O povo do sopé dos
Himalaias reconheceu o príncipe dos Sakyas, com o “Desperto”, Shakyamuni Buda,
o sábio. Com o passar do tempo, os herdeiros do Dharma apagaram a figura do
mestre “extraordinário” embelezado com uma série de enganos. Nós não sabemos se
essas histórias são verdadeiras; No entanto, é certo que as primeiras gerações
interpretaram o despertar como um caminho de bondade e compaixão. Não temos
notícias analisadas pela crítica histórica sobre a personalidade de dois mil e
quinhentos anos atrás, mas sim a do Buda gerado ao longo dos séculos por
aqueles que percorreram “o caminho do meio”. Esta linha de pensamento é de grande
valor. O Buda não é previamente uma pessoa, mas um arquetipico, a essência de
uma tradição.
Uma antiga roda encontrada
em Govindnagar (Paquistão), que data do século II, representa Amitaba Buda. Dizem
que um rei poderoso deixou tudo e dedicou-se ao Dharma de Buda, e se iluminou. Então,
ele partiu para uma Terra Pura, onde sempre eleva os votos de salvação. Graças
ao poder desta perfeita invocação, todos os devotos pronunciam com fé o seu
nome, com clareza e segurança. É esta a mais amada tradição budista seguida no
Japão, sob o nome de Jodo, Terra Pura. Amitaba foi traduzido como Amida,
adicionado o título “Tathagata”, ou aquele que se tornou o que é. Aquele que se
tornou o Buda confirma que não se trata de uma figura histórica, mas um alcance
sagrado. Esta é a essência da misericórdia de Buda. Uma afirmação famosa do
mestre Shinran (1173 - 1263): “Todos dizem
que se Amida salva os pecadores, salva
também os justos. Mas o oposto também é verdadeiro: Se Amida salva os justos, salva
mais os pecadores, porque Amida é pura misericórdia. Igualmente Tannisho, por
Shinran.
Em três séculos, o
Budismo passou por uma profunda transformação: a antiga forma monástica assumiu
o caráter comunitário, referente ao Veículo Mahâyâna. Com esta nova
compreensão, mesmo a forma austera que remete às origens da vida monástica de Buda,
as regras passaram por mudanças significativas, satisfazendo as expectativas
habituais dos monges. O rosto de Buda assumiu características femininas. Para
esta nova feição foi dada o nome de Kannon, ou seja, “aquela que vê e ouve os
lamentos dos seres”. Kannon é a personificação da compaixão e bondade, mãe e
padroeira universal, especialmente pras pessoas de coração simples. "Se as
pessoas precisam de um monge ou de uma freira para serem salvos, Kannon torna-se
imediatamente uma monja e uma freira, uma leiga e prega o ensinamento da
perfeição da sabedoria" (Wikipedia: Guanshiyin Pusa pǔmén pn).
No Japão, nos séculos
de perseguição aos cristãos (1600-1870), eles viviam escondidos, para escapar
do controle das autoridades sincretizaram a imagem da Virgem Maria feita de
argila na forma de Kannon, com a adição de uma pequena cruz na parte de trás da
imagem. Estas estátuas, das quais ainda existem, são chamadas Maria Kannon. Elas
têm um rosto coberto de ternura e compaixão.
O Buda, bem como o Cristo,
não são apenas dois personagens históricos, de um lado o príncipe dos Sakyas,
do outro, o carpinteiro de Nazaré, mas ambos são a senda de gerações que têm
recebido e transmitido suas riquezas, desenvolvendo-as com novos “insights”.
Assim, a compaixão de Buda não é apenas
uma corrente que flui a ermo, mas sim uma grande corrente composta por muitas
correntes que, num certo momento e em certos territórios, atingiu a plenitude,
inundando o oriente de generosidade e altruismo. Um eremita e poeta japonês
chamado Ryokan, cantou em poucos versos a bondade e gentileza que transbordava
em sua alma, corpo, e em seu robe.
“Se o meu robe
fosse tão grande,
eu gostaria de cobrir
com ele
todo o sofrimento
que está no mundo"
A
NATUREZA, O CORPO DE BUDA, O COMPASSIVO
Esse mundo é a escola
onde os seres são introduzidos e guiados à grande - benevolente – e sofrida experiência
de Mahakaruna (Grande Compaixão). A simplicidade da interdependência dos
fenômenos hoje reconsiderada, ensina que o “eu” não está separado do universo, que
não devemos reduzir essa compreensão ao plano individual. Com a separação da
mente-alma como diz Plotino, apagamos a chama original e destruímos a nós
mesmos e aos outros. Nos tornamos violentos.
O Budismo nos ensina a
tratar a natureza com reverência e respeito. O Budismo também é compatível com
a vida do mosquito que pica. Ryokan, monge Zen e poeta, costumava dormir um dia
com a perna direita e no outro dia com a perna esquerda fora do mosquiteiro,
para o benefício dos insetos. Não é um ato virtuoso, mas elogiável,
Ryokan percebeu a correnteza da vida num fluxo com tudo o que vive.
O corpo é a natureza Buda, a misericórdia.
Buda encarnado. Eihei Dōgen nos diz em “Bussho”: “Ao mesmo tempo é as pupilas de todos os budas e de todos os ancestrais. Total-existência são as
palavras Buda, a língua Buda, as pupilas dos olhos dos ancestrais Buda, as narinas de um monge Zen”. Ryokan, Saigyo, Issa,
Basho e muitos outros monges e poetas cantaram as manifestações da natureza,
coparticipando de suas grandezas, bondades e tristezas. Para aqueles que
procuram o estado Buda nos ritos e teorias religiosas, Dōgen de imediato
adianta: "faça de
uma telha um espelho mediante seu polimento com uma pedra.”
