quarta-feira, 24 de maio de 2017

A REGRA DE SÃO BENTO E O ZEN BUDISMO




Nas últimas três semanas compreendi que o cerne da vida monástica é um arquétipo. Surgiu então a questão: o que está no coração dos orientais e dos ocidentais que anseiam e procuram "a unidade", ou o “satori” no Budismo ou na mística Cristã? Não pretendo responder essa pergunta, mas sei que a minha estadia em três mosteiros budistas diferentes nas últimas três semanas mostrou-me que a rotina dos mosteiros asiáticos, não é tão diferente dos mosteiros do ocidente, afora talvez porque nossos irmãos e irmãs japoneses tenham mais disciplina.

No início do livro “Dharma de S. Bento”, lê-se:

Com o quê os budistas se deparam na Regra de S. Bento, se não estão habituados a ela, porque consideram  as "Regras" surpreendentemente familiar? Tem a ver com a ideia de “treliça”. O Dharma é comumente traduzido como "ensino ou lei natural", mas a raiz do significado da palavra em pali ou em sânscrito, significa "apoio, ou aquilo que sustenta". De certa forma, então, o Dharma é uma espécie de “treliça” que comporta o despertar. Tanto a Regra de S.Bento como o Dharma de Buda são, como diz Norman Fisher, "orientações gerais para o caminho interno". Essa é provavelmente a razão pela qual eu encontrei a vida nos mosteiros budistas surpreendentemente familiar. Meu relato, portanto, consistirá em uma série de citações da Regra de S.Bento. Será a "lente" através da qual vou olhar para as minhas próprias experiências aqui no Japão.

Prólogo da Regra de S.Bento:Levantemo-nos então finalmente, pois a Escritura nos desperta dizendo: "Já é hora de nos levantarmos do sono". E, com os olhos abertos para a luz deífica, ouçamos, ouvidos atentos, o que nos adverte a voz divina que clama todos os dias: "Hoje, se ouvirdes a sua voz, não permitais que se endureçam vossos corações": O argumento "estar desperto" é muito relevante para a tradição Zen Budista.

O Prólogo da Regra: “Estabeleceremos uma escola de serviço ao Senhor.” Fui informada que a maioria dos monges que vivem nos mosteiros Zen Budistas estão lá apenas por um tempo limitado, ficou claro para mim que são pessoas que está em treinamento. Estão sendo formados para exercerem o sacerdócio. Em outras palavras, é diferente dos monges ocidentais que moram num mosteiro por um longo tempo.

Capítulo 5 - Sobre a Obediência: Pois são esses mesmos que, deixando imediatamente as coisas que lhes dizem respeito e abandonando a própria vontade, desocupando logo as mãos e deixando inacabado o que faziam, seguem com seus atos, tendo os passos já dispostos para a obediência, a voz de quem ordena. 

Permitam-me um comentário engraçado: na nossa segunda ou terceira noite em Sogen-ji nos juntamos à sangha para o Zazen às 17:30, e estas sessões duram até às 21:00. Naquela noite eu estava cansada, tive um dia cheio e estava muito difícil sentar-se por um longo período de tempo. Eu, portanto, tomei a decisão de deixar o Zendo em um dos intervalos e fui para a cama. Ótima escolha, pensei, enquanto me preparava para dormir. Rapidamente caí num sono profundo quando um de nossos instrutores me acordou, e me informou que eu não deveria deixar o Zendo no meio de um Zazen e que o Roshi voltava em breve; eu deveria estar lá sentada no meu lugar até ele voltar. Houve um momento em que lutei internamente, mas depois voltei ao Zendo. Isso para mim foi um exemplo clássico de obediência, pois renunciei à minha própria vontade.

Capítulo 6 - Sobre o Espírito do Silêncio: Com efeito, falar e ensinar compete ao mestre; ao discípulo convém calar e ouvir.

Em Tenne-ji, não só experimentávamos o silêncio nas refeições ou quando andávamos de um lado para o outro para o Zendo ou para o serviço matutino, também durante o samu da manhã e da tarde. Se estávamos puxando ervas daninhas com dez outras monjas ao nosso lado ou fazendo um projeto de costura todas juntas em um quarto, não houve conversa paralela, exceto o necessário. Em nossa última tarde fomos ao castelo de Gifu em três carros. Houve alguma conversa, mas apenas para fins informativos, como a hora que seria o almoço ou qual seria a hora do banho.

Capítulo 22 – Como devem dormir os monges: Se for possível, durmam todos num mesmo lugar; se, porém, o número não o permitir, durmam aos grupos de dez ou vinte, em companhia de monges mais velhos que sejam solícitos para com eles. Esteja acesa nesse recinto uma candeia sem interrupção, até o amanhecer. Durmam vestidos e cingidos com cintos ou cordas, mas de forma que não tenham, enquanto dormem, as facas a seu lado, a fim de que não venham elas a ferir, durante o sono, quem está dormindo;

Vimos isso com nossos próprios olhos em Tenne-ji. Porque nós três ficamos do lado de fora do Zendo cerca de cinco minutos antes do sino tocar, nós observamos as residentes, tinham ido dormir vestidas, se apressando para ir ao banheiro, lavar os rostos, e vestir o resto do hábito antes de voltar ao Zendo.

Capítulo 48 - Sobre o trabalho manual cotidiano: A ociosidade é inimiga da alma; por isso, em certas horas devem ocupar-se os irmãos com o trabalho manual, e em outras horas com a leitura espiritual. Pela seguinte disposição, cremos poder ordenar os tempos dessas duas ocupações.

