domingo, 7 de maio de 2017

THOMAS HAND SJ - O CRISTO BODISATVA



“Na realidade, nenhum homem é estranho a ele, porque ele olha para cada um como se fosse seu irmão. Ninguém é seu inimigo. Todos são seus amigos. Mesmo aqueles que na vida cotidiana o magoam ou o ofendem são tão queridos quanto seus melhores amigos e todo o bem que ele deseja para o seu melhor amigo, os deseja para todos eles ... a sua amizade abrasa o mundo inteiro, seja perante o amigo, inimigo, o estranho e o igual. Se há alguma parcialidade, é mais provável que seja para com o inimigo do que para com o amigo.” 

A Nuvem do Não-saber, Johnston, p.82.

Um bodisatva manifesto é aquele que está aqui neste planeta e se dedica a viver ao amor e compaixão além da sabedoria, com esforço, e junto com todos, arrisca-se a retornar à sua origem. Cristo foi um bodisatva. Paulo na carta aos Hebreus diz que Jesus teve que ser como seus discípulos em todos os sentidos, a fim de extinguir os pecados da humanidade. Jesus Cristo foi testado através do sofrimento, e foi capaz de ajudar aqueles que também sofriam. Percorreu o caminho do pertencimento, podemos seguir por esse mesmo caminho. 

Uma das características de ação do bodisatva é o uso de "meios hábeis". Este termo significa que ele ou ela utiliza todos os meios possíveis para auxiliar as pessoas, apontando para o caminho da iluminação e por fim, auxiliando-as a se libertarem do sofrimento. A paixão, morte e ressurreição de Cristo clarifica isso. Existe um poema famoso da tradição budista indiana do séc. IX, que demonstra o amor de um bodisatva perante a humanidade: 

Possa a virtude que adquiri fazendo tudo isso aliviar todo sofrimento dos seres sensíveis
Possa eu ser o medicamento e o médico do doente
Que seja a sua enfermeira até a sua doença nunca mais ocorrer
Com chuvas de comida e bebida, que eu supere as aflições de fome e sede
Que eu me torne na comida e bebida durante os tempos de escassez
Que eu seja um tesouro inesgotável para o destituído
Com várias formas de ajuda, que eu permaneça na sua presença
Por causa de realizar o bem-estar de todos os seres sensíveis eu deixo meu corpo, prazeres, e todas minhas virtudes dos três tempos livremente. 
A renúncia de tudo é nirvana, e minha mente busca nirvana
Se eu tiver que renunciar a tudo, é melhor que eu dê isto aos seres sensíveis.
Por causa de todos os seres eu fiz este corpo desagradável
Que os deixe continuamente maltratar isto, insultar-me e me cobrir com sujeira. 
Que os deixe jogar com meu corpo
Que os deixe rir disto e ridicularizar
O que importa a mim? Eu dei meu corpo a eles
Que me deixe executar ações que são conducentes à sua felicidade
Que quem recorre a mim, que nunca possa ser em vão
Para esses que recorreram a mim e tiveram um pensamento bravo ou indelicado, que mesmo assim isso seja a causa para realizar toda a sua meta   
Que esses que falsamente me acusam, que me prejudicam, e que me ridicularizam em tudo participem do Despertar
Que eu possa ser um protetor para os que estão sem protetores, um guia para viajantes, e um barco, uma ponte, e um navio para os que desejem atravessar
Que eu possa ser uma luz para os que buscam luz, uma cama para os que buscam repouso, e que possa poder ser eu um servo para todos os seres que desejam um servo. 
Para todos os seres sensíveis possa eu ser a pedra preciosa que realiza todos os desejos, um vaso de boa fortuna, um mantra eficaz, um grande medicamento, a árvore que realiza todos os desejos, e o gado que garante todas as necessidades. 
Da mesma maneira que a terra e os outros elementos são úteis de vários modos aos inumeráveis seres sensíveis que moram ao longo de espaço infinito, 
Assim possa eu de vários modos ser uma fonte de vida para os seres sensíveis ao longo do espaço até que eles sejam de tudo liberados.
Da mesma maneira que o anterior Sugata  adotou o Espírito de Despertar, e da mesma maneira que todos se conformaram com Ele corretamente à prática dos Bodisatvas, 
Assim eu gerarei o Espírito de Despertar por causa do mundo, e assim eu me ocuparei corretamente dessas práticas
Ao adotar alegremente o Espírito de despertar deste modo, uma pessoa inteligente deveria desenvolver assim o Espírito para cumprir o seu desejo
Agora minha vida é frutífera. A existência humana é beneficamente obtida.
Hoje eu nasci na família dos Budas
Agora eu sou um Filho do Buda
Assim, tudo que eu faço deveria ser agora de acordo com a família dos Bodisatvas, e não deveria estar como uma mancha nesta família pura
Da mesma maneira que um homem cego poderia achar uma joia entre montões de lixo, assim este Espírito do Despertar surgiu de alguma maneira em mim
É o elixir da vida produzido para derrotar a morte no mundo
É um tesouro inesgotável que elimina a pobreza do mundo
É o medicamento supremo que alivia a doença do mundo
É a árvore do descanso para seres cansados de vagar no longo caminho da existência mundana
É a ponte universal para todos os viajantes no cruzamento deles/delas por estados miseráveis de existência
É a lua nascente da mente que acalma as aflições mentais do mundo
É o grande sol que dispersa a escuridão da ignorância do mundo
É a manteiga fresca formada do agitar do leite do Dharma 
Para a caravana de viajantes no caminho da existência mundana sofrendo fome pela comida da felicidade, é o banquete da felicidade que satisfaz a todos os seres sensíveis que vieram como convidados
Hoje eu convido o mundo ao Caminho do Sugata e à felicidade temporal
Possam os deuses, asuras, e outros se alegrar na presença de todos os Protetores! 

