Uma de minhas amigas se considera uma católica budista, então, fiquei curioso, então resolvi ler mais sobre o budismo, algo sobre o qual eu sabia pouco. Depois de algumas leituras de Buddhism for Dummies , descobri alguns paralelos interessantes entre essa tradição e a espiritualidade inaciana.Quero salientar que, explicitamente, esses paralelos não envolvem Deus, embora implicitamente possa haver uma conexão com um poder superior. Os budistas não acreditam ou adoram um deus. Sua prática é menos religiosa e mais espiritual em viver as descobertas. Portanto, pode ser aplicado a pessoas de várias tradições religiosas, e é por isso que minha amiga pode se chamar de católica budista. Na verdade, o Dalai Lama incentiva as pessoas a não necessariamente abandonar sua própria tradição. A espiritualidade inaciana, embora enraizada na tradição cristã, também pode ser aplicada a pessoas de diferentes tradições religiosas como uma forma de viver a vida, buscar um propósito e encontrar encaixe. Seus princípios não precisam ser exclusivos dos cristãos.
As histórias dos fundadores
O Buda, ou Siddharta, como era originalmente conhecido, nasceu no norte da Índia na nobreza e seu pai, o rei, queria que ele herdasse o poder do trono e ele fez tudo o que pôde para garantir que isso acontecesse. Mas Siddhartha foi atraído para o mundo exterior, para descobrir verdades mais profundas. Depois de um encontro com um doente na estrada, ele decidiu renunciar à sua vida real para descobrir uma maneira de reduzir o sofrimento do mundo. Santo Inácio de Loyola também nasceu na nobreza e teve uma vida promissora de poder. Depois que uma bala de canhão estraçalhou seu joelho no campo de batalha, ele ficou acamado se recuperando. Foi então que ele percebeu que havia mais do que a vida preparada para ele. O desejo de buscar as coisas de Deus reinou, então ele deixou sua vida de nobreza e iniciou uma peregrinação à Terra Santa. Inácio e Siddhartha trocaram suas roupas finas pelas de um mendigo; Inácio deixou seu cabelo crescer e Siddhartha cortou o seu (cabelo comprido era um sinal da realeza indiana). Ambos viveram por algum tempo em abnegação e praticavam estrito ascetismo, o que os deixou em grande fraqueza. Depois de um tempo, ambos perceberam os extremos de seu ascetismo. Siddhartha encontrou o ”caminho do meio” entre essa extrema abnegação e auto-indulgência. Esse tipo de "meio-termo" também é uma parte importante da espiritualidade inaciana.
Despertar
Para Santo Inácio, o seu lugar de despertar ocorreu no rio Cardoner em Manresa, Espanha. Seu momento de visão foi uma profunda clareza de toda a criação e brilhou em uma nova luz de significado para ele. Todas as coisas pareciam se encaixar naquele momento e para ele foi uma experiência de Deus. Foi em Manresa onde ele escreveu os Exercícios Espirituais, que provavelmente foi influenciado por essa iluminação no rio. O momento de Siddhartha aconteceu debaixo de uma figueira, também perto de um rio. Sob a árvore Bodhi, como é conhecido, ele se iluminou. Diz-se que “o mundo prendeu a respiração” naquele momento. Claramente para o Buda e para Inácio, esses foram momentos espirituais - embora com quase dois milênios de diferença. Logo após a iluminação de Siddhartha, é dito que um demônio chamado Mara veio para tentá-lo e seduzi-lo com visões mundanas. Siddhartha tocou o solo e disse: "A terra dará testemunho de todas as minhas ações passadas de pureza". E Mara foi levado embora. Durante sua vida Inácio teve muitos encontros com o que ele chamava de espírito maligno. Antes em sua vida, ele foi tentado por mulheres e pelo prestígio, mas com grande autoconsciência, Inácio aprendeu a neutralizar essas tentações malignas seguindo o bom espírito.
Liberdade e desapego
O budismo é freqüentemente caracterizado por seus ensinamentos sobre o desapego. O Buda disse que a fonte do sofrimento é o nosso apego às coisas (pessoas, objetos, expectativas, ilusões, frustações) e que, se pudermos abandonar essas coisas, encontraremos a iluminação. Significa que as coisas não têm poder sobre você. O apego vem de dentro, portanto o sofrimento vem de dentro, como afirma a tradição budista. A renúncia de Siddhartha à sua vida anterior e ao corte de seu cabelo foi mais uma questão de desapego do que de dizer que sua vida anterior era “ruim”. A espiritualidade inaciana é freqüentemente caracterizada por sua liberdade. Liberdade é outro termo para desapego. Indiferença também é uma palavra que descreve o que estamos falando: não estar apegado a uma coisa ou outra, mas desejar apenas a vontade de Deus. A verdadeira liberdade tira muita pressão de nós! Quando me encontro agarrado a algo - como um resultado preferencial no futuro, um relacionamento, um objeto - logo descubro que o apego é a causa do meu sofrimento, da minha ansiedade. E esse apego se origina de dentro. Um “apego desordenado” na linguagem inaciana é algo a que me apego de uma forma doentia e, no contexto cristão, algo que não me leva a glorificar a Deus.
