No Cristianismo e no Budismo, o cerne
da verdadeira meditação é a intimidade com a própria natureza. Uma das
coisas inspiradoras na vida de Jesus e de Buda é a simplicidade dos seus questionamentos. Eles
tinham modelos mas, em última instância, cada um se desvencilhou
desses modelos. Há algumas citações de Jesus que eu considero particularmente
relevantes. Uma das primeiras coisas que o Mestre Zen Seung Sahn me orientou
a fazer era se perguntar: “Quem sou eu?" Vamos supor que há dois mil anos
atrás você esteja sentado com Jesus, e ele diz "traga a superfície o que
está nas profundezas". E então, ele não diz mais nada, e simplesmente
se retira. Essas seriam suas instruções. Com o tempo, talvez você comece
a se perguntar, espontaneamente, o que tem dentro de você que poderia te salvar? O
que seria?
Em nossa escola, temos retiros de
três meses no inverno chamado Kyol Che, "dharma unificado (sesshin)".
Eu repito a mesma programação todos os dias, em silêncio. Cerca de dez
horas olhando apenas para o chão em silêncio. Todos os dias há um período
de trabalho, todos os dias têm café-da-manhã, almoço e jantar. A repetição
é para que nossa mente possa descansar um pouco e se perguntar: "O que eu sou?",
ou “O que tem dentro de mim que pode me libertar”? Como encontro isso?
“Existe uma dádiva tremenda nessa repetição”.
Não é preciso muita experiência de
vida para perceber que poderíamos ser um pouco mais generosos; Que o
desconforto, doença, tristeza, e o egoísmo existem. A religião nos propõe
qualidades às quais desejamos: como generosidade e paciência. Há mantras e citações
que usamos no Budismo, como a oração jaculatória no Cristianismo, que substitui
a mente discriminadora, a mente que tem preferências e que está desequilibrada
- pela mente luminosa com apenas a repetição de orações. Assim como uma
criança rela em algo quente por falta de conhecimento e queima sua mão, os
adultos se metem em situações que lhes causam sofrimento. Se repetimos essas frases ou
orações, transformamos a dor numa consciência estável, clara, aberta e presente.
Jesus falou sobre a semente de
mostarda, "a mais ínfima de todas as sementes. Mas quando cai em solo
preparado, ela cresce e se transforma numa grande árvore que abriga todas as
aves do céu”. A semente de mostarda tem sido usada metaforicamente no Budismo
também. Nossa mente é a mesma. Às vezes, nossa natureza Buda, nossa
natureza crística, nossa capacidade de ver claramente é muito, muito
pequena. Temos péssimos dias. Então começa
agora. Basta se considerar portador dessa semente.
O solo preparado é muito
importante. Com um estilo de vida inconsciente, é difícil alcançar seu
verdadeiro eu. Contudo também é dito, "em água parada, o peixe não
pode viver." Se a água é muito limpa, não haverá nada para comer. Cada
um de nós precisamos encontrar o "caminho do meio". Nós temos que descobrir
a relação de compromisso com este mundo. Não podemos ser displicentes ou rígidos.
Eu morei no Providence Zen Center
por dezessete anos. Todas as manhãs, o sino de despertar me lembrava:
"É hora de praticar." O Buda ensinou que nos apegamos facilmente a comida,
sexo, sono, fama e riqueza. Eles te mantêm na cama de manhã; Você
está exausto por não ter um relacionamento equilibrado com um deles. O
sino ajuda você a se equilibrar. Você levantou cedo, então tem tempo para investigar:
"O que está dentro de mim que pode me salvar, me manter sem apego?". Esses cinco apegos são nem bons nem
maus; É a nossa relação com eles que importa. O Mestre Zen Seung
Sahn dizia: "Por que agir - para quê e para quem?" Essa pode ser uma
de nossas orações jaculatórias, uma de nossas perguntas. Precisamos abrir os
olhos, então: "Para quê e para quem? O que estou fazendo agora?”.
A oração e a contemplação não para
no mosteiro ou no centro Zen. Se ensinados e praticados de modo sincero, são totalmente portáteis. Trabalhei como enfermeira num hospício, exposta as
infinitas oportunidades para despertar para situações da vida, incorporei a
meditação em meu trabalho de enfermagem. Muitos dos pacientes personificam
o que acontece em todos nós. Ficamos desanimados, sentimos vontade de
desistir, podemos ser autodestrutivos. Muitos dos pacientes que abusaram de
drogas pesadas têm uma história em comum. Injetar heroína nas veias é obviamente autodestrutivo. Às vezes é muito desafiador vivenciar isso e dar apoio a
alguém que tem sido a erosão da sua própria terra, onde a semente de mostarda
precisava germinar.
