quinta-feira, 2 de outubro de 2025

PE.JOE PEREIRA SJ - PRÍNCIPIO DA POBREZA E PERDÃO


Padre Joe Pereira SJ, Brasil, Setembro 2025

Princípio da pobreza

Jesus começa o Sermão da Montanha desta forma: "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus."

Pobreza, então, humildade, a compreensão da nossa nulidade e dependência total de Deus, é um pré-requisito para verdadeiramente experimentá-lo. Este é outro grande paradoxo. Somente quando você reconhece seu estado de absoluto nada, Deus lhe concede um imenso presente. Ele não o torna grande e poderoso, mas o capacita a criar grandes obras. Quando São Paulo implora a Deus que remova sua fraqueza — aquele "espinho na carne" quando o pede — ele ouve em resposta que Deus não o livrará dessa aflição que tanto o humilha e envergonha, porque é a única coisa que constantemente o lembra de sua impotência. Então Deus lhe revela a grande lei da vida espiritual: a virtude se fortalece na fraqueza.

Essa humildade tem sido objeto de questionamento de místicos de todas as religiões antigas. No hinduísmo, existe toda uma filosofia em torno desse conceito, conhecida como sunyata. Sunya em sânscrito significa zero. Costumamos brincar, dizendo: "Para se tornar um herói, você precisa primeiro se tornar um zero". Essa piada esconde a grande verdade de que não somos nada diante de Deus. E somente quando reconhecermos isso, o milagre do Magnificat ocorrerá: "O Todo-Poderoso fez grandes coisas por mim". Depois de ver a humildade de seu servo, ficou claro que "de agora em diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada". Maria revela o segredo de por que isso aconteceu: "Pois ele olhou para a humildade de seu servo". E este é o paradoxo da grandeza. Quanto mais me humilho, mais Ele me exalta e me revela a imensa riqueza, os imensos talentos que possuo dentro de mim.

Esse paradoxo tem muito a ver com a nossa maturidade espiritual. À medida que nos tornamos mais egocêntricos, também nos tornamos cada vez mais imaturos. Porque pessoas egocêntricas são como crianças pequenas que ficam tão fascinadas pelos brinquedos que recebem e completamente absortas neles que perdem a noção de quem é o doador. Não somos muito diferentes de uma criança assim. Temos muito orgulho dos nossos chamados recursos financeiros, das nossas posses, dos nossos sucessos e das nossas conquistas. Ficamos tão entusiasmados com eles que esquecemos a sua fonte. Enquanto isso, o princípio do reconhecimento completo da nossa nulidade é o princípio mais prático e fundamentado da espiritualidade.

Como podemos abrir mão de tudo o que possuímos na prática? Aprenda uma oração que lhe mostrará que não nos concentramos no que nos preocupa, nem pensamos no que precisamos fazer, no que ainda nos falta. Na vida, sempre falhamos. Começamos acumulando e possuindo bens materiais. Queremos constantemente ter, ter, ter mais... Pensamos que a riqueza nos dará uma sensação de segurança e poder, mas acontece o oposto. Quanto mais adquirimos, mais as coisas escapam ao nosso controle. Então, dizemos que devemos fazer algo a respeito. E assim nos estressamos constantemente fazendo, passamos a vida inteira fazendo, cada ação sucessiva consumindo nossas mentes cada vez mais.

Este é um conjunto equivocado de prioridades de vida. Este sistema de valores precisa ser revertido. Não comecemos com ter mais e fazer mais, mas sim com ser mais e ser mais. Vamos conhecer e descobrir quem somos. Quando o verdadeiro conhecimento ocorre, a qualidade do que você faz e a qualidade de suas posses derivam do seu próprio ser. É uma grande sabedoria que, se você reconhecer seu verdadeiro valor, o que você precisa virá naturalmente até você. Portanto, o ponto da pobreza é o ensinamento de Jesus no Sermão da Montanha: "Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas". Para buscar este reino, neste sentido de humildade pessoal, use regularmente este belo método que nos foi deixado pelo Padre John Main, OSB.

Perdão

Quando nos aproximamos de Deus carregando uma ferida muito profunda, talvez um ato brutal de violência cometido contra nós na infância, é difícil nos abrirmos à Sua graça. Precisamos nos livrar desse veneno dentro de nós, embora muitas vezes acreditemos que isso seja impossível. Em consultórios de terapia, ouvimos pacientes dizerem: "Posso perdoar, mas não consigo esquecer". A verdade é que, se não conseguimos esquecer, a memória se infiltra na memória celular e, a partir daí, envenena todo o corpo.

Perdoar e esquecer uma grande ofensa é muito doloroso e difícil. Às vezes, a melhor terapia, que é importante e necessária, não consegue curar isso, porque Deus atua em vários níveis da nossa saúde. Então, precisamos aprender a nos "revestir" de Cristo, colocando-o no centro de nossas mentes e corações. Conheço muitos casos em que, através da prática da meditação do Padre John Main, as pessoas gradualmente começaram a "ver" suas vidas e as ofensas cometidas através dos olhos de Cristo e a perdoar no espírito de Sua súplica: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem". Tal compreensão da condição humana requer uma perspectiva ampla sobre o mundo e as pessoas com grande compaixão, e isso só é possível quando nossos corações se tornam como o coração de Jesus.

Quando meditamos, nos "revestimos" de Cristo. Nós, que somos batizados em Sua morte e ressurreição, começamos a possuir Sua mente e Seu coração. Lentamente nos tornamos "em Cristo", Cristos para o mundo, e vivemos com uma liberdade que nos torna plenamente abertos aos outros e a Deus.

A maneira de fazer isso é ao mesmo tempo difícil e simples. A meditação, como ensinada pelo Padre John Main, leva à descoberta de que Deus não precisa do nosso pensamento. Deus não precisa da nossa inteligência. A Sabedoria e a graça divinas estão disponíveis quando aprendemos a renunciar à nossa suposta sabedoria. A meditação regular nos levará a ouvir o coração de Jesus. Isso nos ajudará a abraçar tudo ao nosso redor, até mesmo nossos inimigos, com amor e compaixão, à imagem do nosso Mestre.

Concluamos, portanto, lembrando que o Padre John Main descreve a meditação como a paz completa da mente e do corpo. A maneira de alcançar a paz mental é sentar-se imóvel, em uma posição relaxada, porém alerta. A maneira como nos sentamos é importante – devemos sentar com a coluna reta. Manter essa postura é auxiliado pelo apoio profundo dos ísquios contra o encosto da cadeira. Se estiver sentado em um banco ou almofada de oração, incline-se para a frente e coloque todo o tronco na borda frontal dos ossos do quadril, endireitando o tronco. Mantendo o peito ereto, incline a cabeça ligeiramente para baixo em uma posição meditativa.

O caminho para a paz de espírito é ouvir por 20 a 30 minutos, duas vezes ao dia, o som de um mantra, repetido continuamente dentro de nós, recomendado pelo Padre John Main. É a palavra aramaica Maranatha.

Vem, Senhor! Vem, Senhor Jesus!

 

Padre Joe Pereira SJ, é um sacerdote jesuíta indiano e oblato da WCCM (Comunidade Mundial para a Meditação Cristã). Foi o fundador junto com a Madre Teresa de Calcutá da Fundação Kripa, a maior ONG de saúde da Índia. Padre Joe combina a prática do Yoga e a fé cristã para a recuperação de usuários de drogas e desenvolvivento espiritual das pessas. 

 

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