Meditação
Tanto o budismo quanto a espiritualidade inaciana dizem que a oração e a meditação são necessárias para que qualquer transformação pessoal ocorra. Ambas as tradições se concentram no crescimento da autoconsciência. A autoconsciência deve ser adquirida antes mesmo de começarmos a ajudar e amar os outros plenamente. Como Jesus disse, devemos amar nosso próximo como a nós mesmos, mas primeiro devemos usar a autoconsciência para chegar a esse amor a nós mesmos. A espiritualidade inaciana emprega a conhecida oração do Exame, que nos permite revisar os acontecimentos do dia e como reagimos aos vários momentos e o que ela pode nos dizer. As técnicas de discernimento inacianas também nos ajudam a acessar nosso interior, onde vivem os apegos e os desejos. Pode-se chamar de autoconsciência e autoaprendizagem “tornar-se mais humano”. O budismo afirma que o propósito da vida é se tornar mais humano e que pode levar muitas vidas para alcançar isso (iluminação). Um método budista de meditação que é útil para a autoconsciência é usar a imaginação para se colocar em uma situação que lhe causa sofrimento, digamos, com uma pessoa de quem você não gosta. Você observa a cena se desenrolar como um estranho . Ou seja, você observa, como terceiro, o que se passa entre você e a outra pessoa. Você observa sem julgamento e simplesmente vê e aprende, sem tentar resolver ou imaginar. (Anthony de Mello, SJ tem meditações semelhantes em seu livro Sadhana ). Por meio dessa observação, a autoconsciência cresce e, sem esforço, a autotransformação ocorre lentamente. Esse método é muito semelhante à oração imaginativa na tradição inaciana. Freqüentemente, a oração imaginativa envolve você como um personagem de uma cena do Evangelho, mas pode ser adaptada a qualquer situação (como descrito acima) e você pode escolher ser apenas um observador da cena ao invés de participar dela. Ou talvez você queira ver a situação pelos olhos de outra pessoa (como seu inimigo). A meditação e a autoconsciência, se praticadas regularmente, reduz nossos hábitos destrutivos, dando-nos uma nova perspectiva. Afinal, muito do nosso sofrimento vem da projeção de nossas próprias visões distorcidas das coisas.
Atenção Plena
As técnicas de meditação do budismo, como a espiritualidade inaciana, também empregam a plena atenção. Por exemplo, pode-se sentar por dez ou vinte minutos e simplesmente focar na respiração que entra e sai do nariz. A meditação também pode nos levar a um amor atento e a valorizar as coisas ao nosso redor: uma borboleta, um pedaço de grama, nosso cônjuge, nosso trabalho. Consciência como essa é a raiz do princípio inaciano de Deus em todas as coisas. Existe sacralidade em tudo. Nenhuma dessas coisas em si causam sofrimento, já que o sofrimento não se origina das coisas, mas sim de apegos e das prisões. O Buda e Inácio pretendiam que suas espiritualidades fossem aplicadas à vida cotidiana . O Buda prometeu a si mesmo que assim que encontrasse a saída para o sofrimento, ele o compartilharia com todos os seres, para que pudessem praticar juntos. A atenção plena em nossos momentos diários dá lugar a um insight profundo. A consciência do sofrimento do mundo, das nossas reações, e de nossa fraqueza pode promover maior amor e vida ética - ou, nos termos de Inácio, glorificar a Deus. Atenção plena e autoconsciência: esses são os paralelos principais e mais importantes entre as espiritualidades de Inácio e de Buda.
Pratique que funciona
Como com os métodos da espiritualidade inaciana, o budismo diz para você praticar a meditação para ver se funciona e deixar o resto . Nem todas as formas são ideais para todas as pessoas. As espiritualidades são profundamente pessoais e podem ser aplicadas a muitas tradições religiosas e necessidades e situações pessoais. É importante notar que a espiritualidade geralmente está enraizada em uma tradição histórica particular, mas ela flui para um contexto pessoal e se torna o contexto para a vida de uma pessoa. A espiritualidade está enraizada de dentro e alcança o exterior. Não é nenhuma surpresa que a espiritualidade inaciana e o budismo tenham certos paralelos. Por séculos, os seres humanos têm tentado entender seu lugar no universo e como devem se engajar nele. Para mim, Deus se manifesta na infinidade de espiritualidades vividas por pessoas ao redor do globo. E para minha amiga, sua espiritualidade budista parece fundir-se harmoniosamente com sua espiritualidade católica, sem tirar sua forte identidade e tradição católica. E como todas as espiritualidades que oferecem esperança de transformação, exige prática de seus métodos e, o mais importante, reflexão e consciência contínuas.


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