Shantideva: Guia do Estilo de Vida do Bodisatva, citado em O Cristo Bodisatva , p. 74.
 
Necessitamos de forma ilimitada ofertar o amor, para assim abalar nossas manias egocêntricas. Você não pode transmitir amor verdadeiro se você é egocêntrico. O único amor verdadeiro é aquele que vem do centro da “Fonte”, não do ego. Esse é o reino de Deus e o império do amor. Esse amor supremo é invencível. Devemos ir à raiz da unidade, a fonte de nossa unicidade, porque o amor nasce da descoberta e aceitação de que somos interdependentes. Jesus é um perfeito bodisatva, viveu de forma compassiva e passou por terríveis sofrimentos, nos apresentou a via dolorosa e como penetrar no amor. Ele nos ofereceu o que precisamos para a nossa própria libertação. 

Vejamos o modo como Jesus atravessou. É da mesma maneira que também precisamos atravessar – nos entregando completamente. Ele se desprendeu de tudo. Neste desprendimento, se tornou um ser inteiramente livre. Nós também podemos penetrar nesse infinito ilimitado e encontrar a fonte da essência do nosso ser. Jesus se manifestou através do sofrimento e morte, do mesmo modo é o que deve ocorrer em nossos corações. Morrer fisicamente é inútil e de maneira alguma nos liberta, a menos que a nossa própria vontade seja a morte psicológica. A menos que tenhamos total desapego, não morremos quando morremos fisicamente. Se não existe “Morte Fantástica”, não poderá haver “Ressurreição Fantástica”.

A morte física de Jesus representa o desapego interior. Ele foi despojado de suas vestes e sem nenhuma posse. Devemos fazer o mesmo, ter a mesma experiência.  Ele não tinha mais reputação nem nome e foi tratado como indigente. É  necessário estarmos dispostos a esse tipo de experiência.  Ele abdicou do seu lugar na sociedade e da identificação de mestre como, por exemplo, quando todos os seus discípulos fugiram. Mostrou ainda que havia desistido da identidade familiar, dizendo a Maria que João era seu filho notável, e que ele não mais era seu filho. Não restava apreciações. Finalmente, até sua relação com Deus foi prejudicada. "Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?" Ele nos ensina, através de sua própria morte, a como encarar o vazio absoluto e renunciar. Todos nós temos que fazer isso. Temos de enfrentar o vazio e simplesmente abandonar o eu.

Em Getsêmani, Jesus se desapegou de tudo e a face da morte tornou-se clara. Ele aceitou todos os terríveis aspectos humanos, transformando-os em amor. Experimentou a comunhão com toda a humanidade, aceitou o peso da unidade com terrível sofrimento que o conduziu  ao seu coração. Isso então se transformou no próprio sofrimento. Foi tudo um ato de amor. O que levou Cristo a livrar-se de todo sofrimento foi o amor. Deixou tudo de lado e foi para o vazio que, como os Padres da Igreja primitiva gostavam de dizer, tornou-se o túmulo do qual a nova vida nasce, a Mãe de Deus, a fonte da onde tudo se manifesta.

Ele é ainda um Jesus pessoal, mas ainda o puro arquétipo do bodisatva da compaixão, da sabedoria e da força, que são universais para toda a criação e que foi sintetizado nele. A correnteza do espírito é pura e tranquila. Os chineses entenderam que quando falavam sobre o significado de “WU WEI”, falavam que nenhuma ação do ego devia interferir o fluxo da correnteza. O que isso significa? Isso é ressurreição. Há uma liberdade plena, sem restrições de nenhum tipo. No seio de uma fonte infinita que se manifesta livremente, não há obstáculo à correnteza de compaixão, sabedoria e força. Isso é o Cristo Bodisatva. 



tradução livre do trecho do livro Handokai – O caminho Zen-Cristão (seleção de escritos e palestras de Thomas G. Hand)

 Pe. Thomas Hand sj, foi um teólogo jesuíta que viveu por quase 30 anos no Japão, onde estudou o Zen-Budismo sob orientação de Yamada Koun Roshi e Yasutani Roshi. É professor do Mercy Center em Burlingame, Califórnia, espaço onde os praticantes são orientados na prática inter-confessional cristã-budista.

 http://mercy-center.org/

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