“Na realidade, nenhum homem é
estranho a ele, porque ele olha para cada um como se fosse seu irmão. Ninguém é
seu inimigo. Todos são seus amigos. Mesmo aqueles que na vida cotidiana o
magoam ou o ofendem são tão queridos quanto seus melhores amigos e todo o bem
que ele deseja para o seu melhor amigo, os deseja para todos eles ... a sua
amizade abrasa o mundo inteiro, seja perante o amigo, inimigo, o estranho e o
igual. Se há alguma parcialidade, é mais provável que seja para com o inimigo
do que para com o amigo.”
A Nuvem do Não-saber, Johnston, p.82.
Um bodisatva manifesto é aquele que está aqui neste planeta e se dedica a
viver ao amor e compaixão além da sabedoria, com esforço, e junto com todos, arrisca-se
a retornar à sua origem. Cristo foi um bodisatva. Paulo na carta aos Hebreus diz que
Jesus teve que ser como seus discípulos em todos os sentidos, a fim de extinguir
os pecados da humanidade. Jesus Cristo foi testado através do sofrimento, e foi
capaz de ajudar aqueles que também sofriam. Percorreu o caminho do
pertencimento, podemos seguir por esse mesmo caminho.
Uma das características de ação do bodisatva é o uso de "meios hábeis".
Este termo significa que ele ou ela utiliza todos os meios possíveis para
auxiliar as pessoas, apontando para o caminho da iluminação e por fim,
auxiliando-as a se libertarem do sofrimento. A paixão, morte e ressurreição de
Cristo clarifica isso. Existe um poema famoso da tradição budista indiana do séc.
IX, que demonstra o amor de um bodisatva perante a humanidade:
Possa a virtude que adquiri fazendo tudo isso aliviar
todo sofrimento dos seres sensíveis
Possa eu ser o medicamento e o médico do doente
Que seja a sua enfermeira até a sua doença nunca mais
ocorrer
Com chuvas de comida e bebida, que eu supere as aflições
de fome e sede
Que eu me torne na comida e bebida durante os tempos de
escassez
Que eu seja um tesouro inesgotável para o destituído
Com várias formas de ajuda, que eu permaneça na sua
presença
Por causa de realizar o bem-estar de todos os seres
sensíveis eu deixo meu corpo, prazeres, e todas minhas virtudes dos três tempos
livremente.
A renúncia de tudo é nirvana, e minha mente busca nirvana
Se eu tiver que renunciar a tudo, é melhor que eu dê isto
aos seres sensíveis.
Por causa de todos os seres eu fiz este corpo
desagradável
Que os deixe continuamente maltratar isto, insultar-me e
me cobrir com sujeira.
Que os deixe jogar com meu corpo
Que os deixe rir disto e ridicularizar
O que importa a mim? Eu dei meu corpo a eles
Que me deixe executar ações que são conducentes à sua
felicidade
Que quem recorre a mim, que nunca possa ser em vão
Para esses que recorreram a mim e tiveram um pensamento
bravo ou indelicado, que mesmo assim isso seja a causa para realizar toda a sua
meta
Que esses que falsamente me acusam, que me prejudicam, e
que me ridicularizam em tudo participem do Despertar
Que eu possa ser um protetor para os que estão sem
protetores, um guia para viajantes, e um barco, uma ponte, e um navio para os
que desejem atravessar
Que eu possa ser uma luz para os que buscam luz, uma cama
para os que buscam repouso, e que possa poder ser eu um servo para todos os
seres que desejam um servo.
Para todos os seres sensíveis possa eu ser a pedra
preciosa que realiza todos os desejos, um vaso de boa fortuna, um mantra
eficaz, um grande medicamento, a árvore que realiza todos os desejos, e o gado
que garante todas as necessidades.
Da mesma maneira que a terra e os outros elementos são
úteis de vários modos aos inumeráveis seres sensíveis que moram ao longo de
espaço infinito,
Assim possa eu de vários modos ser uma fonte de vida para
os seres sensíveis ao longo do espaço até que eles sejam de tudo liberados.
Da mesma maneira que o anterior Sugata adotou o Espírito de Despertar, e da mesma
maneira que todos se conformaram com Ele corretamente à prática dos
Bodisatvas,
Assim eu gerarei o Espírito de Despertar por causa do
mundo, e assim eu me ocuparei corretamente dessas práticas
Ao adotar alegremente o Espírito de despertar deste modo,
uma pessoa inteligente deveria desenvolver assim o Espírito para cumprir o seu
desejo
Agora minha vida é frutífera. A existência humana é
beneficamente obtida.
