quinta-feira, 6 de abril de 2017

WILLIGIS JAGER OSB - MORTE E RESSURREIÇÃO, PÁSCOA 1997



Hoje é Domingo de Ramos. Dificilmente passa uma semana sem que alguém me fale do sofrimento ou da morte de algum amigo e conhecido. O sofrimento desempenha papel importante na vida humana. Buda Shakyamuni disse em suas primeiras declarações “o sofrimento existe”. Com a impermanência ele experimentou a iluminação e percebeu que o caminho que as pessoas deveriam seguir é de se libertarem do sofrimento. Um de seus grandes sucessores, Milarepa, converteu em palavras a seguinte fórmula: “o medo da morte me levou para a solidão das montanhas”. De vez em quando eu meditava sobre a incerteza do momento da morte, e desta maneira, conquistei a força da natureza imortal e infinita do espírito. Agora acabou todo o temor diante da morte. A vida é cheia de dor. De novo e de novo nós enfrentamos situações dolorosas. Podemos nos queixar ou tentar usá-las para nos amadurecer. O primeiro requisito para isso é a aceitação: aceitar a situação do momento presente que não pode ser alterada. Aceitar a dor, aceitar as condições externas. Isso não tem nada a ver com fatalismo. Não significa que você não deve ir ao dentista ou passar por uma cirurgia quando ficar enfermo. Muito pelo contrário: é fazer todo o possível para aliviar essa dor. Mas há situações em que você não pode mudar nada, mas só aceitar. A única coisa que vai nos ajudar é transformar esse cenário. O que chamamos de doloroso não é diferente do que chamamos de prazeroso. Nossa razão tem dificuldades de compreender isso. Mas nossa natureza mais profunda que se expressa em nosso indivíduo tão dolorido, desconhece bem e mal, sofrimento e alegria. Realiza-se como em cada átimo. Essa dor não vai embora, isso se revela quanto a própria dor. Nos esforçamos para escapar da dor. Mas se nós não aceitarmos, interrompemos nosso crescimento. Também a dor mais profunda é suportada por esse “fundo original” que chamamos de “essência” ou Deus. Essa experiência nos transformará. Nossas crises da vida são momentos de crescimento. Estamos sendo expelidos do útero materno para nos tornar seres humanos, e isso é doí. Estamos sendo desmamados, e é doloroso. Nós temos que ir para a escola para nos formar, e isso é doloroso. Devemos abandonar a casa dos nossos pais, e isso é doloroso. Temos que aceitar a doença e o envelhecimento, e isso também é doloroso. E então já não nos resta também aceitar a morte. Scott Peck, psicólogo americano, enumerou as coisas mais importantes que devemos nos desapegar ao longo da vida, apesar da dor que nos dá se desprender de um livro de infância que não precisamos mais, ideologias deformadas que recebemos de nossos pais, a vivacidade da juventude, atratividade e poder da maturidade, autoridade sobre nossos filhos, diferentes formas de poder sobre os outros, estar livre de doenças e, finalmente, a vida em si. A maioria das pessoas não está disposta a aceitar a dor do desapego, desperdiçando assim a oportunidade de crescer e amadurecer. Elas preferem ficar com os seus velhos padrões e perder a oportunidade e a alegria de renascer para a realização humana. A verdadeira alegria da vida se dá mediante a renúncia e ao desprendimento de situações insustentáveis. Quem é capaz de desprender-se de algo ganhará na mudança. Lançar o preço da maturidade e sabedoria. O tormento de morrer é o tormento do novo nascimento. Tem de morrer os velhos conceitos, antigas teorias, um modo de vida e visões ultrapassadas. Vidamorte não é outra coisa que os dois lados da mesma moeda. Buscar um desenvolvimento espiritual significa amadurecer até que sejamos capazes de aceitar que a nossa vida é uma série de mortes e ressurreições simultâneas. Quando a dor é realmente aceita deixa de ser dor em sentido comum. Junto com a aceitação da dor cresce uma profunda alegria. Em algumas pessoas que sofreram provações, note como demonstram alegria e grande amor por seus semelhantes. Uma pessoa madura e sábia não pode guardar seu amor para si. Ele sabe que é convocado para servir o mundo e ao próximo. Mas isso não é fácil. Ajudar as pessoas significa dizer a verdade e pedir-lhes para que tomem decisões. Os discípulos de Jesus não quiseram saber de nada disso. Não quiseram saber do caminho dos profetas, que consequentemente levariam a dor e a morte. “Vá de retrô, Satanás” disse Jesus a Pedro quando esse quis impedir seu sofrimento. Na mística existe uma postura frente a dor que à primeira vista pode parecer narcisista. Em alguns casos os sábios e santos oraram pedindo por sofrimento. O crescimento, e em especial o crescimento espiritual, que é comparável a maturidade, ocorre em decorrência do sofrimento. Pelo visto, quem quiser amadurecer não poderá evitá-lo. É difícil ajudar uma pessoa a aceitar sua dor. Existe decisão que muitas vezes é dolorosa para pessoa que tem que tomá-las. Ele não sofre por uma decisão ou conselho que não-conscienteOs que acompanham o caminho espiritual do outro, buscam níveis mais elevados de consciência, e sabem que não vão alcançar sem dor. Esta é uma vocação especial para o sofrimento. Muitas pessoas vão por um caminho espiritual que pensam que vão escapar da dor. Mas todos os caminhos que levam à salvação através do sofrimento e da escuridão, só levam a luz, diminuindo o reino das sombras. A ressurreição é o inverso do sofrimento. Considero uma tarefa importante da nossa sociedade ajudar uns aos outros no sofrimento. O sofrimento une. De modo que o dom do desejo pela paz e a alegria que surge da experiência do sofrimento, possa ser compartilhado no luto e na certeza de que finamente exclamaremos triunfantes junto ao apóstolo Paulo: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" 

tradução livre do livro "Viagem para um novo país: experiências de uma vida espiritual"

                                         


Willigis Jäger Kyo-Un representa uma espiritualidade moderna e interconfessional. Como um mestre Cristão Beneditino e Zen Budista, sua visão é de uma espiritualidade integradora que une em si o grande tesouro da experiência da sabedoria oriental e ocidental. Foi ordenado “Sensei” pela  ordem Zen Sanbo-Kyodan. Em 1983 Yamada Koun Roshi (1907-1989) deu permissão para ele ensinar o Buda Dharma. Em 1996 Kubota Roshi (sucessor de Yamada) concedeu a ele o selo “Inka Ji'un Shomei” de Roshi. Desde 2003 é diretor espiritual da Benediktushof e co-fundador do Sonnenhof, e é fundador da Linhagem “Nuvem Vazia”. Em 23 de outubro de 2009 foi certificado como sucessor 45ª da escola Lin chi (Rinzai) linhagem (Zen).





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