quarta-feira, 17 de maio de 2017

PE. LUCIANO MAZZOCCHI - A COMPAIXÃO DE BUDA



O povo do sopé dos Himalaias reconheceu o príncipe dos Sakyas, com o “Desperto”, Shakyamuni Buda, o sábio. Com o passar do tempo, os herdeiros do Dharma apagaram a figura do mestre “extraordinário” embelezado com uma série de enganos. Nós não sabemos se essas histórias são verdadeiras; No entanto, é certo que as primeiras gerações interpretaram o despertar como um caminho de bondade e compaixão. Não temos notícias analisadas pela crítica histórica sobre a personalidade de dois mil e quinhentos anos atrás,  mas sim  a do Buda gerado ao longo dos séculos por aqueles que percorreram “o caminho do meio”. Esta linha de pensamento é de grande valor. O Buda não é previamente uma pessoa, mas um arquetipico, a essência de uma tradição.

Uma antiga roda encontrada em Govindnagar (Paquistão), que data do século II, representa Amitaba Buda. Dizem que um rei poderoso deixou tudo e dedicou-se ao Dharma de Buda, e se iluminou. Então, ele partiu para uma Terra Pura, onde sempre eleva os votos de salvação. Graças ao poder desta perfeita invocação, todos os devotos pronunciam com fé o seu nome, com clareza e segurança. É esta a mais amada tradição budista seguida no Japão, sob o nome de Jodo, Terra Pura. Amitaba foi traduzido como Amida, adicionado o título “Tathagata”, ou aquele que se tornou o que é. Aquele que se tornou o Buda confirma que não se trata de uma figura histórica, mas um alcance sagrado. Esta é a essência da misericórdia de Buda. Uma afirmação famosa do mestre Shinran (1173 - 1263):  “Todos dizem que se Amida salva os pecadores,  salva também os justos. Mas o oposto também é verdadeiro: Se Amida salva os justos, salva mais os pecadores, porque Amida é pura misericórdia. Igualmente Tannisho, por Shinran.

Em três séculos, o Budismo passou por uma profunda transformação: a antiga forma monástica assumiu o caráter comunitário, referente ao Veículo Mahâyâna. Com esta nova compreensão, mesmo a forma austera que remete às origens da vida monástica de Buda, as regras passaram por mudanças significativas, satisfazendo as expectativas habituais dos monges. O rosto de Buda assumiu características femininas. Para esta nova feição foi dada o nome de Kannon, ou seja, “aquela que vê e ouve os lamentos dos seres”. Kannon é a personificação da compaixão e bondade, mãe e padroeira universal, especialmente pras pessoas de coração simples. "Se as pessoas precisam de um monge ou de uma freira para serem salvos, Kannon torna-se imediatamente uma monja e uma freira, uma leiga e prega o ensinamento da perfeição da sabedoria" (Wikipedia: Guanshiyin Pusa pǔmén pn).

No Japão, nos séculos de perseguição aos cristãos (1600-1870), eles viviam escondidos, para escapar do controle das autoridades sincretizaram a imagem da Virgem Maria feita de argila na forma de Kannon, com a adição de uma pequena cruz na parte de trás da imagem. Estas estátuas, das quais ainda existem, são chamadas Maria Kannon. Elas têm um rosto coberto de ternura e compaixão.

O Buda, bem como o Cristo, não são apenas dois personagens históricos, de um lado o príncipe dos Sakyas, do outro, o carpinteiro de Nazaré, mas ambos são a senda de gerações que têm recebido e transmitido suas riquezas, desenvolvendo-as com novos “insights”. Assim,  a compaixão de Buda não é apenas uma corrente que flui a ermo, mas sim uma grande corrente composta por muitas correntes que, num certo momento e em certos territórios, atingiu a plenitude, inundando o oriente de generosidade e altruismo. Um eremita e poeta japonês chamado Ryokan, cantou em poucos versos a bondade e gentileza que transbordava em sua alma, corpo, e em seu robe.

“Se o meu robe
fosse tão grande,
eu gostaria de cobrir com ele
todo o sofrimento
que está no mundo"

A NATUREZA, O CORPO DE BUDA, O COMPASSIVO

Esse mundo é a escola onde os seres são introduzidos e guiados à grande - benevolente – e sofrida experiência de Mahakaruna (Grande Compaixão). A simplicidade da interdependência dos fenômenos hoje reconsiderada, ensina que o “eu” não está separado do universo, que não devemos reduzir essa compreensão ao plano individual. Com a separação da mente-alma como diz Plotino, apagamos a chama original e destruímos a nós mesmos e aos outros. Nos tornamos violentos.

O Budismo nos ensina a tratar a natureza com reverência e respeito. O Budismo também é compatível com a vida do mosquito que pica. Ryokan, monge Zen e poeta, costumava dormir um dia com a perna direita e no outro dia com a perna esquerda fora do mosquiteiro, para o benefício dos insetos. Não é um ato virtuoso, mas elogiável, Ryokan percebeu a correnteza da vida num fluxo com tudo o que vive.

O corpo é a natureza Buda, a misericórdia. Buda encarnado. Eihei Dōgen nos diz em “Bussho”: Ao mesmo tempo é as pupilas de todos os budas e de todos os ancestrais. Total-existência são as palavras Buda, a língua Buda, as pupilas dos olhos dos ancestrais Buda, as narinas de um monge Zen”. Ryokan, Saigyo, Issa, Basho e muitos outros monges e poetas cantaram as manifestações da natureza, coparticipando de suas grandezas, bondades e tristezas. Para aqueles que procuram o estado Buda nos ritos e teorias religiosas, Dōgen de imediato adianta: "faça de uma telha um espelho mediante seu polimento com uma pedra.”