Hoje eu nasci na família dos Budas
Agora eu sou um Filho do Buda
Assim, tudo que eu faço deveria ser agora de acordo com a
família dos Bodisatvas, e não deveria estar como uma mancha nesta família
pura
Da mesma maneira que um homem cego poderia achar uma joia
entre montões de lixo, assim este Espírito do Despertar surgiu de alguma
maneira em mim
É o elixir da vida produzido para derrotar a morte no
mundo
É um tesouro inesgotável que elimina a pobreza do mundo
É o medicamento supremo que alivia a doença do mundo
É a árvore do descanso para seres cansados de vagar no
longo caminho da existência mundana
É a ponte universal para todos os viajantes no cruzamento
deles/delas por estados miseráveis de existência
É a lua nascente da mente que acalma as aflições mentais
do mundo
É o grande sol que dispersa a escuridão da ignorância do
mundo
É a manteiga fresca formada do agitar do leite do Dharma
Para a caravana de viajantes no caminho da existência
mundana sofrendo fome pela comida da felicidade, é o banquete da felicidade que
satisfaz a todos os seres sensíveis que vieram como convidados
Hoje eu convido o mundo ao Caminho do Sugata e à
felicidade temporal
Possam os deuses, asuras, e outros se alegrar na presença
de todos os Protetores!
Shantideva: Guia do Estilo de Vida do Bodisatva, citado
em O Cristo Bodisatva , p. 74.
Necessitamos de forma ilimitada ofertar o amor, para assim abalar nossas manias egocêntricas.
Você não pode
transmitir amor
verdadeiro se você é egocêntrico. O único amor verdadeiro é aquele que
vem do centro
da “Fonte”, não do ego. Esse é o reino de Deus e o império do amor. Esse
amor supremo é invencível. Devemos ir à raiz da unidade, a fonte de
nossa
unicidade, porque o amor nasce da descoberta e aceitação de que somos
interdependentes.
Jesus é um perfeito bodisatva, viveu de forma compassiva e passou por
terríveis sofrimentos, nos apresentou a via dolorosa e como penetrar no
amor. Ele
nos ofereceu o que precisamos para a nossa própria libertação.
Vejamos o modo como Jesus
atravessou. É da mesma maneira que também precisamos atravessar – nos entregando
completamente. Ele se desprendeu de tudo. Neste desprendimento, se tornou um
ser inteiramente livre. Nós também podemos penetrar nesse infinito ilimitado e
encontrar a fonte da essência do nosso ser. Jesus se manifestou através do sofrimento e morte, do mesmo modo é o que deve ocorrer em nossos corações. Morrer
fisicamente é inútil e de maneira alguma nos liberta, a menos que a nossa
própria vontade seja a morte psicológica. A menos que tenhamos total desapego,
não morremos quando morremos fisicamente. Se não existe “Morte Fantástica”, não
poderá haver “Ressurreição Fantástica”.
A morte física de
Jesus representa o desapego interior. Ele foi despojado de suas vestes e sem nenhuma
posse. Devemos fazer o mesmo, ter a mesma experiência. Ele não tinha mais reputação nem nome e foi
tratado como indigente. É necessário estarmos
dispostos a esse tipo de experiência. Ele
abdicou do seu lugar na sociedade e da identificação de mestre como, por
exemplo, quando todos os seus discípulos fugiram. Mostrou ainda que havia
desistido da identidade familiar, dizendo a Maria que João era seu filho notável,
e que ele não mais era seu filho. Não restava apreciações. Finalmente, até sua
relação com Deus foi prejudicada. "Meu Deus, meu Deus, por que me
desamparaste?" Ele nos ensina, através de sua própria morte, a como encarar
o vazio absoluto e renunciar. Todos nós temos que fazer isso. Temos de
enfrentar o vazio e simplesmente abandonar o eu.
Em Getsêmani, Jesus se desapegou de tudo e a face da morte tornou-se clara. Ele aceitou todos
os terríveis aspectos humanos, transformando-os em amor. Experimentou a
comunhão com toda a humanidade, aceitou o peso da unidade com terrível
sofrimento que o conduziu ao seu
coração. Isso então se transformou no próprio sofrimento. Foi tudo um ato de
amor. O que levou Cristo a livrar-se de todo sofrimento foi o amor. Deixou tudo de
lado e foi para o vazio que, como os Padres da Igreja primitiva gostavam de
dizer, tornou-se o túmulo do qual a nova vida nasce, a Mãe de Deus, a fonte da onde tudo se manifesta.
Ele é ainda um
Jesus pessoal, mas ainda o puro arquétipo do bodisatva da compaixão, da
sabedoria e da força, que são universais para toda a criação e que foi sintetizado
nele. A correnteza do espírito é pura e tranquila. Os chineses entenderam que
quando falavam sobre o significado de “WU WEI”, falavam que nenhuma ação do ego devia interferir o fluxo da correnteza. O que isso significa? Isso é ressurreição. Há
uma liberdade plena, sem restrições de nenhum tipo. No seio de uma fonte
infinita que se manifesta livremente, não há obstáculo à correnteza de
compaixão, sabedoria e força. Isso é o Cristo Bodisatva.
tradução livre do trecho do livro Handokai –
O caminho Zen-Cristão (seleção de escritos e palestras de Thomas G. Hand)
Pe. Thomas Hand sj, foi um teólogo
jesuíta que viveu por quase 30 anos no Japão, onde estudou o Zen-Budismo sob
orientação de Yamada Koun Roshi e Yasutani Roshi. É professor do Mercy Center
em Burlingame, Califórnia, espaço onde os praticantes são orientados na prática
inter-confessional cristã-budista.
http://mercy-center.org/


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