A
natureza, o corpo Buda, torna a vida cotidiana comum. Cada instrumento a
serviço da vida é as mãos Buda. Juntos, todos os seres e a natureza são Budas
misericordiosos. Aqui está dois poemas de Ryokan e um haicai de Issa.
“O vento veio para ficar,
as flores caíram;
Cantam os pássaros,
Cantam os pássaros,
as montanhas silenciam
este é o estupendo poder do Budismo”
este é o estupendo poder do Budismo”
Ryokan
A natureza modesta e silenciosa assegura aos vários seres
que se encontram em seu peito, que se relacionem entre si de modo vital e
harmonioso.
.
“Sem pensarem,
as flores atraem a borboleta
Sem pensar, a
borboleta visita as flores
Ainda assim,
quando as flores desabrocham
A borboleta vem
E quando a
borboleta vem, a flor desabrocha”
Ryokan
“folhas caídas:
o sermão
de Buda”
Issa
O
BODISATTVA
“Eu me tornei o barco,
a estrada e a ponte para quem deseja alcançar a outra margem. Posso ser a luz
para aqueles que precisam de luz. Assim eu posso ser o apoio em muitos aspectos
para o reino dos inúmeros seres que habitam em qualquer parte do espaço,
enquanto todos se libertam".
SHANTIDEVA
(Bodhicharyavatara - Caminho da
Iluminação)
O bodisatva faz o voto
de não entrar no Nirvana antes dos seres que ainda não cruzaram a margem, mesmo
que ainda estejam presos às paixões e ilusões.
É o ser que abdicou do conforto e que se comprometeu a retornar para dar
uma mão para aqueles que ainda se encontram na lama. Existem muitos caminhos
através dos quais o bodisatva exercita o seu compromisso. Listo algumas destas
práticas, com a terminologia japonesa.
Zaise: pedir esmola,
comida, abrigo, etc...
Hōse: partilha dos bens
espirituais, ensinar as pessoas o caminho da iluminação, orar pela família,
etc.
Muise: onde se encontra
o próprio Buda da caridade, o que é trabalhoso para o ser humano: perdoar e
amar os inimigos. Esta caridade é aplicada diretamente do Buda através da cooperação
instrumental do ser”.
MU significa vazio.
Quero dizer, sem intenções. Assim indica o amor sem apego, indica o celestial,
a ação compassiva direta de Buda. A lista que citei foi tirada de um ensaio de
Koin Takada, abade do Templo de Yakushiji - A cura de Buddha - Nara, um
Património Mundial da UNESCO.
O EVANGELHO E O ZEN
É oportuno uma breve
reflexão sobre o diálogo espiritual, a partir da minha própria
experiência. Reconheço que no caminho budista,
particularmente no Jōdo mas também no Zen, os benefícios dos ensinamentos de
Buda são experimentados e realizados numa atmosfera muito humana e sincera. Isto
é devido à importância do ambiente oriental da essência do extremo oriente. A
natureza - ver com os próprios olhos - dizemos que para os budistas, substitui
o conceito de Deus. A existência na dimensão humana, sem ter que alçar-se a uma
entidade superior, desaparece, mantém o entusiasmo da obra de misericordiosa pulsante. Esta é uma lição para a nossa tendência de querer “teologizar” obras
de caridade, como se fosse a motivação da visita a uma pessoa doente, alegando
que Jesus prometeu o paraíso para aqueles que fazem esse trabalho.
A compreensão mais pura do Budismo nos ensina a “não querer nada em
troca”, que essa cobiça não deve se misturar a caridade. Cristo não foi
perfeito por ter uma natureza excelsa, mas pelo conhecimento humano puro que
tinha, e nada mais. “Embora sendo Filho, ele aprendeu a obedecer por
meio daquilo que sofreu; e, uma vez aperfeiçoado, tornou-se a fonte da eterna
salvação para todos os que lhe obedecem (Hebreus 5:8,9)”.
Simultaneamente,
o Budismo continua a ser uma luz sem sombra. Pelo fato de que no caminho
budista você não reconhece a posição de um Deus que transcende todas as suas
faculdades, a misericórdia está sempre dentro dos limites da realidade humana. Diferente
disso, a humanidade seria um bode-expiatório, e as pessoas não poderiam ajudar uns
aos outros com obras misericordiosas, pois não haveria salvação. Ao longo da
via do diálogo, a todos tem a possibilidade de expandir a consciência dentro de
uma perspectiva autêntica da compaixão.
(artigo publicano na revista
dos Servos de Maria "Monte Senario - cadernos espiritualidade nº 58,
janeiro-abril 2016).
Luciano Mazzocchi, é um Missionário Xaveriano, viveu durante vinte anos (1962-1982) no Japão, estudou as tradições religiosas e a cultura do país. De
volta à Itália, fundou com o monge Zen Jiso Forzani, a sangha "Estrela da
Manhã", local de diálogo entre os Evangelhos de Cristo e o Zen. Em 2008
ele fundou a associação "Evangelho e Zen", com sede em Desio,
Brianza. É o autor de vários livros, dentre os quais se
desta “O
Evangelho de João e o Zen”; “O evangelho e o Zen. Diálogo como caminho
religioso” (com
AM Tallarico); “As ondas e o mar. A aventura de um cristão no
diálogo com o Zen”.


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