemos abandonar a casa dos nossos pais, e isso é doloroso.
Temos que aceitar a doença e o envelhecimento, e isso também é doloroso. E então já não nos resta também aceitar a morte. Scott Peck, psicólogo americano, enumerou as coisas mais
importantes que devemos nos desapegar ao longo da vida, apesar da dor que nos
dá se desprender de um livro de infância que não precisamos mais, ideologias deformadas que
recebemos de nossos pais, a vivacidade da juventude, atratividade e poder da maturidade, autoridade sobre nossos filhos,
diferentes formas de poder sobre os outros, estar livre de doenças e,
finalmente, a vida em si. A maioria das pessoas não está
disposta a aceitar a dor do desapego, desperdiçando assim a oportunidade de
crescer e amadurecer. Elas preferem ficar com os seus velhos padrões e perder a
oportunidade e a alegria de renascer para a realização humana. A verdadeira
alegria da vida se dá mediante a renúncia e ao desprendimento de situações
insustentáveis. Quem é capaz de desprender-se de algo ganhará na mudança.
Lançar o preço da maturidade e sabedoria. O tormento de morrer é o tormento do novo
nascimento. Tem de morrer os velhos conceitos, antigas teorias, um modo de vida
e visões ultrapassadas. Vidamorte não é outra coisa que os dois lados da mesma
moeda. Buscar um desenvolvimento espiritual significa amadurecer até que
sejamos capazes de aceitar que a nossa vida é uma série de mortes e
ressurreições simultâneas. Quando a dor é realmente aceita deixa de ser dor em sentido comum. Junto com a
aceitação da dor cresce uma profunda alegria. Em algumas pessoas que sofreram
provações, note como demonstram alegria e grande amor por seus semelhantes.
Uma pessoa madura e sábia não pode guardar seu amor para si. Ele sabe que é
convocado para servir o mundo e ao próximo. Mas isso não é fácil. Ajudar as
pessoas significa dizer a verdade e pedir-lhes para que tomem decisões. Os
discípulos de Jesus não quiseram saber de nada disso. Não quiseram saber do
caminho dos profetas, que consequentemente levariam a dor e a morte. “Vá de
retrô, Satanás” disse Jesus a Pedro quando esse quis impedir seu sofrimento. Na mística existe uma postura frente a dor que à primeira vista pode parecer
narcisista. Em alguns casos os sábios e santos oraram pedindo por sofrimento. O
crescimento, e em especial o crescimento espiritual, que é comparável a
maturidade, ocorre em decorrência do sofrimento. Pelo visto, quem quiser
amadurecer não poderá evitá-lo. É difícil ajudar uma pessoa a aceitar sua dor.
Existe decisão que muitas vezes é dolorosa para pessoa que tem que tomá-las.
Ele não sofre por uma decisão ou conselho que não-consciente. Os que
acompanham o caminho espiritual do outro, buscam níveis mais elevados de
consciência, e sabem que não vão alcançar sem dor. Esta é uma vocação
especial para o sofrimento. Muitas pessoas vão por um caminho espiritual que
pensam que vão escapar da dor. Mas todos os caminhos que levam à salvação
através do sofrimento e da escuridão, só levam a luz, diminuindo o reino das
sombras. A ressurreição é o inverso do sofrimento. Considero uma tarefa
importante da nossa sociedade ajudar uns aos outros no sofrimento. O sofrimento
une. De modo que o dom do desejo pela paz e a alegria que surge da experiência
do sofrimento, possa ser compartilhado no luto e na certeza de que finamente
exclamaremos triunfantes junto ao apóstolo Paulo: “Onde está, ó morte, a tua
vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?"
tradução livre do livro "Viagem para um novo país: experiências de uma vida espiritual"
Willigis Jäger Kyo-Un representa uma
espiritualidade moderna e interconfessional. Como um mestre Cristão Beneditino
e Zen Budista, sua visão é de uma espiritualidade integradora que une em si o
grande tesouro da experiência da sabedoria oriental e ocidental. Foi ordenado
“Sensei” pela ordem Zen Sanbo-Kyodan. Em
1983 Yamada Koun Roshi (1907-1989) deu permissão para ele ensinar o Buda Dharma.
Em 1996 Kubota Roshi (sucessor de Yamada) concedeu a ele o selo “Inka Ji'un
Shomei” de Roshi. Desde 2003 é diretor espiritual da Benediktushof e co-fundador
do Sonnenhof, e é fundador da Linhagem “Nuvem Vazia”. Em 23 de outubro de 2009
foi certificado como sucessor 45ª da escola Lin chi (Rinzai) linhagem (Zen).


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