Portanto, as irmãs devem estar ocupadas em certos momentos com trabalhos manuais. São verdadeiramente monjas quando vivem do trabalho de suas mãos. Devo humildemente admitir que, para mim, fazer qualquer trabalho manual durante três horas pela manhã e duas horas e meia à tarde foi um desafio, principalmente físico, mas também um exercício de obediência. No entanto, ao olhar para trás, percebo que aprendi muito sobre mim mesmo, e posso certamente ver os benefícios de fazer algo coletivo em silêncio. A sangha em Tenne-ji é extremamente admirável, fazem projetos em conjunto, constroem o sentido de comunidade. Todos trabalham para a mesma causa, que é a vida em comum. Infelizmente, no mosteiro em que vivi, desistimos de fazer trabalhos manuais juntas. Fazemos algum trabalho manual, mas raramente juntas como uma sangha. Uma das razões, naturalmente, é que somos um grupo muito grande (280), mas acredito que exista uma comunhão espiritual quando envolvidas em um projeto juntas. Estou pensando em algumas de nossas irmãs que trabalham juntas no jardim à noite.



Capítulo 53 - Recepção dos hóspedes:  Logo que um hóspede for anunciado, corra ao encontro do superior ou dos irmãos, com toda a solicitude caridosa; primeiro, rezem em comum e assim se associem na paz. Não seja oferecido esse ósculo da paz sem que, antes, tenha havido a oração, por causa das ilusões diabólicas.  Nessa mesma saudação mostre-se toda a humildade. Todos os hóspedes que chegam e que saem, faça reverências, com a cabeça inclinada ou com todo o corpo prostrado por terra, o Cristo que é recebido na pessoa deles. Quando chegamos a Tenne-ji, Shika-san primeiro nos acolheu prostrando-se ao chão, e então, quando toda a comunidade se reuniu, tomamos chá. Quando visitamos Hozumi Roshi, ele acolheu-nos, e nos levou para o seu templo, demorou alguns minutos para mostrar-nos o espaço e, em seguida, nos reunimos no Zendo para o Zazen.

Capítulo 63 - Sobre a Ordem na comunidade: Conservem os monges no mosteiro a sua ordem, conforme o tempo que têm de vida monástica, o merecimento da vida e conforme o Abade constituir.

Parte de nossa estadia em Ten'ne-ji andaríamos e sentaríamos com disciplina. Quem era o mais velho entre nós? Era bastante evidente, tanto em Sogen-ji como em Tenne-ji, quando os monges se sentavam à mesa, por exemplo, é um momento muito importante. Havia uma hierarquia a seguir e respeitar, e as pessoas precisavam ser lembradas disso de vez em quando.

Capítulo 63 (continuação): Em qualquer lugar em que se encontrem os irmãos, peça ao mais moço bênção ao mais velho. Passando um mais velho, levante-se o mais moço e ceda-lhe o lugar, e não presuma o mais moço se assentar junto, a não ser que convide o seu irmão mais velho, a fim de que se faça o que está escrito: "Antecipando-se mutuamente em honra". 



Eu vi dois exemplos disso em Eihei-ji. Uma noite no Zazen testemunhei um monge novato ajudando um monge com idade avançada a se sentar. O monge novato arrumou suas sandálias, e quando o Zazen terminou o jovem monge voltou e ajudou o ancião a calçar suas sandálias. Foi um momento emocionante, como é também quando testemunho esses momentos no mosteiro onde resido. Também observei em Eihei-ji que, se passássemos por monges enquanto caminhávamos, eles se curvavam e faziam "gassho". Embora não façamos isso no meu mosteiro em Minnesota, notei que num mosteiro beneditino de homens no Canadá os monges se curvam quando passavam pelos corredores. Em uma nota pessoal suspeitei que muitas vezes fui ajudada durante estas semanas porque eu era a "com mais idade” em relação aos membros mais novos da comunidade. Vou terminar estas observações e comentários com uma última história. Na conclusão de um serviço matinal em Eihei-ji, jovens monges vieram para a frente para fazer perguntas a Suzuki Roshi, que presidia. Achei as perguntas simples, singelas, como “o que fazer quando se está sonolento durante o Zazen”. Lembrei imediatamente de uma história dos ditos dos primeiros monges cristãos, homens e mulheres, que viveram no deserto egípcio nos séculos IV e V. Com perseverança, muitos deles se tornaram santos e santas. Com o tempo, foram acompanhados por seus discípulos. Seus discípulos chamavam-nos de Abba e Amma e pediam conselhos. Aqui está a história de um bom "conselho": Alguns monges foram até Abba Poemen e lhe disseram: "Quando vemos os irmãos dormindo durante a Liturgia das Horas, como acordá-los para que estejam atentos?" Ele respondeu: "De minha parte, quando vejo um irmão cochilar, coloco a cabeça dele sobre os joelhos e o deixo descansar.” Para concluir, estou convencida de que, nas próximas semanas e meses, enquanto continuar refletindo sobre esta experiência extraordinária, as pérolas se revelarão uma a uma. Em relação a isso aprendi muito sobre a vida em mosteiros Zen Budistas, tenho me aprofundado em meu coração monástico. Volto ao meu mosteiro de origem com renovado vigor, fidedigna à vida a qual fui chamada e ao qual respondo.


O Zen visto através da ótica da Regra de S.Bento 

[1] Dharma de S. Bento: budistas refletem sobre a Regra de S.Bento, ed. Patrick Henry (Riverhead, 2001).


Irmã Hélène Mercier OSB, é monja do Mosteiro Beneditino de São José, Minnesota, é secretária executiva do Conselho da Comissão Norte-Americana de Diálogo Inter-Religioso. Irmã Hélène começou sua vida monástica no Convento Beneditino de Montreal, fundado por Dom John Main.

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