A natureza, o corpo Buda, torna a vida cotidiana comum. Cada instrumento a serviço da vida é as mãos Buda. Juntos, todos os seres e a natureza são Budas misericordiosos. Aqui está dois poemas de Ryokan e um haicai de Issa.

“O vento veio para ficar,
 as flores caíram; 
Cantam os pássaros,
as montanhas silenciam
este é o estupendo poder do Budismo”

Ryokan

A natureza modesta e silenciosa assegura aos vários seres que se encontram em seu peito, que se relacionem entre si de modo vital e harmonioso.
.
“Sem pensarem, as flores atraem a borboleta
Sem pensar, a borboleta visita as flores
Ainda assim, quando as flores desabrocham
A borboleta vem
E quando a borboleta vem, a flor desabrocha”

Ryokan

“folhas caídas:
o sermão
de Buda”

Issa

O BODISATTVA

“Eu me tornei o barco, a estrada e a ponte para quem deseja alcançar a outra margem. Posso ser a luz para aqueles que precisam de luz. Assim eu posso ser o apoio em muitos aspectos para o reino dos inúmeros seres que habitam em qualquer parte do espaço, enquanto todos se libertam".

SHANTIDEVA (Bodhicharyavatara  - Caminho da Iluminação)

O bodisatva faz o voto de não entrar no Nirvana antes dos seres que ainda não cruzaram a margem, mesmo que ainda estejam presos às paixões e ilusões.  É o ser que abdicou do conforto e que se comprometeu a retornar para dar uma mão para aqueles que ainda se encontram na lama. Existem muitos caminhos através dos quais o bodisatva exercita o seu compromisso. Listo algumas destas práticas, com a terminologia japonesa.

Zaise: pedir esmola, comida, abrigo, etc...
Hōse: partilha dos bens espirituais, ensinar as pessoas o caminho da iluminação, orar pela família, etc.
Muise: onde se encontra o próprio Buda da caridade, o que é trabalhoso para o ser humano: perdoar e amar os inimigos. Esta caridade é aplicada diretamente do Buda através da cooperação instrumental do ser”.

MU significa vazio. Quero dizer, sem intenções. Assim indica o amor sem apego, indica o celestial, a ação compassiva direta de Buda. A lista que citei foi tirada de um ensaio de Koin Takada, abade do Templo de Yakushiji - A cura de Buddha - Nara, um Património Mundial da UNESCO.

O EVANGELHO E O ZEN

É oportuno uma breve reflexão sobre o diálogo espiritual, a partir da minha própria experiência. Reconheço que no caminho budista, particularmente no Jōdo mas também no Zen, os benefícios dos ensinamentos de Buda são experimentados e realizados numa atmosfera muito humana e sincera. Isto é devido à importância do ambiente oriental da essência do extremo oriente. A natureza - ver com os próprios olhos - dizemos que para os budistas, substitui o conceito de Deus. A existência na dimensão humana, sem ter que alçar-se a uma entidade superior, desaparece, mantém o entusiasmo da obra de misericordiosa pulsante. Esta é uma lição para a nossa tendência de querer “teologizar” obras de caridade, como se fosse a motivação da visita a uma pessoa doente, alegando que Jesus prometeu o paraíso para aqueles que fazem esse trabalho.

A compreensão mais pura do Budismo nos ensina a “não querer nada em troca”, que essa cobiça não deve se misturar a caridade. Cristo não foi perfeito por ter uma natureza excelsa, mas pelo conhecimento humano puro que tinha, e nada mais. “Embora sendo Filho, ele aprendeu a obedecer por meio daquilo que sofreu; e, uma vez aperfeiçoado, tornou-se a fonte da eterna salvação para todos os que lhe obedecem (Hebreus 5:8,9)”. 

Simultaneamente, o Budismo continua a ser uma luz sem sombra. Pelo fato de que no caminho budista você não reconhece a posição de um Deus que transcende todas as suas faculdades, a misericórdia está sempre dentro dos limites da realidade humana. Diferente disso, a humanidade seria um bode-expiatório, e as pessoas não poderiam ajudar uns aos outros com obras misericordiosas, pois não haveria salvação. Ao longo da via do diálogo, a todos tem a possibilidade de expandir a consciência dentro de uma perspectiva autêntica da compaixão.

(artigo publicano na revista dos Servos de Maria "Monte Senario - cadernos espiritualidade nº 58, janeiro-abril 2016).



Luciano Mazzocchi, é um Missionário Xaveriano, viveu durante vinte anos (1962-1982) no Japão, estudou as tradições religiosas e a cultura do país. De volta à Itália, fundou com o monge Zen Jiso Forzani, a sangha "Estrela da Manhã", local de diálogo entre os Evangelhos de Cristo e o Zen. Em 2008 ele fundou a associação "Evangelho e Zen", com sede em Desio, Brianza. É o autor de vários livros, dentre os quais se desta “O Evangelho de João e o Zen”; “O evangelho e o Zen. Diálogo como caminho religioso” (com AM Tallarico); “As ondas e o mar. A aventura de um cristão no diálogo com o Zen”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.