Mas percebo que há também formas
mais sutis de autodestruição que todos nós estamos ligados. Talvez
entorpecidos - não estar verdadeiramente no momento presente - é apenas uma
forma sutil de ação do viciado em heroína. Quando oramos ou meditamos temos
esta oportunidade maravilhosa, de voltarmos ao nosso ser e perguntarmos:
"O que existe dentro de mim, o que pode me libertar?" É muito
interessante como podemos chegar à beira da libertação e, em seguida, se entorpecer
novamente.
Duas outras citações de Jesus são
muito apreciadas: "Quem veio a conhecer o mundo descobriu o corpo, e quem
descobriu o corpo vale mais que o mundo”. “Busque um lugar de descanso para si,
para que você não se torne uma carcaça e seja devorado”. A carcaça representa o
apego à comida, sexo, sono, fama e riqueza-mundanismo. Assim, aquele que
se tornou carcaça é aquele que tem um conhecimento distorcido do mundo. Um
Mestre Zen poderia dizer: "A quanto tempo você está carregando esse
cadáver?", ou "Você é apenas um saco de arroz!". Um saco de
arroz é um objeto pesado e difícil de manusear - chamando assim alguém de saco
de arroz significa que a pessoa não têm comando, nem vocação.
Precisamos encontrar a nossa
vocação para que a gente não se torne uma carcaça e sejamos comidos. Eu
não posso lhe dizer o número de pessoas que eu assisti morrer se sentindo como uma carcaça. Antes que elas deem seu último suspiro dirão de forma
desanimada, "O que foi essa vida? foi tão triste". É possível
encontrar bons professores que possam nos ajudar a entrar em equilíbrio com a
nossa carcaça, para que nos isso se torne veículo de nossa vocação e não o
recipiente da nossa ganância, ansiedades e equívocos. Mas não há necessidade de
manter essa ideia de “eu sou uma carcaça; e serei devorado”. “Jesus disse:
despertem!”. É um pequeno aviso: "Oh sim, eu sei o que é sentir-se
preso em meu corpo, curvando-se a cada desejo." Então, apenas desperte
para isso.
Alguém perguntou uma vez a Jesus:
"Quando o descanso final para os mortos vai acontecer, e quando virá o reino dos céus?" As pessoas também queriam saber isso do Buda. Eles
perguntavam: “O que é Buda”? O que é dharma? Mostre-me o caminho! “Nós
todos pensamos, esta vida não é tão boa, então quando é que vai melhorar”? Jesus
respondeu: "O que você procura você já tem, mas não sabe". O Buda
disse que é como um peixe nadando na água e dizendo: "Tenho sede".
Às vezes é mais fácil alguém ver
sua natureza Buda do que você mesmo. Porém o trabalho começa em cada um de
nós. Está no nosso cerne. Temos que encontrar em nossas entranhas, a
capacidade de estarmos equilibrados com essas cinco coisas: comida, sexo, sono,
fama e riqueza. Morrer sem nunca saber quem somos pode parecer
mais fácil do que descobrir que somos responsáveis por esta vida agora.
Cada um de nós tem a capacidade de
se abrir para o que nós somos, qualquer que seja a situação. Há enormes
oportunidades para aprender, para sair da zona de conforto e ir para os lugares
que são mais difíceis de acessar. O importante é não entrar em conceituações, mas se abrir
a cada momento para o que acontece aqui e agora. Precisamos preparar o
solo, porque temos a semente de mostarda. Ninguém nasce sem ela.
Nota do Editor: A autora extrai do Evangelho de Tomé, um texto cristão gnóstico que data dos primeiros séculos da era cristã. Desde sua descoberta no Egito em 1945, os "Evangelhos Gnósticos" inspiraram pesquisas renovadas da pessoa e da mensagem de Jesus. Embora não sejam considerados textos autorizados pela igrejas, esses textos continuam ganhando influência dentro e fora do cristianismo.
tradução livre
palestra da conferência cristã-budista no Providence Zen Center, Outubro de 1990.
palestra da conferência cristã-budista no Providence Zen Center, Outubro de 1990.
Soeng Hyang é mestra Zen Budista
Coreana e orientadora da Escola Internacional Kwanum. É sucessora do mestre
coreano Seung Sahn Soen Sa Nim, e também uma das fundadoras do Providence Zen
Center. Recebeu o “inka” em 1977, e a transmissão completa do Dharma em 1992.


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